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sábado, 17 de abril de 2010

Luz da Estrela - Momentos

Estive um tempo afastado do meu blog por motivos emocionais e de saúde. Uma torrente de situações ocorreram durante esses mais de trinta dias e que me ocuparam mente, corpo e espírito. Tive que aprender duras lições sobre a vida e como anda minha saúde neste momento em que já sinto uma transformação me levar para um lado que lia somente na histórias curtas de Bukowski. A tormenta de querer viver no limite programado nem sempre é viável, pois um ou outro detalhe transforma tudo e se eu não tivesse estrutura emocional teria perecido sem aviso.

Estou doente...

Descobri que a minha vida já está em contagem regressiva. Meu relógio da vida entrou no cronômetro. Isso me assusta, pois sei que ainda tenho muito o que fazer, ensinar, aprender e escrever, criar, transformar o mundo, o meu mundo. Filhos, família, amigos.... Pessoas que vem e vão. Incrível como cada coisa que antes parecia banal ou indiferente ganha seu valor.

Há vinte dias sofri um stress tão intenso que contrai uma gastrite crônica que me levou a dores lacinantes, intensas. Não dormia, não comia, só bebia água, leite gelado e comia biscoito de maizena. Sensação de derrota constante. Agonia e dor, insônia e a constante música no meu fone de ouvido - a melodia das minhas canções favoritas aliviavam, ainda que pouco as contrações da ardência estomacal.

Deitado na minha cama, ao lado da janela que ficava aberta podia ver nas madrugadas de sofrimento as estrelas, sentir o vento e rever rostos, situações e buscar minhas melhores lembranças.

Difícil, mas ver os filhos em volta e sorri com as coisas que fazem é ver que há vinte anos nunca me imaginava assim, PAI. Um roqueiro, criado em meio a bagunça dos anos oitenta, desorientado, aluno medíocre no ensino médio e um geniozinho da cultura pop, fanático por quadrinhos, cinema, literatura e música, muita música. De repente ver que eles são ótimos alunos e gostam - nas devidas proporções - das mesmas coisa que eu na juventude (afinal são versões melhoradas da matriz, EU). Não existe maior recompensa e orgulho.

Era um pensamento de conforto quando a crise de dor aumentava e queria gritar. As dores me atingiam a parte inferior direita do estômago e passava por uma cólica desgraçada. Tinha medo de câncer e nunca fiz nada para merecê-la. Não fumo, não bebo, mas tinha o stress, tão intenso dessa vida de jornalista e empresário, resolvendo todos os dias um gerenciamento de crise. Podia sentir na boca o gosto amargo da doença, a ausência da saliva, os olhos fundos e os gemidos que eu dividia com a música.

Senti dores e muita queimação no abdômen, azia, falta de apetite, náuseas e também vômitos, sangramento na digestão. Ainda assim trabalhei, mantive os compromissos e sempre mantive prestativo aos meus amigos.

Nesse passar de tempo tive alívio emocionais e conversas com uma amiga que me ensinou a ver a vida com outros olhos.

Em certos momentos o psicológico fez mais efeito do que as medicações que tive que tomar. Uma felicidade momentânea que me dava forças.

Sarei.... Mas...

Mas o pior de tudo foi ter me motivado a romper uma realidade por causa de uma relação intensa de amizade que estava quase sem regras, por achar que seria melhor. Queria me afastar de uma pessoa linda por saber que enfrentaríamos problemas futuros, mas fiz da maneira mais tola e absurda.

Não poderia ter agido como agi. Em conversas longas, doloridas, choros e raiva, aprendi com ela que somos melhores juntos, mas dentro da coerência de nossa relação, sempre deixando em evidência nossos melhores momentos.

Não vou escrever mais sobre isso, é pessoal e ainda estamos curando feridas - que eu criei -. Mas rascunhei apenas para citar a letra de uma música que ela me apresentou, "Starlight", do Muse. A música é linda e a letra representa tudo, é um compêndio de sentimentos que eu sinto por ela... Traduz perfeitamente toda a sensação de busca, proteção e desejo que alimentei. A combinação das palavras com a melodia, o tom confessional, parece a nossa história, a minha história com ela.

Não poderia de deixar de registrar isso, ainda que seja um registro que explique a minha ausência e o meu tormento com uma doença que me mina quando ataca. Ao amor que dediquei nesses meses e dias a ela, deixo o registro da música (vídeo) e da letra (logo abaixo, com tradução).






STARLIGHT

Far away Para longe
The ship is taken me far away O navio está me levando para longe
Far away from the memories Para longe das memórias
Of the people who care if I live or die Das pessoas que se importam se eu vivo ou morro

Starlight Luz da estrela
I will be chasing the starlight Eu vou perseguir a luz da estrela
Until the end of my life Até o fim da minha vida
I dont know if it's worth it anymore Eu não sei mais se isso vale a pena

Hold you in my arms Segurar você em meus braços
I just wanted to hold Eu só queria segurar
you in my arms Você em meus braços

My life Minha vida
You electrify my life Você eletrifica minha vida
Lets conspire to ignite Vamos conspirar para acender
All the souls that would die just to feel alive Todas as almas que morreriam só para se sentirem vivas

But I'll never let you go Mas eu nunca deixaria você ir
If you promise not to fade away Se você prometesse não desaparecer
never fade away Nunca desaparecer

Our hopes and expectations Todas as esperanças e expectativas
Black holes and revelations Buracos negros e revelações
Our hopes and expectations Todas as esperanças e expectativas
Black holes and revelations Buracos negros e revelações

Hold you in my Arms Segurar você em meus braços
I just wanted to hold Eu só queria segurar
You in my arms Você em meus braços

Far away Para longe
The ship is taken me far away O barco está me levando para longe
Far away from the memories Para longe das memórias
Of the people who care if I live or die Das pessoas que se importam se eu vivo ou morro

And I'll never let you go Mas eu nunca deixaria você ir
If you promise not to fade away Se você prometesse não desaparecer
never fade away Nunca desaparecer

Our hopes and expectations Nossas esperanças e expectativas
Black holes and revelations, Buracos negros e revelações,
YEAH! YEAH!
Our hopes and expectations Nossas esperanças e expectativas
Black holes and revelations Buracos negros e revelações

Hold you in my Arms Segurar você em meus braços
I just wanted to hold Eu só queria segurar
You in my arms Você em meus braços

quarta-feira, 17 de março de 2010

Ir...





EU - Oi, meu nome é Marcos.

TODOS - Oi Marcos, seja bem-vindo!

(Em seguida um breve silêncio constrangedor)

(Eu mexo os braços e abaixo a cabeça e depois fico pensativo esperando uma reação a mais... )

(Olho para o monitor e ele me dá um sorriso de canto)

MONITOR - Seja bem-vindo Marcos. Qual o seu motivo de vir até aqui o "Recanto da Tristeza"?

(Engasgo um pouco e as lembranças me vem rapidamente. Palavras duras, alguma injustas demais e outras sensatas. Sentia um gosto de carne crua na boca e a intensidade de um sufocamento causada por uma dor repreendida no peito).

EU - Nem eu sei de verdade... Eu... Eu passei em frente e vi o local aberto. Senti uma paz incrível e resolvi entrar...

(Ele me olha com atenção)

MONITOR - Mas isso é muito pouco para alguém se dispor a entrar aqui e sentar junto a um grupo de estranhos e ainda sentir uma paz.

(Senti um aperto na garganta, mas tudo parecia tão fácil de falar. A dor é sentida e recente. Crua, aberta e exposta)

EU - Parece pouco e talvez até seja. Eu... eu não sei...

(Todos me olham e nada dizem. Pareço um estranho sem rumo, sem chão... Um ninguém mesmo)

MONITOR - Por que você apenas não fala o que acontece. Seja franco e tudo se resolverá.

(Abaixei a cabeça e senti um aperto no peito. Estava triste e queria não poder me sentir o mais filho da puta dos miseráveis. Um ridículo da ocasião... Nem eu sei mais o que poderia ser... )

(Suspirei, olhei para o fundo da sala e vi o que parecia ser um rosto conhecido. Mas não era, apenas um flash de deja vu de alguém que amei. Não importa mais mesmo).

(Parecia poder ouvir um som vindo de algum lugar, como uma música suave, mas quase imperceptível. Podia jurar que estava só, mesmo na companhia daquelas pessoas que me olhavam atentamente).

EU - (Reticente) Sei que cometi muitos erros na minha vida e tentei da melhor forma possível tentar consertar o que parecia irremediável. Não sei se me entenderiam, pois é difícil expressar uma situação que eu criei e não soube conduzir e ainda assim, saber que parte da culpa não foi só minha. Mas eu sinto uma dor tão latente... Um vazio que chega tomando conta de um espaço que era reservado para uma pessoa.

(Abaixo a cabeça e olho para minhas mãos. Por um breve momento medito, coisa rápida)

EU - Hoje eu perdi um pedaço do meu coração, não saberia explicar até que ponto isso pode afetar o meu futuro ou o meu conceito de amizade, mas me fez pensar que preciso dar ainda mais atenção as pessoas que amo para que elas compreendam que eu sou tão falho quanto elas. Tenho razões obscuras que até eu mesmo não compreendo, por vezes penso que vivo em um mundo a parte e que deveria me ater mais ao chão, ser mais frio, objetivo e menos onírico.

(Tenho vontade de encostar a cabeça no ombro de alguém)

EU - ... Não existe razão coerente para algumas falhas minhas, mas eu sou obrigado a entender as falhas das pessoas e ir além da compreensão, pois não quero magoá-las. Mas é errado da minha parte. Seu eu posso ouvir as minhas falhas pelos outros, porque não posso apontar as delas? Qual seria a coerência da relação entre duas pessoas se elas não souberem lidar com erros e acertos e assim tentar com um diálogo mais franco descobrir, ainda que tarde, as verdadeiras razões dos erros e, talvez, tentar redimir ou consertá-los? Eu não sei como lidar com isso? Ou seria imaturo em certo ponto por acreditar que tudo pode ser resolvido depois. Mas é difícil compreender que eu tenho uma vida tão complicada, corrida, não dizendo que sou melhor ou pior que qualquer um que passe pelos mesmos problemas. Eu queria poder ter a solução para tudo e ajudar não só ao outros, mas a mim. Fui chamado de egoísta e até prepotente...

(Levanto os olhos e vejo que tudo parece tão sem sentido, mesmo com toda aquela gente me olhando... A paz me parece distante)

EU - Não queria magoar as pessoas com as minhas ações ou falta delas talvez, mas é um mundo tão complicado. Você tem receio de se machucar por se abrir demais para uma pessoa. Eu tenho medo de me machucar por me expor demais a uma pessoa que gosto além do necessário, mas é uma tarefa tão difícil explicitar isso sem parecer que estou me fazendo de vítima. As razões parecem limitadas, mas dentro do que posso expressar elas são como as linhas do universo, infinitas. Não saberia dizer se conseguiria vê-la no inverno, pois rompemos no verão. Olho para vocês e vejo que existe complacência de pena, uma forma saturada de me olhar com candura, mas não deixando se ater a figura patética que sou. Não saberia dizer se essa paz que encontrei no início seria a mesma que busco no final, mas para aquietar o que passa comigo, com o meu coração é o suficiente para fazer com que eu durma mais uma noite e viva mais um dia.

(A voz embarga)

(Silêncio)

(O monitor me encara e balança a cabeça positivamente, de forma lenta)

EU - Sinto que preciso ir embora. Não olhar para trás e deixar o que de bonito aconteceu apenas como uma lembrança, uma boa lembrança. Queria poder chorar mais, porém já fiz o suficiente e não vejo mais motivo para prosseguir nessa luta de conquista eterna por paz que deve vir com o tempo e ocorrerá naturalmente. Não tenho mais a impaciência da juventude e não pertenço aos laços afetivos dessa geração, pois ela já me cortou e apontou que o caminho que sigo é o errado. A paz que busco está em outra direção. Queria poder encarar a pessoa que transformou o meu mundo em poucos meses e dizer que tudo hoje é uma lembrança. Mas não tem como, pois tudo já acabou, da mesma forma que começou...

MONITOR - E você se conforma com isso?

(Eu me assusto com sua pergunta)

EU - Sim... Pois tudo foi dito de forma dura e direta, com toda a sinceridade. Fiz o que pude e se errei, assim como ela errou também, poderia deixar tudo como uma "desculpa" e começar de novo. Mas não tenho mais estrutura emocional para tanto.

MONITOR - Você prefere que tudo termine assim?

EU- Se foi uma decisão dela... E se só por causa dela fiz coisas que nunca imaginei fazer ou contar, eu me responsabilizo pela decisão que ela tomou. Vou respeitar e esquecer, dentro do que posso das escolhas erradas que fizemos.

MONITOR - Você não precisa ir e deixar que tudo termine assim, sabia?

EU - Eu sei. Mas é a decisão mais acertada. Temos vidas diferentes, somos de gerações diferentes e vivi coisas que ela não viveu. Ela não saberia compreender as razões que tomei como forma de proteção e eu não saberia conduzir um stress emocional desgastante que poderia acabar tudo da forma mais errada possível. Ela foi a certa na história e eu o idiota, o mais completo idiota.

(Todos se entreolham e depois me olham. O monitor sorri e se levanta da sua cadeira)

(Eu estou de pé, olhando a todos com receio, mas certo de que falei o que estava comigo e o que deveria ser dito, ainda que sentisse um gosto de tristeza no palato)

MONITOR - Você tem a noção do que pode acontecer pela sua decisão? Pelo que falou parece que sim, mas não é a mais acertada, mas é sua e é de sua responsabilidade, o que posso te falar Marcos é que as consequências dessa decisão perdurará por tempos e servirá como uma experiência, se para o bem ou mal só o tempo dirá. Mas te digo, aproveite esses momentos e reflita sobre os erros que cometeu e os possíveis acertos, pese tudo isso e não deixe de viver, conhecer mais pessoas, formalizar amigos e respeitá-los, mas, acima de tudo, seja sempre você mesmo.

EU - Tento viver assim... Mas não sou perfeito... Obrigado por tudo.

(Todas as pessoas se levantam... Batem palma e sentam novamente).

(Quero chorar, mas não consigo mais... Senti um luz brilhar e um vento frito bater em mim. Houve uma paz momentânea e sabia que era hora de ir...)

(Sorri com gosto, deixei minha vida de três meses passados fluir como um filme breve na minha memória e lembrei dos meus melhores momentos. Pus o capuz sobre a cabeça acenei com um tchau à todos)

(O monitor deu um sorriso e entendi que havia feito o certo)

(Abri a porta e estava chovendo. Era noite. Mas, não importava... Eu poderia ir com a certeza de que nunca mais estaria só. Não olhei para trás e segui na noite... Com a pisada forte de que amanhã é mais um dia a ser vivido, sorrindo ou não).

FIM