segunda-feira, 28 de julho de 2008

BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS – Uma nova forma de adaptar heróis de quadrinhos

Ilustração de Frank Miller (Batman - O Cavaleiro das Trevas)


No curto período que antecedeu a exibição ao grande público, depois da imprensa especializada, o filme “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (Dark Nitgh/2008) – em cartaz em Porto Velho, no Cine Veneza (horário de 18h00 e 21h00) -, recebeu uma enxurrada de artigos e críticas positivas, com superlativos e exaltações raras nesses tempos rasos de filmes comerciais que servem como caça-níqueis imediatos – não desconsiderando que a continuação de “Batman Begins” (Idem/2005) não seja caça-níquel, mas se todos fossem dessa forma -. A colocação exata da maioria dos textos era de que se tratava de um filme policial e não uma adaptação onde o herói, no caso o Batman, era uma peça que complementava os personagens e uma trama intricada e muito inteligente.

Eu sou um pouco mais literal ao afirmar que o diretor Christopher Nolan fez um filme essencialmente para fãs e para não fãs, para cinéfilos e para não cinéfilos, é universal, é profundo, denso, intenso e catártico, com uma história contundente e cheia de reviravoltas, onde os personagens não são aleatórios e circulam em torno do protagonista, mas se complementam, existem motivações concretas e um vilão magnífico, Coringa, interpretado com uma força fora do comum pelo saudoso Heath Ledger – que deixa um legado que deve levar a uma indicação póstuma ao Oscar.

Impressionante que o filme imprime um feito incomum em que as seqüências, principalmente a segunda parte, são sempre superiores ao original. Batman só veio a ter a adaptação mais digna quando o roteirista David Goyer e o diretor Christopher Nolan fizeram “Batman Begins”, ignorando as adaptações anteriores, dirigidas por Tim Burton e Joel Schumacher, para mim todas descartáveis. Mas assim como “Homem-Aranha”, “X-Men” e “Hellboy”, cujas seqüências se mostraram superiores aos originais, “Batman – Cavaleiro das Trevas” é um arraso. “Cavaleiro das Trevas” foi escrito pelo diretor e seu irmão, Jonathan Nolan, baseado em uma idéia de David Goyer – que ficou conhecido por ter escrito os três filmes de “Blade”, chegando a dirigir a terceira parte – onde as referências óbvias do personagem clássico da DC Comics são respeitadas e a mitologia, principalmente aquela revigorada pelo escritor e desenhista Frank Miller nas clássicas revistas “Cavaleiro das Trevas” (1985) e “Batman – Ano Um” (1986), são elevadas a um nível cinemático digno de clássicos do cinema moderno.

A trama gira em torno de um psicopata anarquista, perceptivo, muito inteligente e que resolve transformar a cidade Gothan City no seu parque de diversões, envolvendo a máfia, o honesto promotor público Harvey Dent e Batman. Coringa desafia a máfia e promove uma grande confusão quando resolver atingir o “homem-morcego” no que ele considera o seu ponto vulnerável, a integridade física da própria cidade e de seus membros mais ilustres. Ao mesmo tempo, Batman/Bruce Wayne (Christian Bale) está em um conflito, pois busca o herói que ele acha perfeito para que conserte a caótica cidade que vive, ao mesmo tempo em que tenta recuperar um amor perdido, a promotora assistente Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal).

Eu seria leviano ao tentar explicar a trama central do filme sem estragar as surpresas e reviravoltas que ocorrem ao longo das suas três horas. As nuanças são tantas, as referências dos personagens clássicos e a construção icônica não se atem somente ao que está às histórias em quadrinhos, Nolan transcende e cria uma trama policial com uma teia que se entrecruza com perfeição e a ação se desenrola com impressionantes cenas que já se tornaram clássicas (o resgate de uma testemunha em Hong Kong, a perseguição de carros no centro de Gothan, onde Batman anda de moto e o clímax final, em um prédio, são antológicos). Mas o mais importante e que nas entrelinhas fica claro é a exposição do “mito do herói”, o monomito, configurado aqui num tom sombrio, de clima noir, intenso e profundamente emocional.

A jornada vivida por Batman constitui de uma viagem intensa, que rasga não somente a sua pele, mas provoca feridas emocionais e transformar a sua vida particular, onde o herói engole o homem, e o seu conflito, aqui no caso, é a busca da justiça da forma como ela se propaga nos tribunais e não como deflagrada pelo seu alter-ego, nas ruas, no combate físico, que ainda é motivo de dúvida no seio policial e em setores da sociedade de Gothan. Batman é um herói, não um super-herói, que se vale de recursos tecnológicos e por vezes se mostra falível, mas ele sabe e tem consciência de que vive num mundo extraordinário, de violência e insanidade, enfrentando desafios, em embates vitais e questiona a sua responsabilidade ou seu direito de interferir na vida do homem comum, sem que isso acarrete conseqüências que podem ser desastrosas.

A transformação do promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart), que se torna o “vilão” (força de expressão, pois as motivações do personagem para sua vilania derivam de uma conseqüência de transformação não só física, mas psicológica), tem um dicotomia incomum, mas muito bem embasada. Que é impraticável eu descrever sob o risco de revelar uma guinada importante na trama. Mas é a vilania do Coringa que discorre a veia principal do filme, as suas ações são decorrentes unicamente da anarquia, mas tendo como foco a figura do “herói”, Batman. As suas motivações são maleficamente compreensíveis dentro do universo sombrio de Gothan City, e fica mais evidente quando em uma seqüência do filme ele fala que não quer a morte do “homem-morcego”, pois isso acabaria com os seus motivos.

Justamente no final que tudo fica claro, quando com a seqüência das reviravoltas o Comissário Gordon (Gary Oldman) estabelece um diálogo intenso com Batman, e ali fica claro a criação da mitologia do verdadeiro herói. É uma cena tocante, intensa, tensa, crucial e que vale uma referência óbvia, pois ao final vemos que é a jornada inicial desse herói consiste de desafios, num embate entre a vida a morte, sem concessões à justiça, sempre ressuscitando o propósito de sua luta, trazendo algo novo, onde o prêmio é o estabelecimento da ordem. Batman é esse herói e a partir de “Cavaleiro das Trevas” ele está intimamente ligado ao nosso consciente.

O incrível é que um filme que tem o poder de entreter sem compromisso e está na categoria de “blockbuster” (estritamente um filme comercial) ter um padrão de qualidade tão gritante quanto ao que já foi exibido esse ano e subverte o gênero das adaptações em quadrinhos para película com um status quo de pura arte, já se tornando um clássico instantâneo. Não peco ou exagero em apontar que “Batman – O Cavaleiro das Trevas” é desde já um dos melhores filmes de 2008 e se não muito, talvez, o melhor.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

CRÍTICA – “Onde os fracos não têm vez”, em cartaz no Cine Veneza, traz essência do western moderno

INCRÍVEL - Com um atraso de seis meses, finalmente, entrou em cartaz no principal cinema de Porto Velho o filme que ganhou nas principais categorias do Oscar.

Desculpe a discrepância, mas a imagem mais clara possível que eu tenho da sujeira barroca do filme dos irmãos Ethan e Joel Coen é o espaço aberto, apresentado em panorâmicas dignas dos westerns spaghetti do mestre Sergio Leone. Filmado no Texas, o filme “Onde os fracos não têm vez” (No Country for Old Men) – em cartaz no Cine Veneza, às 21h00 -, baseado no livro de Cormac McCarthy, dos irmãos Coen, é o suprasumo do chamado western moderno, onde ação e personagens se digladiam em vista de um interesse comum, com propósitos questionáveis e visão singular sobre a tolerância humana diante do mito e a realidade.
À primeira vista o cinema dos Coen, nesse filme, se torna absoluto e auto-referente, postulando uma sólida esquematização de estilo que faz eco nos policiais que beiram o inusitado e o real – claro, da maneira particular dos diretores. Como assim fizeram no brilhante filme de estréia “Gosto de Sangue” (Blood Simple/1984) e encontrou a formatação perfeita em sua obra prima, “Fargo” (Idem/1996).
A singularidade de “Onde os fracos não têm vez” fica centrado inteiro em forma, com um estilo que homenageia claramente o diretor italiano e mestre do cinema barroco, Sergio Leone. A primeira hora inicial do filme com a apresentação da situação central e os personagens é absolutamente brilhante, com a câmera despejando panorâmicas em uma paisagem árida, desértica, suja de terra e calor sufocante. Onde encontramos a veia nervosa de um assassino meticuloso e ensandecido, Anton Chigurh (Javier Bardem, brilhante) - foto -, sendo conduzido a uma delegacia junto com um estranho instrumento de morte, um tanque de ar comprimido e uma pistola de pressão - que logo é mostrado como funciona.
Em seguida surge o soldador Llewelyn Moss (Josh Brolin) caçando cervos no deserto, utilizando uma mira telescópica e um binóculo. As imagens deixam a duplicidade da seqüência em mostrar os dois personagens em pontos díspares das eficiências correspondentes que são dirigidas em seus modos de viver. Enquanto o assassino Anton é o melhor no que faz, sem ser propriamente legal aquilo que faz de melhor, Moss é inábil quando erra o tiro no cervo, mostrando a realidade de sua falha.
Há dois pontos discutíveis, a do mito, quase super-humano que transforma a sanha assassina do personagem de Javier Bardem em uma engenharia degradante de violência e precisão, e a do homem real, de Josh Brolin, que se mostra falível, quase patético, em tentar mudar a vida de forma imprecisa e arriscada, onde as conseqüências podem ser medidas pelas suas atitudes e decisões – quase sempre erradas.
São esses dois personagens que se tornam perenes e dignos da procura do velho delegado Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones, envelhecido), que de forma assustada e desiludida acompanha a trajetória dos dois homens, cada um abrindo caminho à sua maneira, na medida em que tenta solucionar o caso da melhor forma possível, sem que isso atinja o maior número de inocentes na história. O que, no decorrer do filme, vai se mostrando um trabalho praticamente impossível.
Assim como o mito que precede os clássicos dos westerns, existe uma procura, uma perseguição, um vilão e um mocinho, porém nem sempre essa equação se adequa de forma combinada, as razões não definem, de fato, quem são os vilões e mocinhos, pois a transitoriedade do tempo em relação aos valores do homem acaba por equiparar as motivações e conseqüências. Aqui, os irmãos Coen encontram um equilíbrio evolutivo no livro de Comarc, onde os personagens são talhados sem arquétipos óbvios, mas intensos em seus propósitos.
O soldador Moss,após não conseguir acertar o cervo, caminha pelo deserto e encontra um rastro de sangue, descobre ser de um cão, segue o caminho e sem querer encontra um agrupamento de camionete abandonadas e alguns homens, que parecem ser traficantes, mortos ao redor dos veículos. Através de dedução ele descobre um grande carregamento de cocaína em uma das camionetes, depois de falar com um sobrevivente à beira da morte,segue os passos de outro possível sobrevivente ao massacre, até encontrá-lo morto sob uma árvore com uma mala contendo 2 milhões de dólares. Ele pega a mala, algumas armas e vai até o trailer onde mora.
Porém, Moss resolve voltar depois ao mesmo local e acaba sendo descoberto por outros traficantes que dão início a uma perseguição que acaba conduzindo o soldador a uma fuga desesperada com a mala recheada de dinheiro. Ele marca um ponto de encontro em uma cidade fronteiriça com a esposa para tentar despistar o seu paradeiro. E segue direto para fronteira com o México. No encalço dele o assassino Chigurh, contratado para recuperar o dinheiro, segue uma trilha onde o que não falta são corpos ou emissões de suas observações - pautadas por diálogos provocativos.
Enquanto Moss segue cambaleante o seu caminho direto até a fronteira tentando de toda forma despistar seus algozes perseguidores – ele até o momento não sabe que somente um homem vem à sua procura.
O delegado Tom Bell então acompanha simultaneamente os dois caminhos, onde acaba descobrindo uma ligação por causa da mala de dinheiro de posse de Moss.
Nessa trama surge outro perseguidor, Carson Wells (Woody Harrelson), que pouco acrescenta a história, mas tem um encontro memorável com Anton.
O momento que eclode, em um ótimo clímax, é o tiroteio entre Moss e Chigurh, que acaba gerando conseqüências abrasivas para os dois lados. Enquanto o soldador consegue cruzar a fronteira e esconder a mala, tenta buscar socorro para que seja salvo do tiro que levou na costela. Já Chigurh, ferido na perna, acaba ocasionando uma explosão para assaltar uma farmácia e pegar os medicamentos.
A partir desse ponto fica claro que os irmãos Coen propõem uma dualidade entre os dois personagens e que encontra momentos de reflexão nas palavras duras do delegado Tom, quando se depara com o resultado da perseguição de “gato e rato” entre os dois personagens com cenas de crimes e um rastro de corpos. A desilusão com que encara a situação o leva a refletir sobre o lugar que vive, o meio e as intenções dos homens. Transgressão que evolui acima da normalidade, onde se criam histórias e lendas.
Com o filme os irmãos Ethan e Joel Coen (que escreveram, produziram, dirigiram e editaram) mostram de forma barroca a contemporaneidade da linguagem do western clássico com o moderno, tornando palpáveis personagens duros e falíveis. O ponto alto é a forma, a linguagem é seca, diálogos econômicos e imagens poderosas, com situações de riscos que parecem levar o espectador a um conflito de interação entre o abominável e a admiração.
Se por um lado o ator espanhol Javier Bardem, contemplado com um Oscar (melhor ator coadjuvante) pela sua irrepreensível atuação, conduz de forma magnífica o seu assassino meticuloso e frio, Josh Brolin faz com serenidade e absoluta entrega a vertigem fuga que leva o seu personagem a uma viagem sem volta ao carregar uma mala de dois milhões de dólares que não lhe pertence.
A condução da história peca por expor vários clímaxes e deixar para a contemporização as motivações que o delegado Tom Bel, em tom melancólico, tenta elucidar. “Onde os fracos não têm vez” é um filme desigual, um dos mais violentos dos últimos anos, que não deve agradar à todos e obteve uma trajetória vitoriosa. Foram mais de 50 indicações em premiações cinematográficas, entre eles: Cannes, Globo de Ouro, Bafta e Oscar, para citar os mais importantes. A crítica americana e inglesa o classificou de obra-prima. Eu acho que o filme é superestimado, tem seus momentos de brilhantismo e um dos finais mais anti-clímax dos últimos anos, o que talvez se justifique pela proposta dos diretores, revisitar os westerns, dando uma contemporaneidade em que os personagens, amorais, dão ênfase as suas buscas, com final nunca satisfatório, mas, aqui, no caso, brusco. Por fim, "Onde os fracos não têm vez" não é nada que ultrapasse apenas em ser um filme bem feito. Nada que comprometa a carreira dos irmãos Coen, que permanecem como os mais independentes cineastas do stablisment norte-americano, e isso não é pouco nos dias de hoje.
“Fargo” ainda permanece como a obra-prima dos irmãos Coen. Sem perigo algum.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Inadmissível diante de uma tragédia...

Eu li uma matéria no portal de notícias da Globo, o G1, que me deixou de estômago embrulhado - sem frescura nenhuma. Antes, veja essas fotos da tragédia que assolou a China, no último dia 12 de maio, quando 45 milhões de pessoas foram afetadas pelo abalo sísmico de 7,9 graus, que teve o seu epicentro na província de Sichuan e acabou resultando em 88.000 vítimas, entre mortos e desaparecidos.













A revista "The New Travel Weely" fez um editorial de moda que extrapolou os limites do bom senso, colocando modelos com roupas sensuais e em poses do mesmo naipe nos escombros do terremoto. A revista foi lançada no dia 18 de maio, ou seja, quase uma semana depois da tragédia. Agora eu imagino como faz um ensaio fotográfico em meio ao caos que até hoje permanece na China. Que tipo de gente tem uma idéia "brilhante" como essa em utilizar uma tragédia dessa magnitude como pano de fundo de um editorial de moda? Tem que ter muita merda na cabeça e um coração desumano.

Avalie a situação de que são várias modelos em lingerie com bandagens ensangüentadas envoltas em algumas partes do corpo no meio dos prédios destruídos e ruínas, causados pelo terremoto. Não existe racionalidade humana que explique tal desatino.

Essa é a foto de abertura do editorial de moda:



Na época em que foram feitas as fotos a contagem de corpos era crescente e havia o desespero de milhares de pessoas em busca de amigos e familiares.


Segundo o G1 a revista chegou às bancas no dia 18 de maio, uma segunda-feira, coincidindo com o primeiro dos três dias de luto oficial pelos mortos do terremoto, e estava em circulação na cidade de Chongqing, que é uma província vizinha a Shichuan (a área que mais sofreu com o abalo sismíco).


A conseqüência óbvia era o fechamento da publicação por parte do departamento responsável na supervisão da imprensa, que presta conta ao governo de Chongqing, em vista até das manifestações da opinião pública, revoltada com o abuso. Que me perdoem os patrulhadores ideológicos de veneta, mas não é nem uma questão de liberdade editorial, a questão é RESPEITO.


Como bem descrito pelas autoridades, a "The New Travel Weely" violou severamente a "disciplina de propaganda" e batia de frente com a "moral social". Eu ignoro que as fotografias "tinham uma influência extremamente má na sociedade", como foi classificado pelo departamento, pois o negócio é imoral no conceito da má intenção e no absurdo da deflagração das imagens durante o caos. Altamente condenável.


O interessante é que a revista colocou uma nota no site institucional se desculpando pela gafe. "Gafe"????? Que "Gafe"? Foi um terrível erro de perspectiva social, emocional e editorial. Um desastre tão devastador quanto o próprio terremoto.


Na matéria veiculada no G1 esclarece que a empresa que administra a publicação demitiu o diretor, o editor-chefe e o vice-editor chefe, apontados como responsáveis pela "brilhante idéia" de aproveitar o momento da tragédia e serem "ousados" suficientes para publicar um material de alto impacto - na busca da catarse coletiva. Definitivamente conseguiram. Vergonhoso.

Confira um vídeo sobre a tragédia:

Fotos disponibilizadas da Associated Press e Reuters.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Relação e sardas - Tomo II


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Havia sombra nos olhares furtivos que trocávamos em momentos de tensão. Soube chegar de mansinho e acariciar meu cabelo, ondulando os dedos em uma das minha têmporas. Sorriu com delicadeza e deixou sobressair um desejo de colo. Não poderíamos, de fato, ficar sós.

Sob a tez branca e sardenta desci os meus lábios, amaciei a sua nuca e ela respondeu com o corpo. Nos abraçamos e demos um tempo ao tempo.

Comunhão íntima, intríseca, macomunada com um pouco de redenção e muito de tesão. Colocamos as mãos entre si, enquanto nos encontrava como há vinte anos. Havia felicidade e sorrisos, beijos longos e olhares cândidos, a nossa trilha sonora sempre auvidava em nossas memórias com o soar gradual dos filmes românticos.

Corpos nus, olho no olho, a respiração compassada e um balé de reações químicas, com o calor e o suor.

Ela fazia dengo e eu lhe acariciava os ombros, sob a vista das sardas linda, que tomavam suas costas, com os cabelos caindo entre os meus dedos.

Pouco depois estávamos os dois abraçados, olhandos os filhos sobre as camas, dormindo como anjos. Havia ainda uma magia que insistia em não interromper e um vasto caminho de provações a surgir.

O muro que nos apontava um fim súbito, caía, tijolo-a-tijolo, e tínhamos forças para pertencer um ao outro, sem remorsos e dores.

A vida continua pregando peças e eu só tenho a aprender. Sorrio para ela quando vejo chegar, e brinco com os olhos quando a vejo partir e ela de soslaio faz um charme com a cabeça, pois sabe que estou vendo.

Ainda estamos juntos e únicos.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Um mundo particular de stress

Stress é uma palavra constante na minha profissão de jornalista, ainda mais como empresário e editor-chefe. A profissão, contam as pesquisas, é terceira mais arriscada do mundo, eu acredito que é o limite de risco da saúde quanto as condições psicológicas e físicas do profissional.

Na faculdade eu tinha uma amiga, a Laís, que vivia me mandando via e-mail, regrinhas de combate ao stress, e achava engraçado o modo como ela se preocupava comigo em relação a profissão que eu tinha abraçado com unhas e dentes.

Mas é verdade, assumi uma postura de trabalho no dia-dia que vai minando minhas forças aos poucos, pois até a produção de endorfina que eu fazia questão de manter com os exercícios físicos já perdi há muito tempo por falta de, adivinha, "tempo".

Alio os problemas cotidianos familiares, de cunho pessoal, com os profissionais, de risco, e vejo que há momentos em que penso que o meu corpo e a minha mente não vão suportar.

O stress no últimos dias me abateu de forma implacável, sofrível (como não podia de ser, óbvio), me colocando em becos e conflitos que nem eu mesmo pensei que seria capaz de sanar. É incrível a vulnerabilidade do que essa situação provoca no sujeito. A vontade é de correr, fingir de morto e esperar onde vai dar tudo isso.

Eu lendo um texto da editora de Saúde e Vida On Line, de Lúcia Helena Salvetti De Cicco, sobre o stress, me identifiquei com os sintomas da chamada "doença do (s) século (s)" e o malefício torrencial que provoquei ao meu organismo. Difícil. Reproduzo abaixo o texto muito esclarecedor sobre o assunto.


"O "STRESS" é o resultado de uma reação que o nosso organismo tem quando estimulado por fatores externos desfavoráveis. A primeira coisa que acontece com o nosso organismo nestas circunstâncias é uma descarga de adrenalina no nosso organismo, e os órgãos que mais sentem são o aparelho circulatório e o respiratório.

No aparelho circulatório a adrenalina promove a aceleração dos batimentos cardíacos (taquicardia) e uma diminuição do tamanho dosvasos sangüíneos periféricos. Assim, o sangue circula mais rapidamente para uma melhor oxigenação, principalmente, dos músculos e do cérebro já que ficou pouco sangue na periferia, o que também diminui sangramentos em caso de ferimentos superficiais.

No aparelho respiratório, a adrenalina promove a dilatação dos brônquios(broncodilatação) e induz o aumento dos movimentos respiratórios(taquipnéia) para que haja maior capitação de oxigênio, que vai ser mais rapidamente transportado pelo sistema circulatório, também devidamente preparado pela adrenalina.

Quando o perigo passa, o nosso organismo para com a super produção de adrenalina e tudo volta ao normal. No mundo de hoje as situações não são tão simples assim e o perigo e a agressão estão sempre nos rodiando. Por isso a reação do organismo frente ao stress é de taquicardia, palidez, sudorese e respiração ofegante. Pode haver também um descontrole da pressão arterial e provocar um aumento da pressão à níveisbem altos, mas não siginifica que a pessoa seja
hipertensa.

MEDIDAS PARA COMBATER O "STRESS"

O combate ao stress não é fácil, mas existem algumas medidas que aliviam e podem ajudar muito. Quaisquer que sejam as medidas indicadas, o reconhecimento do problema é o primeiro passo para a cura. A partir de então programe o que fazer, o importante é tentar e mudar.

Faça exercícios físicos ou pratique esportes regularmente. Abaixa a pressão e alivia as tensões causadas pelo stress.

Arrume um hobby ou um passatempo, isto ajuda a desviar a sua atenção e alivia o stress.
Controle a sua dieta, melhorando seus hábitos, diminuindo o consumo de bebidas alcóolicas e deixe de fumar. Ao contrário do que muita gente pensa estas atitudes não são estressantes mas, contribuem para a diminuição do stress.

Procure conversar mais com as outras pessoas, melhore o seu relacionamento, isto não vai curar mas alivia as tensões.

Procure sair de férias, se for possível, e deixe de se preocupar tanto."

-
Ok, é isso, vamos ver se me ajeito e acerto a minha vida.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Relação e sardas


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A minha mão desliza suave sobre a tez alva, pontilhada por sardas e o seu sorriso maroto me indica que ela gosta do carinho. Deitamos em "conchinha" e agrado sua nuca com suaves mordiscadas. Eu sei então que temos uma comunhão de marido e esposa, de amantes e lacivos. Isso foi há algum tempo, hoje, rarefeito.

Da realidade cansativa da criação dos filhos com a labuta de capturar ainda pequenos prazeres de uma relação de vinte anos, sabemos que nossa força é derivada de uma convivência de luta, lágrimas e vitórias esparsas, ainda que importantes.

Eu não me baseio em literatura de comportamento ou estudos específicos, mas me valho de experiência e digo que casamento é feito de momentos ruins e bons, e é assim mesmo como lugar comum, mas antes de tudo é uma entrega em que pelo menos um tem que ceder. E o meu problema é que eu cedo demais e acabo me magoando facilmente.

Não compreendo em alguns momentos como pode a nossa relação oscilar entre o "fim de tudo" e o "reinício de uma nova jornada", pois são poucas as reavaliações e muito de acomodação.

Questiono se a rapidez dos dias, a concentração no trabalho, a dedicação de cuidar dos filhos e a busca de uma independência vital não nos consumia dia-a-dia, deixando de lado a nossa entrega ao afeto, ao sexo, àquela comunhão que tínhamos e por vezes se perde com ela, nunca comigo.

São dias difíceis e vejo que a relação desgasta muito fácil se você não se permitir ceder em muito momentos, para que nem tudo entre nós dois se consuma em discussões banais ou agressões verbais que machucam como chicote com ponta de lâmina.

Eu penso que nunca é tarde para existir um perdão ou uma desculpa de ambas as partes, mas, com a torrente de emoções que encontro nos meus dias de jornalista, seja na redação, ou em lotação de ônibus, sufocado entre corpos estranhos, de variados cheiros, que se comprimem em um coletivo com média de 38 graus de temperatura, as vezes eu canso de ceder e o perdão se torna apenas uma palavra vazia.

Meu filho menor sempre me recebe com um abraço quando chegou de uma jornada de 10 horas de trabalho e penso que ele e o irmão mais velho são mais importantes do que minhas lamentações e por isso, trabalho, choro, sustento e stresso, ainda que caminhe sobre uma corda bamba.

Eu quero antes de tudo ser o amigo da minha mulher, sem que aja restrições em nossos sentimentos e desejos, mas não sinto sua força tão intensa quanto a minha pelo amor que sinto ao vê-la todos os dias, após vinte anos, e mesmo tendo ultrapassado turbulências em nossa relação, que sobreviveu em cima de nosso maior tesouro, nossos dois filhos.

E tudo, tudo, tudo... Tudo parece se esvair, como areia na ampulheta, diante de atitudes frias, rejeição e falta de compreensão. Por isso eu cedo, engulo a emoção e, de forma errada, omito algumas verdades para que não destrua tudo.

Eu sei, é medo, é errado, mas não evito e nem consigo a ajuda necessária para compreender a razão de que, dependendo de apenas um gesto dela, eu posso lhe entregar o mundo ou partir para bem longe.

Hoje eu me sinto mais só do que nunca, e sei que parte da culpa é minha, mas outra parte ainda maior é dela. Estamos num beco e a saída parece se resumir a uma pequena fresta, como uma luz ínfima, que se esconde em uma grande caverna. Não sei quanto a ela, mas eu me permito repetir, me sinto tão só quanto era antes de conhecê-la.

Eu lhe disse que o meu coração é dela e recebi apenas um sorriso. Dei carinho e um bocejo, seguido de um olhar tedioso, me indicou que eu estava descartado, absolutamente engolido pela tormenta da superexposição, falido como marido. Não sentia isso, mas creio que ela chegou no limite dela. Nada diz e evita falar, eu então tenho que decifrar os sinais físicos e psicológicos dos vinte anos que aprendi a observar e obter a resposta óbvia, não estamos mais em comunhão.

Desconfio que estamos próximos do grande muro final que separa os mundos. Muito triste, ainda assim continuo a viver e a amá-la como aquele adolescente temeroso que lhe entregou uma rosa e disse que tinha as sardas mais lindas do mundo.


Continua...
(Me perdoe o maniqueísmo pela trilha que acompanha a leitura... É que a minha vida funciona com música e emoção)

sábado, 17 de maio de 2008

Frases e melodia indie


Incrível como o senso de melodia dos ingleses permite vislumbres glaciais, melancólicos e vibrantes, é um paradoxo homérico que destoa o que de melhor o rock indie pode produzir. Quantas bandas começam como cult e acabam ganhando uma dimensão extraordinária, tombada pela popularidade. Foi assim com o Joy Division, New Order e The Smiths na década de 80, repetiu o ciclo nos anos 90 com outras bandas, como: Happy Monday, Blur, Maniac Street Preacher, Oasis, Supergrass, etc. Vez ou outra eu acabo descobrindo em alguns blogs específicos como o Britshpoint que apresentam algumas novidades do rock indie britânico, uma fonte rica de melodias, canções inesquecíveis, CDs maravilhosos, e coisas do arco da nova (que claro não é da velha... Putz, essa foi podre. Enfim...). Tudo isso para falar de uma banda chamada The Upper Room - Alex Miller (vocals & guitar), James Pattinson (guitar), Beau Barnard (bass) e Jon Barnett (drums). Inclusive, passei uma cópia do cd para a minha amiga Mara, que curte muito som indie.

O tratamento das melodias das 12 canções do primeiro trabalho da banda é um trato de referência retrô, com um passo adiante diante do punch dos herdeiros do pós-punk britânico, com aquele senso que beira o pop e o alternativo, mas tendendo ao popular mesmo. Fácil como os refrões são grudendo, fixam na memória instantaneamente e de uma simplicidade atroz. Como toda boa música, a complexidade se encontra na execução do simples. Alex Miller tem um vocal delicado, preciso e com agudos bem colocados nas composições. Percebe-se que os membros tiraram o sumo de suas referências musicais e apresentaram um frescor no que já foi visto em outras dezenas de bandas que surgem a cada ano no Reino Unido - que desnorteiam a imprensa musical, se destacando como "evento da semana" e que ganham capas e especiais passionais de publicações como Melody Maker e New Music Express -. Nenhuma novidade colossal, mas provocante e muito interessante.

Se as guitarras soam espaciais, melódicas, limpíssimas, a herança das cordas se referem a pegada mezzo urgente do Clash e os riffs e dedilhados refinados de Johnny Marr (entenda-se: fase The Smiths). A estrutura de cada canção upa aos ouvidos lembranças do revolucionário uso do "wall of sound", de Phil Spector, como a sobreposição de vozes, e percebe-se o lirismo culto e épico de um Maniac Street Preacher com a fase glitter de David Bowie (só na intenção, diga-se de passagem).

O que conta é a melodia, de fato, e as letras, todas banais, com frases curtas, em alguns momentos lembrando até hai kais, mas, intrísecas e perfeitas no casamento das canções.

Vou deixar alguns links com vídeoclipes da banda disponíveis no Youtube, são duas gemas preciosas do álbum de estréia deles, "Other People's Problems" (2005). Quem tiver acesso a esse CD vai descobrir o potencial dos caras. O Blogspot Britshpoint (o link tá no primeiro parágrafo) diponibiliza o download do CD.

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