segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Contagem regressiva para "Watchmen - O filme"


Ano que vem eu já tenho um filme visado e que deve ser o meu xodó, assim como foi "Batman - Cavaleiro das Trevas" esse ano, a adaptação feita pelo diretor Zack Snider do clássico dos quadrinhos da década de 80, "Watchmen", escrita pelo "monstro" britânico Alan Moore e desenhada pelo incrível Dave Gibbons. Lançada no Brasil pela primeira vez em 1987 em uma maxissérie de 6 edições (Watchmen/Editora Abril) - originalmente foi lançada lá fora em 12 edições. A HQ é memorável e apesar de ser lugar comum, foi a que melhor conseguiu transpor para a realidade, da sua forma, o que aconteceria se o mundo tivesse super-heróis. A premissa é fantástica, o desenvolvimento é laborioso e funciona como um quebra-cabeça, cujas peças não são aleatórias, mas tem sentido e se completam harmoniosamente.

O roteiro de Alan Moore é incrível, pois ele consegue dar vida aos personagens criando dramas individuais que almagamam entre si, num círculo de relações que tem o mito do herói como motivação para os personagens, que depois se completam em uma história cheia de reviravoltas, flash-backs (essenciais para contar as origens), interlúdios inesperados. A narrativa é de um crescento magnifíco, pois liga a morte de antigos heróis a uma conspiração que reúne alguns super-heróis, enquanto o Estados Unidos está a beira de uma guerra contra a antiga União Soviética - não esqueçamos que a série foi lançada antes da Perestroika e ainda havia o ranço da guerra fria americana/soviética. Os traços de Gibbons casa perfeitamente com a história, seja na distribuição cinética da ação ou nos enquadramento dramáticos - a distribuição das páginas é fantástica.

Pois é, e pensar que a HQ, que é uma obra-prima, parecia ser inadaptável para a telona. Pois o diretor Zack Snider que tem dois filmes bacaníssimos no currículo -
"A Madrugada dos Mortos" e "300" - a adaptação da obra de Frank Miller, "300 de Esparta", aceitou o desafiou e vem desde o ano passado filmando "Watchmen - O filme", com toda a pompa e circunstância que merece, ou seja, o diretor está seguindo rigorosamente as revistas, com detalhes minuciosos. Quem acessar o site oficial do filme pode acompanhar o desenvolvimento da produção, com os cenários, atores, figurino e ver representações de cenas que ficaram marcadas na cabeça dos fãs.

A mais completa revista de cinema do país, a SET, que eu não considero melhor e nem pior, mas a que possui mais diversidade de matérias e exclusivas, estará lançando quatro capas especiais referentes ao filme - que podem ser vistas aí embaixo, no site do filme (que proporcionou um merchand espetacular para a revista) ou ainda no blog do editor-chefe, o jornalista nerd Roberto Sadovski,
Kapow. O barato é ver que os personagens ganham vida nas fotos e deixam uma expectativa muito grande sobre o potencial do filme. O trailer é fantástico e já assisti inúmeras vezes.

Vale ressaltar que o trailer tranquiliza os fãs quanto a origem do personagem Dr. Manhatan (o azulão), considerado pelos fãs (o que me inclui) muito difícil sua adaptação para o cinema - porém com a evolução dos efeitos digitais, hoje ficou mais fácil e Snider apresenta uma amostra memorável do mais incrível super-herói dos Watchmen.

Confira as capas (e se o teor e as promessas do editor referente ao material a ser apresentado na revista corresponder, vale muito a pena):







quinta-feira, 21 de agosto de 2008

ZÊ & MAR


É só recordatório familiar...

Difícil imaginar um tempo sem você...
Um sorriso escondido que não me encante,
Nos encantos íntimo que eu só eu sei.

Provocas onde me atinge por completo
Tinge o meu peito de vermelho rubro
Contorna meu cabelo com os dedos
E pede graça a cada olhar trocado.

Partilhas a emoção da dor da vida cotidiana,
Na mesmice das ações, das firulas das emoções,
Mas não esconde as lágrimas quando
Olhas nossas crianças e entende o que construímos.

Por viajar nos sonhos, te conduzo pela realidade
de nosso desejos
E sei que tudo vem no tempo certo.

Por mais que tenhámos enfrentados tantas duras,
injúrias, tempestades e pedras,
O que ainda permanece é minha admiração e amor,
pelos mesmos encantos seus que transformaram nossas vidas
há mais tempo que imaginávamos....

Com amor, do seu marido...


terça-feira, 12 de agosto de 2008

Adeus Isaac Hayes...




Morreu Isaac Hayes, um dos mais completos soulman de todos os tempos, a sua finesse no conhecimento musical era exemplar. Músico extraordinário, com uma voz extremamente grave e que destilou com sensualidade e swing os caprichos do rhythm blues em discos como “Hot Buttered Soul”, herdeiro legítimo de Sam Cooke e Otis Redding, dois ícones da Soul Music e que ajudaram a influenciar gerações de músicos e cantores.

Isaac Hayes ganhou um Oscar pela música tema do filme “Shaft” em 1971 e ficou notório por esbanjar a riqueza que conquistara com a música, mas tempos depois perdeu tudo para o imposto de renda, inclusive a sua limusine folheada a ouro. O mais triste foi que ao declarar falência, Hayes perdeu os direitos autorais de todas as suas músicas, clássicos e hits.

Nos últimos anos Isaac ficou consagrado dublando o chefe da série animada South Park, que logo depois abandonou por causa das críticas ácidas do seriado contra a Cientologia, seita que o músico havia se tornado adepto.

Isaac Hayes morreu aos 65 anos.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A nau dos insensatos


A imprensa rondoniense é algo extraordinário. Em algumas rodas de jornalistas vez ou outra me permito pescar pérolas, ditos bordões proferidos de bocas de gente que acha que a verdade é uma constante em sua opinião. Não sou o dono da verdade e ficaria muito puto se essa peja me fosse passada, mas eu admiro a cara de pau de alguns escribas que mapeiam o trabalho de outros colegas e bandeiam num círculo de fofocas e disse-me-disse que não leva a lugar algum.
Em tempos passados os formandos da primeira turma eram rechaçados em alguns porões e sótãos da velha guarda como pretensos escribas, sem experiência “material” de uma verdadeira e autêntica redação de jornal. Que eu, acredito, seja a verdadeira sala de aula do bom jornalista. Eu escrevi “bom jornalista”, o básico, minimamente escrevendo para ser apto a exercer tão bela e suicida profissão. Porém a academia se faz necessário e a formação superior é um direito complementar ao exercício absoluto da profissão.

O que muitos apontavam como ponto fraco da primeira turma formada pela Faro era justamente o reconhecimento do curso, cujas idas e vindas do MEC e torcida contra se tornaram uma constante, para desespero dos formandos e glória para alguns maledicentes que riam, faziam troça em blogs e artigos, alguns bem elaborados, mas insípidos diante do desprezo. “Fazer faculdade, pra quê?”.

Tudo bem, a lei permitia o provisionado (enquanto o curso de comunicação social não fosse reconhecido pelo MEC) e depois o precário voltou. Ou seja, enquanto permanecia em suspense o reconhecimento do curso de Comunicação da Faro, alguns, deitados nos louros da comodidade, permaneciam no mundo encantado do desprezo pelos formandos que conseguiam devagar o seu espaço no mercado.

A nau dos insensatos navegava a favor do tempo, no limite da paciência dos formandos, muitos condicionados a acionar juridicamente a instituição de ensino em vista da demora. Ora, o sonho encantado de parte dos provisionados. E pensar que tinha gente que desprezava o curso de qualquer faculdade (não só da Faro, mas da Uniron, da Ulbra –Jipa) pois não acreditava na competência dos professores, alguns, profissionais que trabalham em assessoria ou veículo de comunicação.

Passado alguns meses do feliz reconhecimento do curso de comunicação da Faro, caiu o provisionado e os muitos jornalistas da antiga, que ainda desprezavam o curso de comunicação se viram obrigados a entrar na academia.

Infelizmente muitos profissionais de imprensa que atuam há anos em Porto Velho se acham donos absolutos da verdade. Alguns até fazem referências pejorativas aos chamados formandos da primeira turma de jornalismo que hoje, depois de quase três anos estão atuantes no mercado. Muitos trabalhando como assessores de imprensa na capital e no interior, outros na imprensa televisiva, impressa, sites e também em estações de rádio. Fica então uma pergunta solta no ar – A propalada incompetência destes novos profissionais é um fato ou apenas um mito criado e disseminado a esmo com o intuito único de prejudicar e denegrir a imagem dos jornalistas formados nos bancos de uma faculdade?

Parece que agora a história sofre uma reviravolta surpreendente como acontece nos filmes de ação hollywoodianos. Então chegou o dia do caçador? Quem jogava pedra passou a ser vitrine? Agora aqueles que se achavam donos da verdade têm que passar pelos mesmos bancos de uma faculdade, pois a realidade bateu de frente com estas pessoas que passaram a sentir na pele a mesma necessidade de um diploma para exercer a profissão de jornalista.

Seria utópico sonhar com a mudança de pensamento dessas pessoas que duvidaram e escreveram sobre a capacidade dos novos jornalistas? Creio que se fosse possível seria muito melhor que esta nova geração tivesse o apoio e reconhecimento dos veteranos para que desta forma pudessem aprender com a experiência e ao mesmo tempo trocar informações como se um e outro fossem sem dúvida complemento, continuidade da história, companheiros e aliados. Porém os insensatos preferem atacar a surdina, covardemente e sem escrúpulos. Para quem tem medo, a melhor defesa é o ataque.

Mas o show deve continuar. A história avança e a nau dos insensatos perde o rumo e segue em círculos, perdida de si mesmo e da razão. A insensatez já destronou muitos. Basta reler os livros de história. Não somos nós que gostamos de repetição, é a história que adora. Agora é erguer a cabeça. Recuperar a confiança e a humildade. Quem sabe assim doa menos ter de assistir aulas sobre assuntos que estas pessoas tinham certeza que já sabiam e certamente se vangloriavam, do alto de seus altares, de propalar para quem os quisessem ouvir. Como dizia Geraldo Vandré – “quem sabe faz a hora não espera acontecer”.
(Com a colaboração do jornalista Humberto Oliveira)

segunda-feira, 28 de julho de 2008

BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS – Uma nova forma de adaptar heróis de quadrinhos

Ilustração de Frank Miller (Batman - O Cavaleiro das Trevas)


No curto período que antecedeu a exibição ao grande público, depois da imprensa especializada, o filme “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (Dark Nitgh/2008) – em cartaz em Porto Velho, no Cine Veneza (horário de 18h00 e 21h00) -, recebeu uma enxurrada de artigos e críticas positivas, com superlativos e exaltações raras nesses tempos rasos de filmes comerciais que servem como caça-níqueis imediatos – não desconsiderando que a continuação de “Batman Begins” (Idem/2005) não seja caça-níquel, mas se todos fossem dessa forma -. A colocação exata da maioria dos textos era de que se tratava de um filme policial e não uma adaptação onde o herói, no caso o Batman, era uma peça que complementava os personagens e uma trama intricada e muito inteligente.

Eu sou um pouco mais literal ao afirmar que o diretor Christopher Nolan fez um filme essencialmente para fãs e para não fãs, para cinéfilos e para não cinéfilos, é universal, é profundo, denso, intenso e catártico, com uma história contundente e cheia de reviravoltas, onde os personagens não são aleatórios e circulam em torno do protagonista, mas se complementam, existem motivações concretas e um vilão magnífico, Coringa, interpretado com uma força fora do comum pelo saudoso Heath Ledger – que deixa um legado que deve levar a uma indicação póstuma ao Oscar.

Impressionante que o filme imprime um feito incomum em que as seqüências, principalmente a segunda parte, são sempre superiores ao original. Batman só veio a ter a adaptação mais digna quando o roteirista David Goyer e o diretor Christopher Nolan fizeram “Batman Begins”, ignorando as adaptações anteriores, dirigidas por Tim Burton e Joel Schumacher, para mim todas descartáveis. Mas assim como “Homem-Aranha”, “X-Men” e “Hellboy”, cujas seqüências se mostraram superiores aos originais, “Batman – Cavaleiro das Trevas” é um arraso. “Cavaleiro das Trevas” foi escrito pelo diretor e seu irmão, Jonathan Nolan, baseado em uma idéia de David Goyer – que ficou conhecido por ter escrito os três filmes de “Blade”, chegando a dirigir a terceira parte – onde as referências óbvias do personagem clássico da DC Comics são respeitadas e a mitologia, principalmente aquela revigorada pelo escritor e desenhista Frank Miller nas clássicas revistas “Cavaleiro das Trevas” (1985) e “Batman – Ano Um” (1986), são elevadas a um nível cinemático digno de clássicos do cinema moderno.

A trama gira em torno de um psicopata anarquista, perceptivo, muito inteligente e que resolve transformar a cidade Gothan City no seu parque de diversões, envolvendo a máfia, o honesto promotor público Harvey Dent e Batman. Coringa desafia a máfia e promove uma grande confusão quando resolver atingir o “homem-morcego” no que ele considera o seu ponto vulnerável, a integridade física da própria cidade e de seus membros mais ilustres. Ao mesmo tempo, Batman/Bruce Wayne (Christian Bale) está em um conflito, pois busca o herói que ele acha perfeito para que conserte a caótica cidade que vive, ao mesmo tempo em que tenta recuperar um amor perdido, a promotora assistente Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal).

Eu seria leviano ao tentar explicar a trama central do filme sem estragar as surpresas e reviravoltas que ocorrem ao longo das suas três horas. As nuanças são tantas, as referências dos personagens clássicos e a construção icônica não se atem somente ao que está às histórias em quadrinhos, Nolan transcende e cria uma trama policial com uma teia que se entrecruza com perfeição e a ação se desenrola com impressionantes cenas que já se tornaram clássicas (o resgate de uma testemunha em Hong Kong, a perseguição de carros no centro de Gothan, onde Batman anda de moto e o clímax final, em um prédio, são antológicos). Mas o mais importante e que nas entrelinhas fica claro é a exposição do “mito do herói”, o monomito, configurado aqui num tom sombrio, de clima noir, intenso e profundamente emocional.

A jornada vivida por Batman constitui de uma viagem intensa, que rasga não somente a sua pele, mas provoca feridas emocionais e transformar a sua vida particular, onde o herói engole o homem, e o seu conflito, aqui no caso, é a busca da justiça da forma como ela se propaga nos tribunais e não como deflagrada pelo seu alter-ego, nas ruas, no combate físico, que ainda é motivo de dúvida no seio policial e em setores da sociedade de Gothan. Batman é um herói, não um super-herói, que se vale de recursos tecnológicos e por vezes se mostra falível, mas ele sabe e tem consciência de que vive num mundo extraordinário, de violência e insanidade, enfrentando desafios, em embates vitais e questiona a sua responsabilidade ou seu direito de interferir na vida do homem comum, sem que isso acarrete conseqüências que podem ser desastrosas.

A transformação do promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart), que se torna o “vilão” (força de expressão, pois as motivações do personagem para sua vilania derivam de uma conseqüência de transformação não só física, mas psicológica), tem um dicotomia incomum, mas muito bem embasada. Que é impraticável eu descrever sob o risco de revelar uma guinada importante na trama. Mas é a vilania do Coringa que discorre a veia principal do filme, as suas ações são decorrentes unicamente da anarquia, mas tendo como foco a figura do “herói”, Batman. As suas motivações são maleficamente compreensíveis dentro do universo sombrio de Gothan City, e fica mais evidente quando em uma seqüência do filme ele fala que não quer a morte do “homem-morcego”, pois isso acabaria com os seus motivos.

Justamente no final que tudo fica claro, quando com a seqüência das reviravoltas o Comissário Gordon (Gary Oldman) estabelece um diálogo intenso com Batman, e ali fica claro a criação da mitologia do verdadeiro herói. É uma cena tocante, intensa, tensa, crucial e que vale uma referência óbvia, pois ao final vemos que é a jornada inicial desse herói consiste de desafios, num embate entre a vida a morte, sem concessões à justiça, sempre ressuscitando o propósito de sua luta, trazendo algo novo, onde o prêmio é o estabelecimento da ordem. Batman é esse herói e a partir de “Cavaleiro das Trevas” ele está intimamente ligado ao nosso consciente.

O incrível é que um filme que tem o poder de entreter sem compromisso e está na categoria de “blockbuster” (estritamente um filme comercial) ter um padrão de qualidade tão gritante quanto ao que já foi exibido esse ano e subverte o gênero das adaptações em quadrinhos para película com um status quo de pura arte, já se tornando um clássico instantâneo. Não peco ou exagero em apontar que “Batman – O Cavaleiro das Trevas” é desde já um dos melhores filmes de 2008 e se não muito, talvez, o melhor.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

CRÍTICA – “Onde os fracos não têm vez”, em cartaz no Cine Veneza, traz essência do western moderno

INCRÍVEL - Com um atraso de seis meses, finalmente, entrou em cartaz no principal cinema de Porto Velho o filme que ganhou nas principais categorias do Oscar.

Desculpe a discrepância, mas a imagem mais clara possível que eu tenho da sujeira barroca do filme dos irmãos Ethan e Joel Coen é o espaço aberto, apresentado em panorâmicas dignas dos westerns spaghetti do mestre Sergio Leone. Filmado no Texas, o filme “Onde os fracos não têm vez” (No Country for Old Men) – em cartaz no Cine Veneza, às 21h00 -, baseado no livro de Cormac McCarthy, dos irmãos Coen, é o suprasumo do chamado western moderno, onde ação e personagens se digladiam em vista de um interesse comum, com propósitos questionáveis e visão singular sobre a tolerância humana diante do mito e a realidade.
À primeira vista o cinema dos Coen, nesse filme, se torna absoluto e auto-referente, postulando uma sólida esquematização de estilo que faz eco nos policiais que beiram o inusitado e o real – claro, da maneira particular dos diretores. Como assim fizeram no brilhante filme de estréia “Gosto de Sangue” (Blood Simple/1984) e encontrou a formatação perfeita em sua obra prima, “Fargo” (Idem/1996).
A singularidade de “Onde os fracos não têm vez” fica centrado inteiro em forma, com um estilo que homenageia claramente o diretor italiano e mestre do cinema barroco, Sergio Leone. A primeira hora inicial do filme com a apresentação da situação central e os personagens é absolutamente brilhante, com a câmera despejando panorâmicas em uma paisagem árida, desértica, suja de terra e calor sufocante. Onde encontramos a veia nervosa de um assassino meticuloso e ensandecido, Anton Chigurh (Javier Bardem, brilhante) - foto -, sendo conduzido a uma delegacia junto com um estranho instrumento de morte, um tanque de ar comprimido e uma pistola de pressão - que logo é mostrado como funciona.
Em seguida surge o soldador Llewelyn Moss (Josh Brolin) caçando cervos no deserto, utilizando uma mira telescópica e um binóculo. As imagens deixam a duplicidade da seqüência em mostrar os dois personagens em pontos díspares das eficiências correspondentes que são dirigidas em seus modos de viver. Enquanto o assassino Anton é o melhor no que faz, sem ser propriamente legal aquilo que faz de melhor, Moss é inábil quando erra o tiro no cervo, mostrando a realidade de sua falha.
Há dois pontos discutíveis, a do mito, quase super-humano que transforma a sanha assassina do personagem de Javier Bardem em uma engenharia degradante de violência e precisão, e a do homem real, de Josh Brolin, que se mostra falível, quase patético, em tentar mudar a vida de forma imprecisa e arriscada, onde as conseqüências podem ser medidas pelas suas atitudes e decisões – quase sempre erradas.
São esses dois personagens que se tornam perenes e dignos da procura do velho delegado Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones, envelhecido), que de forma assustada e desiludida acompanha a trajetória dos dois homens, cada um abrindo caminho à sua maneira, na medida em que tenta solucionar o caso da melhor forma possível, sem que isso atinja o maior número de inocentes na história. O que, no decorrer do filme, vai se mostrando um trabalho praticamente impossível.
Assim como o mito que precede os clássicos dos westerns, existe uma procura, uma perseguição, um vilão e um mocinho, porém nem sempre essa equação se adequa de forma combinada, as razões não definem, de fato, quem são os vilões e mocinhos, pois a transitoriedade do tempo em relação aos valores do homem acaba por equiparar as motivações e conseqüências. Aqui, os irmãos Coen encontram um equilíbrio evolutivo no livro de Comarc, onde os personagens são talhados sem arquétipos óbvios, mas intensos em seus propósitos.
O soldador Moss,após não conseguir acertar o cervo, caminha pelo deserto e encontra um rastro de sangue, descobre ser de um cão, segue o caminho e sem querer encontra um agrupamento de camionete abandonadas e alguns homens, que parecem ser traficantes, mortos ao redor dos veículos. Através de dedução ele descobre um grande carregamento de cocaína em uma das camionetes, depois de falar com um sobrevivente à beira da morte,segue os passos de outro possível sobrevivente ao massacre, até encontrá-lo morto sob uma árvore com uma mala contendo 2 milhões de dólares. Ele pega a mala, algumas armas e vai até o trailer onde mora.
Porém, Moss resolve voltar depois ao mesmo local e acaba sendo descoberto por outros traficantes que dão início a uma perseguição que acaba conduzindo o soldador a uma fuga desesperada com a mala recheada de dinheiro. Ele marca um ponto de encontro em uma cidade fronteiriça com a esposa para tentar despistar o seu paradeiro. E segue direto para fronteira com o México. No encalço dele o assassino Chigurh, contratado para recuperar o dinheiro, segue uma trilha onde o que não falta são corpos ou emissões de suas observações - pautadas por diálogos provocativos.
Enquanto Moss segue cambaleante o seu caminho direto até a fronteira tentando de toda forma despistar seus algozes perseguidores – ele até o momento não sabe que somente um homem vem à sua procura.
O delegado Tom Bell então acompanha simultaneamente os dois caminhos, onde acaba descobrindo uma ligação por causa da mala de dinheiro de posse de Moss.
Nessa trama surge outro perseguidor, Carson Wells (Woody Harrelson), que pouco acrescenta a história, mas tem um encontro memorável com Anton.
O momento que eclode, em um ótimo clímax, é o tiroteio entre Moss e Chigurh, que acaba gerando conseqüências abrasivas para os dois lados. Enquanto o soldador consegue cruzar a fronteira e esconder a mala, tenta buscar socorro para que seja salvo do tiro que levou na costela. Já Chigurh, ferido na perna, acaba ocasionando uma explosão para assaltar uma farmácia e pegar os medicamentos.
A partir desse ponto fica claro que os irmãos Coen propõem uma dualidade entre os dois personagens e que encontra momentos de reflexão nas palavras duras do delegado Tom, quando se depara com o resultado da perseguição de “gato e rato” entre os dois personagens com cenas de crimes e um rastro de corpos. A desilusão com que encara a situação o leva a refletir sobre o lugar que vive, o meio e as intenções dos homens. Transgressão que evolui acima da normalidade, onde se criam histórias e lendas.
Com o filme os irmãos Ethan e Joel Coen (que escreveram, produziram, dirigiram e editaram) mostram de forma barroca a contemporaneidade da linguagem do western clássico com o moderno, tornando palpáveis personagens duros e falíveis. O ponto alto é a forma, a linguagem é seca, diálogos econômicos e imagens poderosas, com situações de riscos que parecem levar o espectador a um conflito de interação entre o abominável e a admiração.
Se por um lado o ator espanhol Javier Bardem, contemplado com um Oscar (melhor ator coadjuvante) pela sua irrepreensível atuação, conduz de forma magnífica o seu assassino meticuloso e frio, Josh Brolin faz com serenidade e absoluta entrega a vertigem fuga que leva o seu personagem a uma viagem sem volta ao carregar uma mala de dois milhões de dólares que não lhe pertence.
A condução da história peca por expor vários clímaxes e deixar para a contemporização as motivações que o delegado Tom Bel, em tom melancólico, tenta elucidar. “Onde os fracos não têm vez” é um filme desigual, um dos mais violentos dos últimos anos, que não deve agradar à todos e obteve uma trajetória vitoriosa. Foram mais de 50 indicações em premiações cinematográficas, entre eles: Cannes, Globo de Ouro, Bafta e Oscar, para citar os mais importantes. A crítica americana e inglesa o classificou de obra-prima. Eu acho que o filme é superestimado, tem seus momentos de brilhantismo e um dos finais mais anti-clímax dos últimos anos, o que talvez se justifique pela proposta dos diretores, revisitar os westerns, dando uma contemporaneidade em que os personagens, amorais, dão ênfase as suas buscas, com final nunca satisfatório, mas, aqui, no caso, brusco. Por fim, "Onde os fracos não têm vez" não é nada que ultrapasse apenas em ser um filme bem feito. Nada que comprometa a carreira dos irmãos Coen, que permanecem como os mais independentes cineastas do stablisment norte-americano, e isso não é pouco nos dias de hoje.
“Fargo” ainda permanece como a obra-prima dos irmãos Coen. Sem perigo algum.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Inadmissível diante de uma tragédia...

Eu li uma matéria no portal de notícias da Globo, o G1, que me deixou de estômago embrulhado - sem frescura nenhuma. Antes, veja essas fotos da tragédia que assolou a China, no último dia 12 de maio, quando 45 milhões de pessoas foram afetadas pelo abalo sísmico de 7,9 graus, que teve o seu epicentro na província de Sichuan e acabou resultando em 88.000 vítimas, entre mortos e desaparecidos.













A revista "The New Travel Weely" fez um editorial de moda que extrapolou os limites do bom senso, colocando modelos com roupas sensuais e em poses do mesmo naipe nos escombros do terremoto. A revista foi lançada no dia 18 de maio, ou seja, quase uma semana depois da tragédia. Agora eu imagino como faz um ensaio fotográfico em meio ao caos que até hoje permanece na China. Que tipo de gente tem uma idéia "brilhante" como essa em utilizar uma tragédia dessa magnitude como pano de fundo de um editorial de moda? Tem que ter muita merda na cabeça e um coração desumano.

Avalie a situação de que são várias modelos em lingerie com bandagens ensangüentadas envoltas em algumas partes do corpo no meio dos prédios destruídos e ruínas, causados pelo terremoto. Não existe racionalidade humana que explique tal desatino.

Essa é a foto de abertura do editorial de moda:



Na época em que foram feitas as fotos a contagem de corpos era crescente e havia o desespero de milhares de pessoas em busca de amigos e familiares.


Segundo o G1 a revista chegou às bancas no dia 18 de maio, uma segunda-feira, coincidindo com o primeiro dos três dias de luto oficial pelos mortos do terremoto, e estava em circulação na cidade de Chongqing, que é uma província vizinha a Shichuan (a área que mais sofreu com o abalo sismíco).


A conseqüência óbvia era o fechamento da publicação por parte do departamento responsável na supervisão da imprensa, que presta conta ao governo de Chongqing, em vista até das manifestações da opinião pública, revoltada com o abuso. Que me perdoem os patrulhadores ideológicos de veneta, mas não é nem uma questão de liberdade editorial, a questão é RESPEITO.


Como bem descrito pelas autoridades, a "The New Travel Weely" violou severamente a "disciplina de propaganda" e batia de frente com a "moral social". Eu ignoro que as fotografias "tinham uma influência extremamente má na sociedade", como foi classificado pelo departamento, pois o negócio é imoral no conceito da má intenção e no absurdo da deflagração das imagens durante o caos. Altamente condenável.


O interessante é que a revista colocou uma nota no site institucional se desculpando pela gafe. "Gafe"????? Que "Gafe"? Foi um terrível erro de perspectiva social, emocional e editorial. Um desastre tão devastador quanto o próprio terremoto.


Na matéria veiculada no G1 esclarece que a empresa que administra a publicação demitiu o diretor, o editor-chefe e o vice-editor chefe, apontados como responsáveis pela "brilhante idéia" de aproveitar o momento da tragédia e serem "ousados" suficientes para publicar um material de alto impacto - na busca da catarse coletiva. Definitivamente conseguiram. Vergonhoso.

Confira um vídeo sobre a tragédia:

Fotos disponibilizadas da Associated Press e Reuters.