terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Por um amor menos profundo que os sonhos buscam no pecado...


Em algum tempo perdido de 2002...


Descobri o lençol e com uma preguiça desmedida caminhei trôpego até a janela. Abri a cortina e senti as primeiras manhãs do sol no rosto. Meus olhos se irritaram e então compreendi que não estava só.

***

Senti a boca ressecada e me lembrei dos seus cabelos balançando em meu rosto, seguindo os movimentos do vento na beira do píer, defronte a um rio caudaloso e límpido.

Ela encostou sua cabeça no meu ombro, suspirou levemente o ar frio do final da tarde e senti cada pulsação sua como tivesse o dom de um ouvido hipersensível. Cada passo de sua dor que parecia finalmente não se conter mais. Ela fingiu um sorriso pra mim e retribui com um carinho no seu rosto, tirando os fios de cabelos da sua testa.

- Você já sentiu isso? – Perguntou.

- Senti o que?

- Essa sensação de que você tem todos os seus melhores amigos a sua volta, família e ainda assim se sentir só. – Lamentou.

- Sim, sempre... Mas...

- Isso não é ruim? Parece trazer uma melancolia que me leva a questionar se realmente ter amigos em minha volta, enquanto pareço idiota, eu os mereço.

- Olha, mas a vida é assim mesmo, são momentos, fases que passamos e que temos que vincular sentimentos contraditórios com aquilo que está ao nosso alcance. Eu penso que é porque você tem uma carência afetiva muito grande.

- Como assim contraditório? Não entendi.

- Esse paradoxo que você me passou, de estar cercada de gente que gosta de você e te faz sentir bem e, ainda assim, achar que falta algo mais que não a deixe tão só.

- Ah, nossa eu sou complicada...

- É não, é só humana demais... Eu acho que te falta um romance.

Ela sorriu pra mim e balançou a cabeça, voltando-a ao meu ombro.

- Não chego a tanto, mas um pouco de emoção mundana já resolveria o meu problema. – Disse, sem pudor nenhum, com as palavras firmes das quais só amigos de longa data se permitem segredar.

Eu olhei para ela e depois para o pôr-do-sol que criava à nossa frente, dei uma risada espontânea e ela continuou olhando o rio, compenetrada.

- Acredite em mim quando eu digo que você merece mais do que isso, vá por mim.

- Eu sei... Falei por falar, só isso.

Mais tarde estávamos no bar tomando algumas tequilas e ela se engraçou com um playboy, bem artificial. Ele pareceu se sentir atraído por ela. Correspondeu o seu sorriso e deu uma piscadela. Típico do idiota que a gente encontra aos montes nesses bares da moda. Eu olhava pra ela com certa incredulidade, mas ainda assim ela me olhava com um ar transtornado.

- Por que não? – Me questionou se referindo ao "almofadinha".

- Realmente, por que não. É bonitão, veste bem, cabelo da moda, ar blasé, deve cheirar pra caralho e tem um carro zerado estacionado em algum canto aí fora.

- Você é um idiota sabia, reduz meus flertes a observações capiciosas.

- Opa, desculpe, não tá mais aqui quem falou.

Tomei uma última dose e a vi saindo do meu ninho protetor indo direto para as garras do gavião. Eram só sorrisos, os dois. De longe ela me acenou com um polegar positivo. Algo do tipo para me avisar que ele era um cara legal.

"Bom pra ela, melhor pra ele." – Pensei.

Paguei a conta e tentei acenar um adeus pra ela. Mas me ignorou por completo, estava fumando o mesmo cigarro que ele. Fui embora.

Cheguei em casa e todos já estavam dormindo, passei no quarto dos meus filhos e os dois estavam enrolados nos lençóis, cada um em sua cama e o meu mais novo abraçado com um cachorro de pelúcia que tinha quase o seu tamanho. Vislumbrei-os por alguns minutos e me retirei para o meu quarto.

Quando estava tirando a camisa o meu celular tocou, era ela. Do outro lado da linha um soluço curto e depois uma voz embargada me pedia socorro.

Peguei o carro novamente e voltei ao bar. Ela estava na frente me esperando, com os braços cruzados, caracterizando um desamparo comovente. Desci do carro e a abracei.

- O que houve? Quase não entendi o que você falou no telefone.

Ela nada disse, só pediu para levá-la embora daquele local. Eu tinha certeza que o playboy tinha aprontado alguma com ela, mas não me deixei levar pela piedade, se ela procurava algo com ele e se deu mal, não foi a primeira vez e nem foi por falta de aviso.

No carro, já seguindo até sua casa, ela me pediu que levasse pra minha, pois não queria dormir sozinha. Achei estranho, mas não a questionei. Ela então disse:

- Ele não fez nada, eu é que não entendo minha cabeça e me vejo sempre fazendo alguma merda. Percebi que posso ser um pouco melhor comigo mesma e acho que fui grossa com você.

Passei minha mão pelo seu rosto com um carinho de pluma, medindo o gesto para não parecer tão expansivo e sorri.

Levei-a até minha casa, entramos sorrateiramente no meu quarto e liguei o ar-condicionado. Ela então sentou na minha cama e meio sem graça disse que estava com sono, mas se ela quisesse conversar, bom "tudo bem".

- Eu também quero dormir. Faz o seguinte, aja como se eu não tivesse aqui e faz tudo naturalmente.

- Ah tá, fácil dizer isso pra você que é mulher, mas eu sou homem, a coisa é um pouco mais complicada.

Ela riu baixinho e me olhou com um ar de gaiata.

- Tá com medo de mim? De que eu te seduza?

Olhamos um para a cara do outro e começamos a rir, tentando conter o barulho. "Que adorável amiga maluca é essa que eu arranjei?".

- Tem um pijama meu aí em cima da cômoda, veste ele que tá limpinho e vamos dormir. Você não existe, sabia? – Retruquei.

Ela foi até o banheiro e se trocou, quando voltou eu já estava arrumando alguns travesseiros no chão e um cobertor.

- Eu vou dormir aí no chão contigo? – Ironizou.

- Muito engraçada, muito mesmo. Não, eu é que vou dormir aqui embaixo.

- Esquece isso, vamos dormir na mesma cama, eu preciso de um amigo, de um ombro largo e muito amigo.

Nada respondi, ri da sua inflexão ao fazer a proposta e deitei, logo ela deitou do meu lado e virou-se pra mim.

- E aí, nós já nos conhecemos? – Brincou.

- Não, mas podemos dar um jeito nisso.

- Como?

Eu beijei sua testa e disse: "Boa noite!"

Ela beijou o meu rosto e retribuiu o "boa noite", em seguida apaguei a luz do quarto e me virei. Ela dormiu logo e aproveitei o momento para ligar para sua casa. Falei com o seu irmão, expliquei que ela estava comigo e como já éramos amigos ficou tudo resolvido.

Era uma situação estranha, mas eu sabia dos problemas emocionais que ela passava e não poderia abandoná-la, ainda mais depois de ter saído da clínica de desintoxicação com menos de dois dias. Antes de dormir ainda fiquei lhe olhando com admiração, era muito bonita, mas ainda assim precisava defenestrar alguns fantasmas internos para viver melhor. Eu a amava muito.

***

Após o despertar, ela já estava pronta, me olhando da porta do banheiro com um sorriso matreiro no rosto.

- Dormiu bem? – Perguntei.

- Foi o melhor sono que tive em muito tempo. Obrigada, de coração.

Fui até o seu encontro e abracei com carinho. Beijei a sua testa e depois a levei até a porta, disse que havia chamado um táxi pelo celular.

Antes de sair combinei de passar na sua casa mais tarde e ela disse então que me aguardaria, passaria o dia visitando os amigos que não via há mais de seis meses.

- Ei Marcos – me falou antes de entrar no carro – eu estou limpa de verdade viu, como eu prometi à você.

- Eu sei, eu sei..

E acenei, lhe dando um tchau.

***

Um ano depois minha amiga morreria num acidente automobilístico, com outros dois amigos de faculdade, em Cuiabá (MT), sua cidade natal. Ela voltava de uma festa e estava no banco de trás do carro.

+ Para Carla Liza Moretti (1977 – 2003)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Amigos, canções e histórias - Que se foda!


No começo do ano de 2008 encontrei minha velha camisa preta com a estampa de Joey Ramone, ela estava dentro de um baú cheio de revista velhas da Cinemin e Bizz. Era uma memorabília que eu havia guardado a sete chaves e pensei que havia perdido.

A lembrança era clara quando encontrei ao lado dela uma velha fita K-7 com algumas gravações. Não lembrava mais disso, mas tinha uma inscrição na capa. "Soundrock ao vivo - Fábio e Marcos". Era uma coletânea que eu e o meu amigo Fábio tínhamos feito com algumas canções que gravamos para um projeto de uma banda de rock.

Em 1989, Fábio um dia foi lá em casa com o violão e um gravador de dois canais. Eu tinha 19 anos e ele 18 e mostrei algumas coisas que estava compondo com um velho ukelele deixado por um tio maluco. Eram melodias simples e que havia permitido uma sincope bruta do hardcore, ainda que mais lento do que o usual, já que estava encharcado (para não dizer alucinado) de Syd Barret e o seu álbum Madcap Laughs, e, ainda mais com "Loki", de Arnaldo Baptista, e achei por bem fazer uma fusão mais digesta.

Ele achou estranho e puxou a sua versão hardrock para uma música de Geraldo Azevedo, a letra era bacana e entendi o que ela queria dizer. Se eu tinha a melodia, faltava uma letra que casasse com a métrica da canção. Puxei minha pasta azul de anotações e mostrei pra ele alguns poemas que havia escrito, alguns em inglês, fruto da minha inserção linguística no Yázigi (depois abandonei o curso e fui tentar o russo, me lasquei também, enfim... Outra história).

Ele se amarrou em duas letras, "Anne and The Wolf", uma narrativa que havia escrito baseado em um filme (Ana e os lobos, obviamente) do diretor espanhol Carlos Saura, e "Underground", minha homenagem as letras sadomasô de Lou Reed - da banda The Velvet Underground. Ele trouxe uma composição pronta e acrescentou alguns trechos do que eu havia composto com o ukelele. A primeira versão de "Anne and The Wolf", que escrevi em inglês, saiu bem tosca. Desconstrui alguns versos e encaixei duas linhas finais de um Haikai curto. Tentamos cinco vezes adaptar a métrica da letra a canção e valorizar o refrão. A batida era muito rápida e ainda não havíamos chegado a um denominador comum.

Então eu pensei em baixar um tom e desacelerar a batida. O que antes era um rock vivo, estilo Husker Dü, virou uma balada folk com pitadas de hard. Deu certo. Combinamos a voz e ensaiamos seis vezes. Tínhamos um canal para o microfone e outro para o violão de 12 cordas. Já havíamos revistos os compassos e parecia tudo certo.

Eu tinha uma fita K-7 cromo preta e coloquei no gravador. Tranquei o quarto e no absoluto silêncio gravamos em um único take "Anne and the Wolf". Ele encaixou um solo harmonioso no final. Repassamos a fita e tentamos gravar outro take. Porém, o primeiro foi o melhor. Em três horas tínhamos uma música pronta.

Quase cinco da tarde passamos para a próxima música. "Underground", apesar do título em inglês havia escrito em português mesmo, e era uma história curta de uma menina proletariada que era muito inteligente, mas se via engolida pela mediocridade reinante de sua escola e casa, resolve cair na noite e se envolve em uma experiência sado-masoquista com uma amiga rebelde. Mostrei alguns riffs em staccato para o Fábio e ele deu um estalo e disse que tinha uma melodia bacana para integrar. Mezzo rockabilly, mezzo psicodélico acrescentei um verso final longo (quase um diálogo) - "Eu vejo você se desmanchar em cinzas nesse cogumelo de tormento chamado hormônio". Ele riu muito desse verso final, mas conseguiu ajustá-lo na métrica da música.

Subimos um tom e o vocal do Fábio ficou quase rouco, rockabilly com intensidade de um blues, se tivéssemos o piano de Arnaldo Baptista seria a canção perfeita. Achei que faltava um detalhe bacana no final da música, o solo final poderia ter um bottleneck slide. Como o violão do Fábio era de cordas de aço, a minha idéia seria perfeita. Peguei um frasco vazio de Matrinil. Ele tava tão sintonizado com o meu pensamento que ele deslizou com perfeição o bottleneck slide improvisado sobre as cordas mais graves. Tentamos ainda com um copo de vidro, mas ficou estranho.

Ele tocou quatro, cinco, seis vezes a parte do arranjo. Depois recitei a letra e por fim cantei, fundindo com a melodia. Emulamos o solo final com um dedilhado emocionante e "Underground" ficou pronta.

Quase sete horas da noite e gravamos o resultado. Usamos um truque nessa canção. Gravei a parte de dedilhado do violão separado dos solos em uma fita K-7 extra. Peguei um outro gravador e sincronizamos na mesma batida, com o resultado dava para ter um violão base e outro solo ao mesmo tempo, em um mesmo canal. Tudo improvisado, mas para dois jovens pretensos músicos de garagem era pura revolução. Com essa síndrome de Brian Epstein, ensaiamos duas vezes mais com o truque de gravação e deu certo. Gravamos dois takes distintos: um mais puro, quase cristalino, com voz suave sobre os violões, e outro mais cru e rocker, com voz subindo um tom em cima dos arranjos. Sinceramente, eu gostei mais segunda versão e ele da primeira. Mas dali nasceram as nossas duas melhores canções.

Nos dias posteriores fizemos mais quatro, mas eu achei que ficaram bem abaixo da média - como se pudéssemos medir o valor delas sendo que só nós tivemos acessos à elas. Um blues com influência de Pink Floyd - eu podia ouvir o teclado de Rick Wright fazendo o acompanhamento em meus pensamentos. As outras três canções eram baladas, mas já tinha perdido o ímpeto criativo e lembro que chegamos a colocar um instrumento de sopro, uma flauta doce que o irmão dele tocou.

A fita ficou gravada e tiramos apenas uma cópia, eu fiquei com a "fita master". Por força do destino ou da situação, Fábio entrou no exército, eu comecei a fazer um cursinho pré-vestibular e acabei me apaixonando por literatura russa - com isso passei a escrever contos e peças de teatro (encontrei um original desses escritos e até que me surpreendi. Não era de todo ruim, mas faltava maturidade). Com o passar do tempo, reuníamos a nossa turma de violão e muito raramente cantávamos uma ou duas canções nossas. Nossos amigos não entendiam e pediam covers. "Foda-se" ele dizia e acabava não tocando mais nada.

A camisa com a estampa de Joey Ramone era uma presente que eu havia me dado quando tinha feito 16 anos. Achava que para quem sabia apenas dois acordes de violão o mundo não valia a pena para receber minhas curtas e rebeldes canções. Os Ramones me ensinaram que isso era possível e, de maneira absoluta, ainda acreditar que os losers eram os verdadeiros mantenedores da cultura pop nesse mundo sem vergonha.

Por causa dos Ramones me transformei em músico de garagem e quartinho. Isolado do mundo, com meus livros, telas, gibis, centenas de discos de vinil, dezenas de fitas K-7.

Tinha ainda a pretensão de ser um poeta romântico, dos amores fracassados, mas que sabia, sem por e nem onde que eram experiências minhas e ninguém tinha a ver com isso. Gostava de mim quem quisesse. O Fábio tinha o mesmo pensamento, só que musicalmente ele era mais regionalista, se consumia Geraldo Azevedo e Zé Ramalho na mesma proporção com que ouvia Van Morrison, Pink Floyd e Iron Maiden, eu fixava minha atenção sonora no punk rock e misturava Led Zeppelin, Deep Purple com U2 e The Smiths. O nosso prato musical comum era Ramones. Por isso a camisa tinha o significado importante pra mim.

Através dela me tornei amigo de Fábio. "Você gosta também?"

No final das contas quando íamos jogar sinuca com os nossos amigos em comum, altas madrugadas, depois de termos deixado nossas namoradas em suas devidas casas, ele pegava o violão, que sempre levava dentro do Fusca que tinha, e arriscávamos a cantar as canções que havíamos feito. Nunca se tornaram hits ou polivalentes do circuito alternativo, afinal aquela fita estivera guardada por anos e ouvir de novo, depois de tanto foi uma experiência e tanto. Nossos amigos, por fim, creditaram um talento incomum à dupla, ainda que eles não entendessem que estávamos querendo reinventar a música ao nosso modo, com nossas influências e dar algo novo. Foi uma experiência de dois amigos que amam música.

Hoje eu sou jornalista e o Fábio veterinário. Eu do interior de São Paulo e ele de Recife. Eu trabalho em Porto Velho e ele em Brasília. Há mais de sete anos que não nos vemos, mas quando conversamos no MSN ele sempre lembra das velhas canções que compomos. Ficaram em nossas memórias. A fita master, por fim, se perdeu ano passado quando o mofo comeu quase toda o rolo de fita e o som ficou inaudível.

Numa noite uma conhecida de uma amiga nossa em comum encontrou o meu caderno de anotações, leu, revirou os olhinhos, coçou o queixo e deixou de lado. O Fábio a encontrou dias depois na Discolândia, e ela comentou com ele que não gostava de gente com problema de amores mal resolvidos, pois sempre usava o que escrevia como forma de escape. Ele perguntou de quem ela falava, e ela disse o meu nome. Ele me contando que riu muito do que ela tinha falado. "Você conhece a vida dele?"
Ela disse que só nas reuniões do grupo de amigos, mas não tinha se aprofundado em conversar comigo.
Ele: "Então você não o conhece mesmo".
Ela: "Eu vi aquele caderno dele cheio de anotações e li. Como eu sou culta também, peguei de curiosa..."
Ele: "Pois é, agiu errado e se você tivesse prestado atenção, iria ler na primeira página: 'Contos e letras', ele escreve aquilo que deve ser escrito como forma de ficção, para provocar. Você caiu direitinho. "
Ela: "É a minha opinião e é o que eu acho".
Ele: "Bom, de amor mal resolvido ele não tem nada. Namora, fez um livro pra namorada e pelo que sei os dois estão muito bem".
Aí ela ficou olhando séria pra ele. Ele começou a rir.
Ela: "Que se foda!"
Ele me contou isso e eu lembrei da música "Underground". Tem um trecho da música que dizia: "Ela tenta compreender seu mundinho desumano/ Não existe razão baby/ Pois ser inteligente é usar as arma certas/ Com aquele cara mundano".
Fábio disse que cantarolou a música pra ela e depois saiu. Foi engraçado.
A sintonia de nós dois ainda era uma constante em vista das composições e do entrosamento musical.
Só lamento que desse resultado musical só restou lembranças e histórias, amigos que passaram, canções que nunca mais cantaremos e as eternas influências que solidificaram nossa amizade.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Poemeto I

Não quis entender a tua tristeza
mas foi o suficiente para te amparar

Não ri com suas incertezas
Porém não esperei que contasse segredos

Deixou um bilhete no meu bolso
com a marca do teu batom favorito
Não quis perceber o quanto estava adiantada
A solidão que me mostrou...

Abaixou a cabeça e nada disse quando respondi teu bilhete:
"Porque nem tudo que você me diz com os olhos
representa o reinício de nosso amor.
Tarda, mas hoje não estou mais só..."






quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Dicas de consumo pop: "Sexo" e "Rolling Stones"



DVD - "Sexo, mentiras e videotapes" - (Sex, lies and videotapes/1989) - Sempre escrevo e digo que todo amor perfeito tem um fim inesperado. É uma afirmação para dizer que tudo tem um fim, mas a duração é eterna até o momento do adeus. Apologia nada legal para românticos. Esse filme, escrito e dirigido por Steven Soderbergh (de "Onze homens e um segredo" e "Traficc"), foi feito quando ele tinha pouco mais de 20 anos e recebeu a Palma de Ouro em Cannes. É um filme relativamente muito barato, usa quatro atores fixos e uma trama incomum, mas incrivelmente atual. O roteiro tem um final coletivo, decidido pelos atores e que se situa mais coerente com o desenrolar da trama. Um advogado bem sucedido (Peter Gallagher) é casado com uma dona de casa (Andie Macdowell) que vive um fastio sexual por causa da monotonia, porém ele mantém um caso com a ardente cunhada (Laura San Giagomo). A rotina dele se altera com a chegada de um amigo de infância (James Spader) que resolve passar alguns dias na cidade. Ficamos sabendo então que o rapaz é impotente e grava em vídeo depoimentos de experiências sexuais de mulheres. Durante o decorrer do filme fica-se observando o fascínio que ele causa nas mulheres e o modo como as convence a prestar um depoimento. Tudo se transformar quando as duas mulheres da vida do advogado resolvem prestar o depoimento e tentam compreender a cabeça complexa daquele homem, que se diz impotente. Então exposições de traumas íntimos, rancor e mentiras são expostas em uma sucessão de clímaxes que conduz para uma virada na vida de cada um dos personagens. Esse foi o filme que me impressionou pela economia de diálogos, mas todos tão precisos e bem feitos, e as motivações intensas dos personagens. É fácil assimilar os medos, anseios e encontrar uma identificação sólida com a projeção traumática do personagem central, vivido por Spader - sua impotência tem uma razão fixa, porém pode servir de metáfora a uma série de questões pessoais. Esse foi um dos primeiros filmes a questionar e expor uma geração inquieta, que passava pelos anos 80 quase incólume pelo processo degenerativo da acomodação e do egoísmo emocional. O romance que poderia ser impróprio se torna uma catarse digna de um fim quase inesperado. A cena de sedução dos personagens de Andie MacDowell e James Spader, com trilha eletrônica, é um primor de sutileza e delicadeza (veja abaixo). Dos melhores filmes que assisti nos anos 80 e está na minha lista de dramas favoritos de todos os tempos.





LIVRO - "The Rolling Stone - Gravações comentadas e Discografia Completa" (2009/Larousse) - Vou ser bem sincero, eu tenho uma relação dúbia com a banda Rolling Stones, não acho a maior e melhor banda de rock de todos os tempos, como se propaga em muitos escritos e bocas de críticos musicais - apesar de achar "Exile On Main Street" (1972), o melhor disco de Blues já gravado por uma banda de rock em todos os tempos. Mas isso é uma questão pessoal. Mas acredito no poder de transformação da banda e na sua importância histórica, acho que a produção artística e musical de Mick Jagger, Keith Richards e companhia era melhor nos anos 60 e início da década de 70. Adoro o fato deles terem sido considerados os anti-beatles, pois eram mais "sujinhos", considerados marginais e alternativos. Esse mini-book de Alan Clayson é um tesouro, o título já é perfeito e traduz muito bem a intenção da obra. Mas o grande barato é ler os textos para cada disco e as histórias em sua volta. Alan traça um painel fantástico de transformação social provocada pela música, no caso o rock e, ainda mais no caso, da influência dos Rolling Stones no comportamento da juventude, principalmente quando estouraram nos Estados Unidos em meadas dos anos 60. A famosa "invasão britânica" na América é esmiuçada com propriedade. O grande barato é descobrir que os integrantes da banda logo no segundo disco "Rolling Stones 2", já havia trocado figurinha com seus ídolos, todos monstros do blues e Rythm blues. A narrativa de Mick Jagger tragando uma carteira de cigarros antes de entrar em cena para um show, onde o artista predecessor era James Brown é de arrepiar. "Jagger e Richard estavam com as mãos trêmulas ao saber que subiriam ao palco depois de Brown". O livro apresenta com detalhes cada faixa gravada, com histórias em torno de cada música, quem tocou o quê e a referência da composição (cover ou não) - incrível saber que o produtor Phil Spector (o gênio por traz por "wall sound" das girls groups dos anos 60 - The Cristals e The Ronnetes) fez parte do primeiro disco da banda, mesmo quando ela não era famosa. Até para quem não é fã dos caras, como eu, vale muito a pena. A editora Larousse tem mais dois livros tão importantes quanto necessários para compreender melhor a história do rock nos anos 60 e a sua capital influência nos anos posteriores: "Beatles" e "Bob Dylan", a quitessência da música moderna em discografia comentada. Entre AQUI e confira a dica. O livro também pode ser encomendado - pelo mesmo preço da editora - na Livraria Nobel do Porto Velho Shopping (foi lá que adquiri o meu. Só tinha esse exemplar lá).


terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Lat Septem - 777


Não me pergunte as questões que levam uma pessoa a achar graça em andar de ônibus para ir ao trabalho. É um momento de solene desilusão quando se deixa acanhar pela monotonia. Mas, as vezes, o tempo é precioso e observar é colher experiência. Dependendo da situação, é possível obter inspiração suficiente para escrever. O texto abaixo é uma variação de outro só que em dois momentos distintos.

No sétimo dia do dia sete de julho – do mês sete – do ano de 2007, às 07 horas e sete minutos, entre os seis e oito segundo senti uma palpitação no coração quando estava sentado no ônibus que me levava para o serviço. Ela entrou com um sorriso tímido, os cabelos encaracolados caindo parcialmente em um dos ombros, uma bolsa de lona e um livro do Gabriel Garcia Marques em uma das mãos ("Amor nos tempos de cólera").

Passou pela catraca e sentou na cadeira em frente onde eu estava. Segui-a com carinho nos meus olhos e sorri de canto – num gesto de cumplicidade comigo mesmo. Claro, ela nem prestou atenção, aliás, não existo pra ela, sou mais um passageiro diário do ônibus de linha.

Ainda assim me permiti os excessos de poetas inconseqüentes que se apaixonam a cada dia e tentam galgar degraus absolutos do inalcansável para tocar sua musa.

Os óculos de grau, com aros vermelhos, lhe davam um charme intelectual e sua maneira simples e despojada de vestir me arremetia a desejos nostálgicos de amigas que dormiam aninhadas em meus braços, em busca de proteção no tempo de faculdade.

Contei então que ela possuía sete pontos chaves de que sua presença me instigava a interpelá-la e extrair um assunto simples para que a conhecesse melhor. Tarefa fácil. Mas, que nada. Na sua magnânima timidez ela me olhava rapidamente e logo voltava o seu interesse para o livro que carregava.

Ela se encolhia no canto da cadeira e o lia com dedicação. Por mim tudo bem, poderia ficar longos minutos lhe olhando sem que ela percebesse que eu via em suas feições e gestos àquela procura eterna da perfeição.

Um ponto: os cabelos castanhos, enrolados graciosamente, grandes, sinuosos e perfumados com algum shampo de erva aromática;

O segundo ponto: O olhar que aprofunda na leitura, mas vez ou outra escapa no tempo um olhar de procura em volta e nem percebe que o seu ato involuntário permite um flerte;

O ponto três: a pele alva, levemente sardenta;

Quarto ponto: aparenta uma delicadeza primaveril (como assim? Vão perguntar os decifradores de charadas), ou seja, com a cor das flores mais pueris de um jardim;

Olhaí o quinto ponto: sorri como a chama delicada de uma vela em um quarto à meia luz, numa noite de verão;

E o sexto ponto: caminha angularmente reta, compassada e arqueia o tronco levemente para trás, arrebitando sua puba enquanto os braços parecem delinear movimentos dançantes, milimetricamente dosado e...

Por fim o sétimo ponto: salvo engano, me trespassa com uma lança de paixão, com um olhar fulminante que me despe por inteiro e transforma minha paixão em desejo.

O que fazer com os seus sete pontos atrativos que me permitem borbulhar doses cavalares de glicose, daqueles arroubos idiotas que somente os apaixonados se permitem?

Apreciar, olhar e entender que no dia sete de julho de 2007 - passados sete minutos até o ponto onde eu ficaria – um pedido avulso às estrelas foi concretizado: vislumbrar a perfeição, tão assimétrica, das que ficam escondidas em alguma passagem de tempo que somente a física quântica permite em teoria científica.

Não sei o seu nome, não sei de onde vem e nem para onde vai... Mas de alguma forma eu sei que ela invade minha imaginação e ousa quebrar o encanto de minha desilusão quanto ao amor. Pois, de alguma forma, um novo amor faz esquecer um velho amor... Tão simples e óbvio quanto à vida monótona da realidade urbana que eu vivo.

Hoje, não tão só... Mas com você invadindo meus sonhos vez ou outra, sou um passageiro de ônibus tão feliz quanto inspirado...

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Na noite...

Embarco no carro e dois amigos já me empurram uma garrafa com concentrado de Agave Azul da marca El Jimador. Na primeira talagada eu já sinto o ardor na traquéia e depois o incêndio no meu estômago. Mas deixo de lado, minha excitação tá alta e brindamos à noite.

É uma madrugada de sábado e aportamos no Informal, Pub da rua Brasília, que tem alta concentração de "bonecas" (gíria de amigos para as emergentes garotas da sociedade que fazem pose nos balcões, com aquele ar de "eu posso e quero que se foda") e gente boa praça, ainda que vez ou outra eu me depare com algumas senhoras da libertinagem. Uma delas, que eu vou chamar de Tetê, que havia dito ter 44 anos, apesar de aparentar bem menos, se aproximou do meu amigo Cleberson, perguntou se não pagaria uma bebida pra ela. Ele desconversou, com aquele ar tonto que carrega, típico de quem tá afim de "carne nova" e deu as costas à ela.

Percebi que a senhora ficou chateada e ao mesmo tempo conformada. Estava tomando a metade da minha caipirinha de Vodca e a mirei com precisão, avaliando se a dita senhora tinha munição para abordagens precisas de pré-acasalamento.

Baixa, longos cabelos castanhos claros, lisos, um vestido vermelho curto, salto alto da mesma cor, cintura pequena, quadris largos, seios pequenos, mas bem seguros e empinados por um daqueles maravilhosos sutiãs milagrosos que deixam tudo em pé. Orosto era suave, apesar da maquiagem um tanto pesada, mas transparecia uma beleza incomum, pois tinha os lábios finos, nariz afilado e olhos siamescos, mas que me perturbavam, pois deixava transparecer que usava lentes verdes.

Era uma mulher bonita, com um padrão acima da média dessas "senhoras de fino trato" que encontramos pela noite. Mas, claro, perto das mulheres, ou garotas saindo da puberdade que freqüentavam o bar ela parecia comum, translúcida, de uma presença banal e sem artifícios muito eficientes para concorrer com algumas moçoilas mais encorpadas. E olha que nessa noite tinha muita "cavala" – ok, me perdoem as meninas que lêem o meu blog, mas é outra gíria, que equivale (ai, ai, vou ser xingado agora pelas mais puritanas) a mulher "gostosa", no real sentido da palavra).

Enfim, olhei aquela "senhora" e fiquei admirando-a por alguns minutos, foi quando chegou um garotão, playboy, do tipo que anda com um celular na mão o tempo todo e usa óculos escuro em cima da cabeça, até na noite, pra parecer pintoso (acho que é isso, para não rebaixá-lo a um narcisismo neural sem cura), com duas "cavalas", uma em cada braço.

Ele se aproximou de Tetê como já a conhecesse, ela se insinuou pra ele e o carinha apenas jogou algumas notas de dez reais dentro da bolsa dela, enquanto as "amigas" dele riam entre cochichos, observando a cena.

Vi tudo de longe e apesar de não ter entendido nada – acho que sou inocente nessas celeumas entre putas e clientes -, fiquei admirado. Ela ameaçou sair do local e ficou parada na porta do bar, com seu belo vestido vermelho. O segurança da casa a observou e cochichou algo no seu ouvido. Com certeza, "melhor você ir embora".

Tomei uma talagada violenta da caipirinha e engoli meia banda de limão, quase engasguei. Geraldinho, meu outro amigo olhou pra mim e começou a rir.

"Eita, viu alguém em especial?"

Acenei que sim e já parti pra fora do bar, capengando ridiculamente entre as pessoas. Que bosta! Duas doses de tequila e uma caipirinha e pareço um pião de roda sem direção. Passo pela porta e encontro a senhora bem ao meu lado, ela me olha e vira o rosto me ignorando. Deve pensar que sou outro que vai lhe dar às costas.

Respiro fundo e pego no seu braço.

"Oi" – Como sou horrível nessas abordagens, "oi?????" – onde você vai arranjar mulher com um "oi"??? – Grita o "meu id safado" pra mim.

Ela olhou para minha mão segurando o seu braço e depois me encarou, ficou me olhando séria e deu uma leve fungada no nariz.

"Olha eu tive uma noite horrível, ok. Se for outra sacanagem...."

Interrompi.

"Que sacanagem, eu nem te conheço, eu achei você uma mulher interessante e vim atrás, só isso."

Ela parou de falar e ficou me olhando desconfiada.

"Ah, olha cara, eu não tenho tempo pra isso..."

Vi, que não ia resolver ficar explicando algo de que nem eu sei pra ela e já lasquei a "botina na porta".

"Gostei de você... Só isso, não pode?"

Ela então ficou me encarando por alguns instantes calada.

"Tá a fim de sair daqui e dar uma volta?", perguntei.

Ela ficou me olhando não acreditando no que tinha falado e apenas balançou a cabeça positivamente.

"Ok, deixa só eu dar um telefonema."

Falei com o Geraldinho para me emprestar o carro por algumas duas horas (é assim mesmo, algumas duas horas), e ele, ainda que relutante, deu parecer positivo. Veio até a porta e me olhou com uma cara de sacana e jogou a chave do seu Pálio em minhas mãos.

"Vê se não demora bicho!"

Nada falei e já fui chegando na "dama de vermelho".

"Vamos, consegui o carro do meu amigo."

Dentro do carro ela se soltou um pouco mais.

"Você sabe que eu sou da vida, né?"

"Sim."

"Então sabe que tem um preço."

Passei de leve uma das minhas mãos em seu rosto e acariciei o lóbulo de uma de suas orelhas, sorri e ela então ficou aturdida, coisa que nem eu imaginei.

Um pouco acanhada ela virou o rosto de leve e sorriu de fato.

"É uma droga de vida, sabia? Você já deve ter visto que eu sou péssima nesse tipo de situação", lamentou ela.

"Não importa, eu tô um pouco bêbado, mas não o suficiente pra causar um acidente viu. Mas eu to lúcido o suficiente pra saber o que eu quero", falei.

Ela se apresentou como sendo "Tetê", de Tereza – se é nome verdadeiro? Nunca mais vou saber. Contei pra ela que havia vindo de uma paixão fracassada, onde os resquícios de minha dedicação pela mulher que partiu, haviam me atingido de forma tão cruel que já havia perdido o rumo da minha vida amorosa, precisava então de uma aventura, de uma pessoa que me desse o firmamento necessário para que pudesse sentir a realidade da vida e me jogasse de frente ao pecado.

Nossa! Eu viajei demais com a conversa e ela me ouviu. Depois me falou que não tinha experiência na vida que resolveu seguir, que havia caído na noite há pouco tempo, era divorciada e o ex-marido nunca havia lhe dado um filho, mas fez questão de deixar ela sem nada.

Ela pediu para encostar o carro num residencial, cheio de apartamentos parecidos. Estacionei o carro na garagem e subimos as escadas, com ela me puxando pela mão. Entramos então num apartamento bem arrumado, todo branco, até os sofás eram brancos. Perguntou se eu queria beber algo, e disse que não. Ela então colocou um CD de baladas e se aproximou de mim, abaixei os meus olhos e ergui minha cabeça. A peguei pelo braço e a trouxe junto ao meu corpo, ela colou em mim e pude sentir o perfume de flagrância cara invadir meus sentidos. Era fraco demais para perfumes tão dóceis.

Ela passou a língua no meu pescoço e mordi o seu queixo. As mãos delas passearam pelos meus ombros e a colhi pelas costas, arranhando com os dedos do cóccix até a nuca, num passeio sinuoso e lento de carinho e massagem.

Ela arfou em minha boca e resolvi tirar o seu batom com os meus lábios. Os cabelos longos passeavam por minhas mãos que abraçavam com afinco, enquanto ela passeou com seu pescoço em investidas lentas sobre o meu rosto e pescoço.

Ela era pequena, e a peguei no colo, aninhando nos meus braços enquanto a beijava, senti que Tetê se arrepiava e a sua pele atenuava uma leve febre. Em um daqueles flashes de observação, eu fiquei imaginando que tipo de carência teria essa mulher, que transparecia ser tão experiente.

Ela me apontou uma porta de um curto corredor e adentramos. Havia uma cama de casal e uma grande poltrona. A pus no chão e ela desabotoou minha camisa, fiquei arrepiado então quando ela deu leves mordiscadas no meu pescoço e sua língua safada desceu sobre os meus mamilos. Não contive e ergui sua cabeça, ela me olhou lânguida e eu disse que naquele momento eu queria cuidar dela.

Abri o zíper do seu vestido e conferi que realmente ela usava um sutiã daqueles de poliamida, da Triumph, de cor vermelha e uma minúscula calcinha da mesma cor. A sua tez morena contrastou lindamente e nos alto de seus 44 anos ainda transparecia ser uma mulher muito bonita (é verdade mesmo, tinha suas celulites e estrias, é claro, mas não tinha visto nenhuma cicatriz e apresentava uma rigidez de carne típica de quem malhava, o que depois ela confirmou pra mim)

Ela ficou nua e depois completei tirando a minha roupa. Deitei na cama e ela sentou em cima de mim. Com volúpia desenhou sobre a minha pélvis uma dança do ventre. Ela me dominou e logo esqueci por incríveis quarenta minutos que a madrugada tinha fim e que existia um mundo real lá fora.

Na despedida, depositei um valor X sobre uma de suas mãos e ela sorriu com um ar de moleca. Me convidou para repetir o programa, e apenas concordei lhe beijando as mãos.

"Qualquer noite, qualquer madrugada... Quem sabe né".

Ela fechou a porta de seu apartamento e fui embora, ao encontro dos meus fiéis amigos que ainda estavam no Informal.

Pra variar os dois estavam "trêbados" e eu lúcido, com um som de harpa na cabeça e pensando em anjos. Entreguei a chave do carro ao meu amigo Geraldinho e fui a pé pra casa – eu moro perto do pub.

Dias depois contei a história para os caras e em outra madrugada no Informal lhes mostrei a senhora que me deu uma noite inesquecível. Ela estava bonita, mas agora parecia dileta, seletiva e com um ar superior. Me acenou de longe com um sorriso estrelado, enquanto um homem maduro, bem vestido, acariciava uma de suas mãos.

Uma noite apenas... Como diria um bom boêmio.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ter amigos é sorrir sempre quando sonho que vou ganhar um abraço


Tive um fim de semana de oscilação de humor e emoção. Como para toda ação existe reação, para cada ato existe uma consequência. Em meio a uma crise, febril e (in) tenso escrevi algo para desanuviar, pois eu ainda acredito na amizade e na responsabilidade que ela traz.

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Crime sem intenção é andar ao seu lado e revelar que na verdade tudo se resume a um olhar perdido no horizonte. Poder chorar em seu ombro e contar os segredos dos meus problemas. Amizade é confiar na sua sinceridade e receber um sorriso quando se precisa de uma lágrima.

A vida é uma constante de altos e baixos, alegrias e tristezas, surpresas e obviedades. Respeitar o andar do seu tempo, o gesticular inerente da sua reação e a mensagem das expressões físicas que o seu corpo transmite, me vale como referencial do limite que devo permanecer para sempre poder sorrir com suas histórias e temeridades.

Existe dia pra tudo, existe data comemorativa para quase tudo, mas não existe palavras sinceras a todo momento, pois a vida é feita de instantes (ou instantâneos), e esses momentos são como pequenas armadilhas, jogos particulares de uma intimidade que não queremos nunca mostrar, mas apenas pincelar e dar como pílulas às pessoas que são próximas. Ao amigo, enfim, vale um pouco mais de demonstração da realidade que vivemos e/ou ensejamos.

A amizade se escreve no valor de nossas razões pessoais para que saibamos dar o valor exato do que sentimos pela presença do amigo (a). Não existe contenção, não existe peso de palavras ou demonstrações pessoais de carinho ou raiva. O sentimento de amigo é igualitário àquelas pessoas que mais amamos. Por isso amizade é a real transformação do sentimentos entre a adoração e o ódio, num peso ordinário de subjeções e certezas imaginárias.

Não entenda, subentenda minha palavras ou busque significados e definições pré-estabelecidas ao que eu quero passar, mas apenas viva e deixe viver os seus instintos e esqueça suas temerosidades. Mas, tenha apenas uma certeza, amigo é aquele que antes de lembrar o seu aniversário, lembra que você existe para todos os dias e peca por ser excessivo em sua preocupação.

Houve um físico alemão no século passado que vez ou outra tinha a visão privilegiada das relações humanas, experiência dotada de sua vivência e observações da natureza humana no que diz respeito às emoções. O nome dele era Albert Einstein...

Ele então escreveu sobre o valor da AMIZADE:

"Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.

Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.

Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.

Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.

Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.

Há duas formas para viver a sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre."