sábado, 13 de março de 2010

Um até breve...

Por um ano tive experiências maravilhosas no uso do Twitter. Conheci gente muito boa, pessoas motivadas em conhecer e aprender. Deixe me seduzir pela ferramenta e formalizei amizades concretas com gente produtiva e que fazia a diferença no meio. Não me ative as diferenças comuns entre elas no que diz respeito a convivência via essa rede social. Até mesmo porque diferenças devem ser resolvidas, à contento, ao vivo, Twitter são para poucos que entendem o seu uso como expositor de interesses quase coletivos e a formalização de amizades.

Aprendi muito com as pessoas e avatares. Cruzei a faixa dos 10.000 tweets com aquilo que sempre acreditei e perpetuei. Porém, uma vez Domingues Jr. postou. "Intimidade demais causa falta de respeito", um ditado inglês. E sei o quanto isso é verdade.

Diante de algumas situações inesperadas e por gostar demais das pessoas que sigo, esgotei. Preciso de um tempo para pensar e reavaliar conceitos. Parece tolice, mas não é. Twitter é uma ferramenta ainda em perspectiva de conhecimento e democraticamente ímpar. Digo que o Twitter é seu e você faz dele o que bem entender, mas prego que existe uma linha coerente de respeito e ética.

Em vista das amizades que formei, da confiança que me foi prestada, do conhecimento que adquiri e do respeito a que me foi delegado neste curto espaço de tempo é hora de dizer um até breve.

Para aqueles que confiaram em mim e na minha amizade digo que estarei atualizando com mais constância o meu blog e os contatos serão permanecidos no Facebook, no MSN, Orkut e Gtalk. Não dou unfollow e nem block em ninguém, pois ainda acredito nas pessoas e amigos. Não desativarei o meu Twitter, mas ele ficará inoperante por um bom tempo. Utilizarei somente o institucional da minha empresa (Rondoniaovivo) para atualização de links das matérias.

Um abraço nos rapazes e amigos, um beijo nas meninas e amigas. Nada é definitivo, mas breve. Portanto juízo. Adoro vocês tuiteiros.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Quase perfeição das leituras de sempre



“(...) Era verão e tudo estava fresco, brilhante e cheio de vida. Havia uma cantiga em cada coração e, se o coração tinha poucos anos, essa cantiga vinha até os lábios. Tosos se mostravam contentes e andavam com desembaraço. As alfarrobeiras estavam em flor e o perfume dessas flores enchia o ar. O monte Cardiff, a cavaleiro da aldeia, estava coberto de vegetais e ficava precisamente à distância necessária para tomar o aspecto de uma terra de promissão convidativa, cheia de sonhos e tranqüilidade.” –
Twain, Mark – “As Aventuras de Tom Sawyer”, Cap. II, pág. 17 – Editora Nova Cultural, 2002.

Esse é pra mim um dos mais lindos parágrafos já escritos para um livro. É utópico, lírico e paisagisticamente perfeito. Dá para respirar o ar do campo na detalhada, mas sutil descrição do seu autor. Isso porque Twain descrevia a região de onde viera, onde passara a infância e de onde, de certa forma – sem generalizar – todos possuem suas melhores recordações.

Por que começar o texto com ele?

Só para dar um modelo de um tempo em que as situações da vida eram amaciadas através da visão poética. Isso quando a poesia, sem sua vertente mais lírica, fazia sentido quase nostálgico.
No amargor dos tempos vindouros, o progresso cuidou para que esse sentido de literatura esteja transformado em clássico, em referencial lúdico para gerações de leitores, sem ater no real sentido do significado daquelas palavras. Eu poderia citar um grande número de escritores tão absolutos quanto obrigatórios nesse sentido, até mesmo aqueles marginalizados pelos mais puristas – como Henry Miller, Charles Bukowski e J. D. Salinger -, mas dentro de seu tempo, na sua época e se ateram à sua visão crítica e, porque não, vivência particular e instransponível ao nosso consciente sem mostrar a essência na crueza de suas linhas, ora realista, oportuna e por vezes lúdica dentro de sua concepção pessoal.

Do público que queria atingir, essa poesia que surge na descrição é nostalgia, é beleza gráfica dos sentidos que movem a história de suas vidas.

Se hoje a comunhão de atingir um público maior de leitores se encontra no impacto de mostrar o grafismo de sequências pseudodramáticas que se transformaram em lugar comum pela urgência de fazer uma leitura rápida, do tipo fast-food, basta comprovar vendo as listas de best-sellers, onde a capitalização de esforço literário se encontra em literatura de aspecto pop – sem a subjetividade que a palavra exige – onde o recurso de pensar já está mastigado nas linhas, não exige muito o pensamento reflexivo.

Não é todo ruim, pois de alguma forma isso incentiva a leitura para uma geração onde tudo é rápido, do moderado ao maniqueísta e processado em gigabytes. Encontrar jovens lendo textos longo, histórias com um certo grau de complexidade (nem tanto) remete a uma esperança de que nem tudo pode estar perdido.

Mas vale lembrar que o autor é a memória do seu tempo, quando no ápice de sua criatividade pode oferecer o que melhor sabia fazer. Eu creio que a literatura deu esse direito, permitiu aos seus asseclas de letras o dom de nos fazer pensar, buscar o além do que até então parecia ser absoluto.

“(...)Estamos no outono do meu segundo ano em Paris. Mandara-me para cá por uma razão que ainda não consegui compreender. Não tenho dinheiro, nem recursos, nem esperanças. Sou o mais feliz dos homens vivos. Há um ano, há seis meses, eu pensava ser um artista. Não penso mais nisso. Eu sou. Tudo quanto era literatura se desprendeu de mim. Não há mais livros a escrever, graças à Deus.” – Miller, Henry – “Trópico de Câncer”, págs. 07 e 08. Editora Nova Cultural, SP/1987.

A sobriedade dessas linhas de Miller permite pensar que quando não há nada mais para se escrever ou transmitir, é melhor parar. É verdade, a coerência de se fazer vivo, da busca da imortalidade está na transmissão de pensamento, no organizar das idéias, fabular e transformar em material de acesso às massas, ou a quem possa – e de direito – interessar. Livros possuem essa magia de quase perfeição. Ler é sagrado, como vincular a palavra ao maior livro cristão de todos os tempos, a Bíblia.

A razão de escrever é mostrar vida através do pensamento, relatar experiências ou apenas uma reflexão do passado através de romances, contos e poesia. Essa é uma visão purista ligada ao cerne da criação dos clássicos através dos tempos. Vejo nesses livros, em cada um deles que li um pedaço do seu autor descrito e escrevo isso em referência àqueles autores que tudo dizem numa única linha de frase ou, ainda, transbordam de lirismo uma passagem tão banal quanto a descrição de um lugar, de um ambiente que nos parece familiar apenas pela leitura das palavras certas, na sua composição ortográfica perfeita. Por isso gosto do parágrafo de abertura desse texto, citando Mark Twain. É simples, objetivo, claro e muito bonito.

Se a banalização de sentimentos que hoje pululam as leituras mais radicais de nosso tempo, movidos por feitiçarias, serial killers, corrupção de menores, violência, vampiros e lobisomens, na busca da catarse do leitor e surgem efeito no sucesso literário, os livros de auto-ajuda se transformaram em referência da busca do sentido da vida, na adequação ideológica que é ao querer se adaptar ao capitalismo irreparável da vida real e no labirinto fatal que é o neoliberalismo.

Parece salada mista, mas não é, pense que a forma de espairecer a mente, dar um refresco ao corre-corre da vida cotidiana pode muito bem estar atrelada na leitura de um bom livro, mas quem determina essa literatura é você, e se o livro é bom ou não já é uma opinião pessoal e ligada ao estilo de vida que você escolheu.

Vão me perguntar se me refiro a alguma obra ou autor em particular... Sinceramente, não. Mas posso dar um exemplo do que é uma obra primorosa e que depois cai. Todos que gostam de cultura pop falaram do filme “Matrix” (1999/Irmãos Wachowski), as referências literárias eram enormes – da literatura cyberpunk de “Neuromancer”, de William Gibson, a “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carrol, até menções claras da Bíblia -, com suas idas e vindas na filosofia oriental, nos diálogos originários do mangá, ou seja, para o fim de século, o filme era um leque reverencial à cultura moderna na linguagem até niilista das geração “ponto com”. Foram feitas duas continuações que literalmente pulverizaram a “pureza literária” que o filme parecia ter reciclado tão bem para essa geração e transformaram em arremedos da obra original – em uma profulsão de efeitos apenas – com a manipulação de referências que perderam a coesão , banalizou e ficou extremamente maçante. O interessante é que os seus próprios autores cuidaram do desserviço, algo raro.

Na literatura é parecido, de repente, para cada “O Senhor dos Anéis” (J. R. Tolkien) existem dez “Harry Potter” (J. K. Rowling) – não desmerecendo a obra que trouxe a descoberta da leitura para essa geração avessa à letras extensas. Pronto, é só um exemplo que explica o que quero dizer. A pureza clássica dá origem aos diluidores, que apenas acrescentam contemporaneidade kitsh onde antes existia espontaneidade. No caso de Tolkien, é um estudo lingüístico de extrema riqueza. Já referente a “Matrix”, dos Wachowski, no resgate do referencial literário do primeiro filme, rico em forma e expor a modernidade a partir do clássico, se perde em sua extensão desnecessária (duas continuações desnecessárias). Queiram ou não, por mais que sejam linguagens distintas - literatura e cinema -, o fator aqui é a criação, por isso o exemplo.

Acho que no alvorecer das idéias com que alguns leitores ávidos procuram nos livros, o tratamento respeitoso da língua e a coragem de seus autores em colocar seus pensamentos em situações ou personagens servem como referencial de vida. O fato é que, os nossos melhores livros são aqueles que identificamos personagens tão solidários quanto precisos na descrição de algumas pessoas próximas, ou situações que vivenciamos ou apenas interpretamos como coincidentes na vida real.

Creio que muitas vidas se assemelham a livros, personagens e autores quando os sentimentos se amalgamam numa comunhão comum às pessoas sensíveis. Convenhamos, a vida é quase perfeição quando estamos sós e nas viagens de nossos pensamentos, na argúcia de nossos devaneios, o mundo está apto a aceitar todos os nossos sonhos e desejos, sem pestanejar, pois nos momentos de solidão somos senhores da razão, da realidade, do pensamento e da nossa história. Penso que os grandes autores poliram suas idéias e transcreveram para o papel suas histórias a partir desses momentos. Em respeito a eles é que alguns dos melhores livros de todos os tempos já foram escritos e isso foi há muito tempo.

“(...) Bebi até a hora de fechar. Cass, a mais bela das 5 irmãs, a mais linda mulher da cidade. Consegui ir dirigindo até onde morava. Não parava de pensar. Deveria ter insistido para que ficasse comigo em vez de aceitar aquele “não”. Todo o seu jeito era quem gostava de mim. Eu é que simplesmente tinha bancado o durão, decerto por preguiça, por ser desligado demais.

Merecia a minha morte e a dela. Era um cão. Não, para que por a culpa nos cães? Levantei, encontrei uma garrafa de vinho e bebi quase inteira. Cass, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos.

Lá fora, na rua, alguém buzinou dentro de um carro. Uma buzina fortíssima, insistente. Bati a garrafa com força e gritei:

- MERDA! PARA COM ISSO, SEU FILHO DA PUTA!

A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia fazer mais nada.” – Bukowski, Charles – “Crônica de um amor louco”, págs.16 e 17. L&PM Editora/1987.

Dos referenciais literário que possuo Bukowski foi o mestre necessário que da marginalização estendeu sua influência crua e rasteira a uma dimensão de arte, ao retratar sua própria vida de boêmio, onde vivia em um mundo no status quo miserável da natureza humana que se transforma em uma autêntica “mosca de bar” (barfly), entre cervejas, vinhos, putas, perdedores, quartinhos imundos e um intelecto profícuo demais.

No contexto da antítese deixo algo que me remete a uma descrição solitária que só os observadores podem se ater, por isso mesmo dentro do contraste entre bruto (Bukowski) e o lírico (Tchekov). Um Primor de descrição não só de ambiente como de costume social.

“A igreja paroquial está situada a duas longas léguas da aldeia, na vila de Kosogorov. Só se vai lá nas grandes ocasiões, para os batizados, os casamentos, os enterros. Habitualmente, os habitantes de Yukovo ouvem missa na igrejinha do outro lado do rio. Nos domingos em que fazia bom tempo, as moças enfeitavam-se e dirigiam-se aos bandos para a igreja. Os seus vestidos, vermelhos, amarelos ou verdes, pintavam a pradaria com belas manchas de cores alegres. Quando fazia mau tempo, todos ficavam em casa. A Páscoa era festejada na paróquia, e quando, depois da festa maior, o sacerdote vinha benzer as isbás, recebia a multa de quinze kopeks paga por todos aqueles que não tinham tido tempo de praticar as suas devoções durante a Quaresma (...)” – Tchekov, “Contos” – Pág. 159 – Otto Pierre Editores Ltda – Rj 1979.

Não siga à risca o que escrevi, pois num país em que ainda existe um número muito grande de analfabetos, só o fato de ler uma cartilha com a história das vogais e consoantes, já é um passo enorme. Ler é preciso, ensinar mais ainda, assim como sonhar é necessário para adoçar a vida. O primeiro passo é valorizar a leitura para as conseqüências almejadas na formação de um leitor consciente.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Parti...




Parti sem pelo menos uma última vez ver o teu rosto
Guardar aquele sorriso que sempre me pareceu um arco-íris
Ouvir tuas reclamações e ainda assim achar que isso era poesia

Parti sem tocar teus cabelos novamente....
Deixando de lado as lembranças dos risos, das briguinhas
Daquela comunhão que um dia chamei de "namoro de amigo"

Parti para não poder voltar tão cedo
Sem poder olhar pra trás e ver que tudo foi só um momento
Um sonho breve, um retrato antigo que se perdeu...

Parti e não entendi o que houve, mas compreendi que não podia ficar mais.
Como um anjo, almejo meu vôo para longe e de cima
logo abaixo das nuvens, apenas te observarei....

Sorri quando estiver feliz... Tentar acalentar quando estiver triste
Poder enxugar as lágrimas, mas, principalmente, dividir o mesmo sorriso
Quando olhar no horizonte e ver que tudo pode ser apenas
uma miragem do Sol...

O tempo...

Parti e deixei um pedaço de chão... fiquei sem apoio
mas se um dia eu puder ver que de alguma forma te fiz ser alguém melhor
do que pra mim já é....
Vou ser o amigo que sempre estará nos seus melhores sonhos
E o amor eterno dos abraços que solidificaram nossa amizade...

por tudo... eu sempre digo...

Te amo pelo que é.... Não pelo que foi... Nem pelo que será...
Basta dizer... Te amo!

Parti...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

NO DELICIOSO SABOR DO DESEJO PECAMINOSO


00h23 – É uma madrugada de domingo, sim, daquela que surge depois da meia-noite de sábado. O MP3 do carro está no volume médio e ouço "Chico Buarque Song's", da extinta banda paulistana Fellini enquanto Ana Paula (nome fictício, que eu não sou doido em escrever o verdadeiro, mesmo porque ela é um doce pessoa e não gostaria de perder a sua amizade) sorri e me conta do seu projeto viajar para São Paulo daqui alguns meses, visitar a família.

Sua voz é rouca e metida em câmera lenta, com uma fonética torpe deliciosa. Os densos cabelos escuros e longos esvoaçam com o vento que entra pela janela do carro enquanto corro pela avenida que segue pelo Espaço Alternativo, rumo ao aeroporto. No ar o inebriante perfume de jasmim impregna minhas narinas enquanto finjo que não devo me apaixonar por ela.

Uma hora antes eu a apanhei na casa da sua tia. Próximo ao centro da cidade, só ela estava acordada. Abriu a porta e me pediu pra entrar e aguardar enquanto lentamente se arrumaria. Estava envolta em uma toalha amarela (bem gema de ovo), com o cabelo amarrado e sua tez morena permeada por gotículas que refletiam flashes da iluminação do abajur sobre uma estante na sala de estar.

Ela se virou de uma vez então e abriu a toalha. Estava nua. Dei um sorriso sem graça e a penugem na minha nuca arrepiou. Os olhos castanhos claros dela brilharam e fui até a cozinha.

"Tem vinho?", perguntei. Ela deu uma gargalhada vibrante. "Sim, deixei meia garrafa aí na porta da geladeira. Tinto e seco viu!", ela me advertiu.

Ela abaixou então o tom da sua gargalhada, voltou a enrolar a toalha e se aproximou de mim. "Eu te amo, sabia?", me disse olhando com carinho.

"Eu também, muito. Se não fóssemos tão amigos eu juro que te carregava no colo..."

"... e me fazia mulher?", completou Paulinha com uma interrogação.

Não respondi, abri a geladeira e peguei o vinho. Fui até a prateleira pra pegar uma taça e ela se aproximou pelas minhas costas. Abraçou-me com candura e encostou a sua cabeça no meu ombro esquerdo, senti um calor inesperado que tomou conta do meu corpo e senti um tremor estranhíssimo na pélvis.

Pensei: "Não, por favor, não faça isso". Enchi o copo com o vinho e ela delicadamente virou o meu rosto em sua direção. Funguei um pouco, ajeitei o meu óculos e fiquei bobamente com o copo na mão, enquanto ela subia suas mãos em volta do meu pescoço, sua boca estava úmida, os olhos brilhantes.

"Como isso pode acontecer?", ela sussurrou olhando diretamente para os meus olhos.

Não consegui falar nada, deixei o copo de lado então e a abracei. Ela abriu levemente a boca e senti o perfume de menta. Sorri como uma criança e deixei meus lábios grudarem em sua boca. Ela abriu caminho entre os meus dentes e enfiou levemente a língua. Propositalmente ela deixou cair a toalha e sentir o seu corpo comprimido no meu.

Ela saiu da minha boca e desceu sua língua do lóbulo da minha orelha passando pelo meu pescoço e mordiscando com suavidade o meu queixo.

"Por que? O que está havendo?", questionou ela, com os olhos semi-cerrados e a boca ainda mais úmida e quente.

Minhas mãos passearam pela suas costas e cravei os meus dedos na sua cintura, a cada mordida ou carinho mais latente sobre o meu rosto, as minhas mãos buscavam desbravar terreno antes considerado proibido, afinal somos amigos. Ela suspirou alto e já estava tirando minha camisa.

"Não sei... Não sei.", falei com dificuldade já com a boca em um de seus seios e Paulinha se atracando sobre mim.

Ela então me puxou para cima, na direção de seu quarto, em um silêncio que me parecia sepulcral, dramático. Sentia tesão e medo. Prazer e choque. A dualidade de sentimentos que imprimia uma dor fina que se apossava do meu estômago. Era um incômodo que eu não sentia desde a adolescência. Sabia, que de alguma forma estaria fazendo uma merda completa.

Quando ela deitou sobre sua cama nua já senti que estaria fazendo algo errado. Ainda assim cobri minha consciência com um manto de pecado tentador, expandindo minha libido através de um desejo secreto e que sempre reprimi por respeito, mas agora a voz em minha cabeça ficava ditando um mantra: "Foda-se, foda-se, foda-se... e é muito foda!"

Ela estava linda, como sempre esteve desde o dia em que a conheci. Tirei a minha roupa e fiquei longos minutos olhando-a com um desejo sem par. Ela era só sorrisos e não precisou mais do que isso para que eu a cobrisse com beijos. Línguas que passeavam sobre a pele e mãos, dedos que manuseavam e amaciavam carne. Fluidos se espalhavam e desejos, instintos, que tiravam nossos sentidos.

Deitei sobre a cama e ela sentou sobre a minha pélvis, brincando com a minha expectativa e roçando sua vagina sobre a minha coxa esquerda e deslizando até meu pênis. A sua boca, umedecida pela língua saliente, brilhava com a luz do abajur. Os cabelos caíam sobre os ombros e eu segurava suas nádegas, massageando e apertando com ardor a carne macia. Ela ofegava e havia um incrível odor de sexo e almíscar no ambiente. Podia sentir os seus poros salientes, os pelos arrepiados enquanto se movimentava com cadência sobre o meu corpo. Eu correspondia seus movimentos introduzindo com vigor, estocando no tempo certo, como tivéssemos feito isso antes e não pela primeira vez.

Ela virou sobre a cama e me armei em cima dela. Beijei seus lábios e deslizei meu rosto pelo seu pescoço e fiz uma trama de toques deslizando minha língua entre os seios e depois passei de um mamilo a outro, mordiscando os bicos e sugando com delicadeza. Depois desci meu corpo e a língua, sinuosa, descia pela barriga. Comprimi meus lábios no umbigo e ela segurava minha cabeça e acariciava meus cabelos. Em dado momento ela empurrou minha cabeça pra baixo e senti seus pelos pubianos na minha boca. Cheiro, fluido, intensidade na minha respiração e ela ofegante.

Comprimi meus lábios em seus pequenos lábios e não resistindo a eletricidade que a libido me provocava suguei sua vagina como se chupasse uma laranja aberta. Colhendo o sumo, duelando minha língua com seu clitóris e ficando longos segundos, longos minutos, tempo longínquo o suficiente para que eu sentisse todo o tesão de seu corpo quente, febril, esfregando com gosto seu sexo na minha boca.

Em dado momento ela me pedi para cobri-la. Me posicionei de lado e ela encostou suas nádegas na minha pélvis. Levantei uma de suas pernas e ela colou no meu corpo de costa pra mim e a penetrei. Em um tempo sem qualquer noção de medir, ficamos colados e se movimentando. Tínhamos uma combinação exata do instinto que nos transformava em um só organismo lacivo, erótico e sexual. Respiração ofegante, quase dava para ouvir uma música que cadenciava nossos movimentos. Podia ver com tanto tesão o corpo dela moreno suado, a pele macia, porém com os músculos retesados nos pontos certo. Ela conseguia comprimir o meu pênis com os músculos vaginais em movimentos rotacionais e era tudo tão intenso, quente, escroto. Não havia muito o que falar, mas fazer, fazer... Foder com vontade, com gosto até o momento em que explodi e ela soltou um grito profundo. Pediu para que eu permanecesse dentro dela enquanto gozava. Eu podia vê-la comprimindo os lábios e mexendo somente a cintura num movimento lento que ia gradualmente parando.

Havia um brilho na troca de olhares enquanto ofegava. Olhou bem nos meus olhos e deu um sorriso lindo.

Desci do seu quarto respirando ofegante, abotoando a camisa e tentando desviar das estrelas que teimavam em ficar na minha frente. Tomei o copo de vinho, que já estava na temperatura ambiente.

Ela desceu depois vestida informalmente, de top, uma jaquetazinha e calça jeans. Trazia a tira-colo uma mochila pequena.

"E a sua tia?", perguntei. "Só agora que você se preocupa com isso? Ah, ela saiu com algumas amigas", justificou.

Balancei a cabeça rindo e ela fez charme com um sorriso maroto. "Vamos? Se não a gente chega atrasado", falei.

00h33 – Chegamos ao aeroporto e desliguei o aparelho. Ela saltou do carro e a acompanhei. O avião havia chegado há 10 minutos. Ela saiu na frente e o local estava bem cheio. Eu fiquei de longe vendo o seu jeito, aflita, procurando alguém. Ela então olhou pra mim e fez um sinal de positivo. Quase gritando: "Tá aqui."

Dei um aceno de satisfação e fiquei olhando.

Ela parece que o localizou. Correu até ele e o abraçou, João, que retribuiu o abraço e a beijou intensamente. Rodopiou com ela no saguão e pareciam realmente apaixonados.

Aproximei-me lentamente e ele me viu. Abriu um largo sorriso e veio me abraçar. "E aí Marcão!".

"Tudo bem primo, só faltava você chegar mesmo. Essa moça quase me mata de tédio só falando em você nesses dez dias que esteve fora, sabia?", brinquei com ele.

"Mas você cuidou do meu amorzinho direitinho né? A mãe dos meus filhos."

Nada disse, apenas o abracei afetuosamente e fiquei admirando o semblante de felicidade de Ana Paula, que parecia uma menina, olhando para nós dois. Continuo fingindo que eu não devo me apaixonar por ela.

Não sei por que, mas me senti uma referência cinematográfica naquele momento ao lembrar de “Jules e Jim – Uma mulher para Dois” (Jules et Jim/1962), de François Truffaut.


"Caibo em qualquer fantasia./ sou fetiche para o desejo/ mais louco./ fragmento meu corpo/ pra entrar no seu espaço de querer." – Nilza Menezes, "Princesas Desencantadas ou A história das mulheres que ousaram sonhar" – 1996.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Por um amor menos profundo que os sonhos buscam no pecado...


Em algum tempo perdido de 2002...


Descobri o lençol e com uma preguiça desmedida caminhei trôpego até a janela. Abri a cortina e senti as primeiras manhãs do sol no rosto. Meus olhos se irritaram e então compreendi que não estava só.

***

Senti a boca ressecada e me lembrei dos seus cabelos balançando em meu rosto, seguindo os movimentos do vento na beira do píer, defronte a um rio caudaloso e límpido.

Ela encostou sua cabeça no meu ombro, suspirou levemente o ar frio do final da tarde e senti cada pulsação sua como tivesse o dom de um ouvido hipersensível. Cada passo de sua dor que parecia finalmente não se conter mais. Ela fingiu um sorriso pra mim e retribui com um carinho no seu rosto, tirando os fios de cabelos da sua testa.

- Você já sentiu isso? – Perguntou.

- Senti o que?

- Essa sensação de que você tem todos os seus melhores amigos a sua volta, família e ainda assim se sentir só. – Lamentou.

- Sim, sempre... Mas...

- Isso não é ruim? Parece trazer uma melancolia que me leva a questionar se realmente ter amigos em minha volta, enquanto pareço idiota, eu os mereço.

- Olha, mas a vida é assim mesmo, são momentos, fases que passamos e que temos que vincular sentimentos contraditórios com aquilo que está ao nosso alcance. Eu penso que é porque você tem uma carência afetiva muito grande.

- Como assim contraditório? Não entendi.

- Esse paradoxo que você me passou, de estar cercada de gente que gosta de você e te faz sentir bem e, ainda assim, achar que falta algo mais que não a deixe tão só.

- Ah, nossa eu sou complicada...

- É não, é só humana demais... Eu acho que te falta um romance.

Ela sorriu pra mim e balançou a cabeça, voltando-a ao meu ombro.

- Não chego a tanto, mas um pouco de emoção mundana já resolveria o meu problema. – Disse, sem pudor nenhum, com as palavras firmes das quais só amigos de longa data se permitem segredar.

Eu olhei para ela e depois para o pôr-do-sol que criava à nossa frente, dei uma risada espontânea e ela continuou olhando o rio, compenetrada.

- Acredite em mim quando eu digo que você merece mais do que isso, vá por mim.

- Eu sei... Falei por falar, só isso.

Mais tarde estávamos no bar tomando algumas tequilas e ela se engraçou com um playboy, bem artificial. Ele pareceu se sentir atraído por ela. Correspondeu o seu sorriso e deu uma piscadela. Típico do idiota que a gente encontra aos montes nesses bares da moda. Eu olhava pra ela com certa incredulidade, mas ainda assim ela me olhava com um ar transtornado.

- Por que não? – Me questionou se referindo ao "almofadinha".

- Realmente, por que não. É bonitão, veste bem, cabelo da moda, ar blasé, deve cheirar pra caralho e tem um carro zerado estacionado em algum canto aí fora.

- Você é um idiota sabia, reduz meus flertes a observações capiciosas.

- Opa, desculpe, não tá mais aqui quem falou.

Tomei uma última dose e a vi saindo do meu ninho protetor indo direto para as garras do gavião. Eram só sorrisos, os dois. De longe ela me acenou com um polegar positivo. Algo do tipo para me avisar que ele era um cara legal.

"Bom pra ela, melhor pra ele." – Pensei.

Paguei a conta e tentei acenar um adeus pra ela. Mas me ignorou por completo, estava fumando o mesmo cigarro que ele. Fui embora.

Cheguei em casa e todos já estavam dormindo, passei no quarto dos meus filhos e os dois estavam enrolados nos lençóis, cada um em sua cama e o meu mais novo abraçado com um cachorro de pelúcia que tinha quase o seu tamanho. Vislumbrei-os por alguns minutos e me retirei para o meu quarto.

Quando estava tirando a camisa o meu celular tocou, era ela. Do outro lado da linha um soluço curto e depois uma voz embargada me pedia socorro.

Peguei o carro novamente e voltei ao bar. Ela estava na frente me esperando, com os braços cruzados, caracterizando um desamparo comovente. Desci do carro e a abracei.

- O que houve? Quase não entendi o que você falou no telefone.

Ela nada disse, só pediu para levá-la embora daquele local. Eu tinha certeza que o playboy tinha aprontado alguma com ela, mas não me deixei levar pela piedade, se ela procurava algo com ele e se deu mal, não foi a primeira vez e nem foi por falta de aviso.

No carro, já seguindo até sua casa, ela me pediu que levasse pra minha, pois não queria dormir sozinha. Achei estranho, mas não a questionei. Ela então disse:

- Ele não fez nada, eu é que não entendo minha cabeça e me vejo sempre fazendo alguma merda. Percebi que posso ser um pouco melhor comigo mesma e acho que fui grossa com você.

Passei minha mão pelo seu rosto com um carinho de pluma, medindo o gesto para não parecer tão expansivo e sorri.

Levei-a até minha casa, entramos sorrateiramente no meu quarto e liguei o ar-condicionado. Ela então sentou na minha cama e meio sem graça disse que estava com sono, mas se ela quisesse conversar, bom "tudo bem".

- Eu também quero dormir. Faz o seguinte, aja como se eu não tivesse aqui e faz tudo naturalmente.

- Ah tá, fácil dizer isso pra você que é mulher, mas eu sou homem, a coisa é um pouco mais complicada.

Ela riu baixinho e me olhou com um ar de gaiata.

- Tá com medo de mim? De que eu te seduza?

Olhamos um para a cara do outro e começamos a rir, tentando conter o barulho. "Que adorável amiga maluca é essa que eu arranjei?".

- Tem um pijama meu aí em cima da cômoda, veste ele que tá limpinho e vamos dormir. Você não existe, sabia? – Retruquei.

Ela foi até o banheiro e se trocou, quando voltou eu já estava arrumando alguns travesseiros no chão e um cobertor.

- Eu vou dormir aí no chão contigo? – Ironizou.

- Muito engraçada, muito mesmo. Não, eu é que vou dormir aqui embaixo.

- Esquece isso, vamos dormir na mesma cama, eu preciso de um amigo, de um ombro largo e muito amigo.

Nada respondi, ri da sua inflexão ao fazer a proposta e deitei, logo ela deitou do meu lado e virou-se pra mim.

- E aí, nós já nos conhecemos? – Brincou.

- Não, mas podemos dar um jeito nisso.

- Como?

Eu beijei sua testa e disse: "Boa noite!"

Ela beijou o meu rosto e retribuiu o "boa noite", em seguida apaguei a luz do quarto e me virei. Ela dormiu logo e aproveitei o momento para ligar para sua casa. Falei com o seu irmão, expliquei que ela estava comigo e como já éramos amigos ficou tudo resolvido.

Era uma situação estranha, mas eu sabia dos problemas emocionais que ela passava e não poderia abandoná-la, ainda mais depois de ter saído da clínica de desintoxicação com menos de dois dias. Antes de dormir ainda fiquei lhe olhando com admiração, era muito bonita, mas ainda assim precisava defenestrar alguns fantasmas internos para viver melhor. Eu a amava muito.

***

Após o despertar, ela já estava pronta, me olhando da porta do banheiro com um sorriso matreiro no rosto.

- Dormiu bem? – Perguntei.

- Foi o melhor sono que tive em muito tempo. Obrigada, de coração.

Fui até o seu encontro e abracei com carinho. Beijei a sua testa e depois a levei até a porta, disse que havia chamado um táxi pelo celular.

Antes de sair combinei de passar na sua casa mais tarde e ela disse então que me aguardaria, passaria o dia visitando os amigos que não via há mais de seis meses.

- Ei Marcos – me falou antes de entrar no carro – eu estou limpa de verdade viu, como eu prometi à você.

- Eu sei, eu sei..

E acenei, lhe dando um tchau.

***

Um ano depois minha amiga morreria num acidente automobilístico, com outros dois amigos de faculdade, em Cuiabá (MT), sua cidade natal. Ela voltava de uma festa e estava no banco de trás do carro.

+ Para Carla Liza Moretti (1977 – 2003)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Amigos, canções e histórias - Que se foda!


No começo do ano de 2008 encontrei minha velha camisa preta com a estampa de Joey Ramone, ela estava dentro de um baú cheio de revista velhas da Cinemin e Bizz. Era uma memorabília que eu havia guardado a sete chaves e pensei que havia perdido.

A lembrança era clara quando encontrei ao lado dela uma velha fita K-7 com algumas gravações. Não lembrava mais disso, mas tinha uma inscrição na capa. "Soundrock ao vivo - Fábio e Marcos". Era uma coletânea que eu e o meu amigo Fábio tínhamos feito com algumas canções que gravamos para um projeto de uma banda de rock.

Em 1989, Fábio um dia foi lá em casa com o violão e um gravador de dois canais. Eu tinha 19 anos e ele 18 e mostrei algumas coisas que estava compondo com um velho ukelele deixado por um tio maluco. Eram melodias simples e que havia permitido uma sincope bruta do hardcore, ainda que mais lento do que o usual, já que estava encharcado (para não dizer alucinado) de Syd Barret e o seu álbum Madcap Laughs, e, ainda mais com "Loki", de Arnaldo Baptista, e achei por bem fazer uma fusão mais digesta.

Ele achou estranho e puxou a sua versão hardrock para uma música de Geraldo Azevedo, a letra era bacana e entendi o que ela queria dizer. Se eu tinha a melodia, faltava uma letra que casasse com a métrica da canção. Puxei minha pasta azul de anotações e mostrei pra ele alguns poemas que havia escrito, alguns em inglês, fruto da minha inserção linguística no Yázigi (depois abandonei o curso e fui tentar o russo, me lasquei também, enfim... Outra história).

Ele se amarrou em duas letras, "Anne and The Wolf", uma narrativa que havia escrito baseado em um filme (Ana e os lobos, obviamente) do diretor espanhol Carlos Saura, e "Underground", minha homenagem as letras sadomasô de Lou Reed - da banda The Velvet Underground. Ele trouxe uma composição pronta e acrescentou alguns trechos do que eu havia composto com o ukelele. A primeira versão de "Anne and The Wolf", que escrevi em inglês, saiu bem tosca. Desconstrui alguns versos e encaixei duas linhas finais de um Haikai curto. Tentamos cinco vezes adaptar a métrica da letra a canção e valorizar o refrão. A batida era muito rápida e ainda não havíamos chegado a um denominador comum.

Então eu pensei em baixar um tom e desacelerar a batida. O que antes era um rock vivo, estilo Husker Dü, virou uma balada folk com pitadas de hard. Deu certo. Combinamos a voz e ensaiamos seis vezes. Tínhamos um canal para o microfone e outro para o violão de 12 cordas. Já havíamos revistos os compassos e parecia tudo certo.

Eu tinha uma fita K-7 cromo preta e coloquei no gravador. Tranquei o quarto e no absoluto silêncio gravamos em um único take "Anne and the Wolf". Ele encaixou um solo harmonioso no final. Repassamos a fita e tentamos gravar outro take. Porém, o primeiro foi o melhor. Em três horas tínhamos uma música pronta.

Quase cinco da tarde passamos para a próxima música. "Underground", apesar do título em inglês havia escrito em português mesmo, e era uma história curta de uma menina proletariada que era muito inteligente, mas se via engolida pela mediocridade reinante de sua escola e casa, resolve cair na noite e se envolve em uma experiência sado-masoquista com uma amiga rebelde. Mostrei alguns riffs em staccato para o Fábio e ele deu um estalo e disse que tinha uma melodia bacana para integrar. Mezzo rockabilly, mezzo psicodélico acrescentei um verso final longo (quase um diálogo) - "Eu vejo você se desmanchar em cinzas nesse cogumelo de tormento chamado hormônio". Ele riu muito desse verso final, mas conseguiu ajustá-lo na métrica da música.

Subimos um tom e o vocal do Fábio ficou quase rouco, rockabilly com intensidade de um blues, se tivéssemos o piano de Arnaldo Baptista seria a canção perfeita. Achei que faltava um detalhe bacana no final da música, o solo final poderia ter um bottleneck slide. Como o violão do Fábio era de cordas de aço, a minha idéia seria perfeita. Peguei um frasco vazio de Matrinil. Ele tava tão sintonizado com o meu pensamento que ele deslizou com perfeição o bottleneck slide improvisado sobre as cordas mais graves. Tentamos ainda com um copo de vidro, mas ficou estranho.

Ele tocou quatro, cinco, seis vezes a parte do arranjo. Depois recitei a letra e por fim cantei, fundindo com a melodia. Emulamos o solo final com um dedilhado emocionante e "Underground" ficou pronta.

Quase sete horas da noite e gravamos o resultado. Usamos um truque nessa canção. Gravei a parte de dedilhado do violão separado dos solos em uma fita K-7 extra. Peguei um outro gravador e sincronizamos na mesma batida, com o resultado dava para ter um violão base e outro solo ao mesmo tempo, em um mesmo canal. Tudo improvisado, mas para dois jovens pretensos músicos de garagem era pura revolução. Com essa síndrome de Brian Epstein, ensaiamos duas vezes mais com o truque de gravação e deu certo. Gravamos dois takes distintos: um mais puro, quase cristalino, com voz suave sobre os violões, e outro mais cru e rocker, com voz subindo um tom em cima dos arranjos. Sinceramente, eu gostei mais segunda versão e ele da primeira. Mas dali nasceram as nossas duas melhores canções.

Nos dias posteriores fizemos mais quatro, mas eu achei que ficaram bem abaixo da média - como se pudéssemos medir o valor delas sendo que só nós tivemos acessos à elas. Um blues com influência de Pink Floyd - eu podia ouvir o teclado de Rick Wright fazendo o acompanhamento em meus pensamentos. As outras três canções eram baladas, mas já tinha perdido o ímpeto criativo e lembro que chegamos a colocar um instrumento de sopro, uma flauta doce que o irmão dele tocou.

A fita ficou gravada e tiramos apenas uma cópia, eu fiquei com a "fita master". Por força do destino ou da situação, Fábio entrou no exército, eu comecei a fazer um cursinho pré-vestibular e acabei me apaixonando por literatura russa - com isso passei a escrever contos e peças de teatro (encontrei um original desses escritos e até que me surpreendi. Não era de todo ruim, mas faltava maturidade). Com o passar do tempo, reuníamos a nossa turma de violão e muito raramente cantávamos uma ou duas canções nossas. Nossos amigos não entendiam e pediam covers. "Foda-se" ele dizia e acabava não tocando mais nada.

A camisa com a estampa de Joey Ramone era uma presente que eu havia me dado quando tinha feito 16 anos. Achava que para quem sabia apenas dois acordes de violão o mundo não valia a pena para receber minhas curtas e rebeldes canções. Os Ramones me ensinaram que isso era possível e, de maneira absoluta, ainda acreditar que os losers eram os verdadeiros mantenedores da cultura pop nesse mundo sem vergonha.

Por causa dos Ramones me transformei em músico de garagem e quartinho. Isolado do mundo, com meus livros, telas, gibis, centenas de discos de vinil, dezenas de fitas K-7.

Tinha ainda a pretensão de ser um poeta romântico, dos amores fracassados, mas que sabia, sem por e nem onde que eram experiências minhas e ninguém tinha a ver com isso. Gostava de mim quem quisesse. O Fábio tinha o mesmo pensamento, só que musicalmente ele era mais regionalista, se consumia Geraldo Azevedo e Zé Ramalho na mesma proporção com que ouvia Van Morrison, Pink Floyd e Iron Maiden, eu fixava minha atenção sonora no punk rock e misturava Led Zeppelin, Deep Purple com U2 e The Smiths. O nosso prato musical comum era Ramones. Por isso a camisa tinha o significado importante pra mim.

Através dela me tornei amigo de Fábio. "Você gosta também?"

No final das contas quando íamos jogar sinuca com os nossos amigos em comum, altas madrugadas, depois de termos deixado nossas namoradas em suas devidas casas, ele pegava o violão, que sempre levava dentro do Fusca que tinha, e arriscávamos a cantar as canções que havíamos feito. Nunca se tornaram hits ou polivalentes do circuito alternativo, afinal aquela fita estivera guardada por anos e ouvir de novo, depois de tanto foi uma experiência e tanto. Nossos amigos, por fim, creditaram um talento incomum à dupla, ainda que eles não entendessem que estávamos querendo reinventar a música ao nosso modo, com nossas influências e dar algo novo. Foi uma experiência de dois amigos que amam música.

Hoje eu sou jornalista e o Fábio veterinário. Eu do interior de São Paulo e ele de Recife. Eu trabalho em Porto Velho e ele em Brasília. Há mais de sete anos que não nos vemos, mas quando conversamos no MSN ele sempre lembra das velhas canções que compomos. Ficaram em nossas memórias. A fita master, por fim, se perdeu ano passado quando o mofo comeu quase toda o rolo de fita e o som ficou inaudível.

Numa noite uma conhecida de uma amiga nossa em comum encontrou o meu caderno de anotações, leu, revirou os olhinhos, coçou o queixo e deixou de lado. O Fábio a encontrou dias depois na Discolândia, e ela comentou com ele que não gostava de gente com problema de amores mal resolvidos, pois sempre usava o que escrevia como forma de escape. Ele perguntou de quem ela falava, e ela disse o meu nome. Ele me contando que riu muito do que ela tinha falado. "Você conhece a vida dele?"
Ela disse que só nas reuniões do grupo de amigos, mas não tinha se aprofundado em conversar comigo.
Ele: "Então você não o conhece mesmo".
Ela: "Eu vi aquele caderno dele cheio de anotações e li. Como eu sou culta também, peguei de curiosa..."
Ele: "Pois é, agiu errado e se você tivesse prestado atenção, iria ler na primeira página: 'Contos e letras', ele escreve aquilo que deve ser escrito como forma de ficção, para provocar. Você caiu direitinho. "
Ela: "É a minha opinião e é o que eu acho".
Ele: "Bom, de amor mal resolvido ele não tem nada. Namora, fez um livro pra namorada e pelo que sei os dois estão muito bem".
Aí ela ficou olhando séria pra ele. Ele começou a rir.
Ela: "Que se foda!"
Ele me contou isso e eu lembrei da música "Underground". Tem um trecho da música que dizia: "Ela tenta compreender seu mundinho desumano/ Não existe razão baby/ Pois ser inteligente é usar as arma certas/ Com aquele cara mundano".
Fábio disse que cantarolou a música pra ela e depois saiu. Foi engraçado.
A sintonia de nós dois ainda era uma constante em vista das composições e do entrosamento musical.
Só lamento que desse resultado musical só restou lembranças e histórias, amigos que passaram, canções que nunca mais cantaremos e as eternas influências que solidificaram nossa amizade.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Poemeto I

Não quis entender a tua tristeza
mas foi o suficiente para te amparar

Não ri com suas incertezas
Porém não esperei que contasse segredos

Deixou um bilhete no meu bolso
com a marca do teu batom favorito
Não quis perceber o quanto estava adiantada
A solidão que me mostrou...

Abaixou a cabeça e nada disse quando respondi teu bilhete:
"Porque nem tudo que você me diz com os olhos
representa o reinício de nosso amor.
Tarda, mas hoje não estou mais só..."