quarta-feira, 17 de março de 2010

Ir...





EU - Oi, meu nome é Marcos.

TODOS - Oi Marcos, seja bem-vindo!

(Em seguida um breve silêncio constrangedor)

(Eu mexo os braços e abaixo a cabeça e depois fico pensativo esperando uma reação a mais... )

(Olho para o monitor e ele me dá um sorriso de canto)

MONITOR - Seja bem-vindo Marcos. Qual o seu motivo de vir até aqui o "Recanto da Tristeza"?

(Engasgo um pouco e as lembranças me vem rapidamente. Palavras duras, alguma injustas demais e outras sensatas. Sentia um gosto de carne crua na boca e a intensidade de um sufocamento causada por uma dor repreendida no peito).

EU - Nem eu sei de verdade... Eu... Eu passei em frente e vi o local aberto. Senti uma paz incrível e resolvi entrar...

(Ele me olha com atenção)

MONITOR - Mas isso é muito pouco para alguém se dispor a entrar aqui e sentar junto a um grupo de estranhos e ainda sentir uma paz.

(Senti um aperto na garganta, mas tudo parecia tão fácil de falar. A dor é sentida e recente. Crua, aberta e exposta)

EU - Parece pouco e talvez até seja. Eu... eu não sei...

(Todos me olham e nada dizem. Pareço um estranho sem rumo, sem chão... Um ninguém mesmo)

MONITOR - Por que você apenas não fala o que acontece. Seja franco e tudo se resolverá.

(Abaixei a cabeça e senti um aperto no peito. Estava triste e queria não poder me sentir o mais filho da puta dos miseráveis. Um ridículo da ocasião... Nem eu sei mais o que poderia ser... )

(Suspirei, olhei para o fundo da sala e vi o que parecia ser um rosto conhecido. Mas não era, apenas um flash de deja vu de alguém que amei. Não importa mais mesmo).

(Parecia poder ouvir um som vindo de algum lugar, como uma música suave, mas quase imperceptível. Podia jurar que estava só, mesmo na companhia daquelas pessoas que me olhavam atentamente).

EU - (Reticente) Sei que cometi muitos erros na minha vida e tentei da melhor forma possível tentar consertar o que parecia irremediável. Não sei se me entenderiam, pois é difícil expressar uma situação que eu criei e não soube conduzir e ainda assim, saber que parte da culpa não foi só minha. Mas eu sinto uma dor tão latente... Um vazio que chega tomando conta de um espaço que era reservado para uma pessoa.

(Abaixo a cabeça e olho para minhas mãos. Por um breve momento medito, coisa rápida)

EU - Hoje eu perdi um pedaço do meu coração, não saberia explicar até que ponto isso pode afetar o meu futuro ou o meu conceito de amizade, mas me fez pensar que preciso dar ainda mais atenção as pessoas que amo para que elas compreendam que eu sou tão falho quanto elas. Tenho razões obscuras que até eu mesmo não compreendo, por vezes penso que vivo em um mundo a parte e que deveria me ater mais ao chão, ser mais frio, objetivo e menos onírico.

(Tenho vontade de encostar a cabeça no ombro de alguém)

EU - ... Não existe razão coerente para algumas falhas minhas, mas eu sou obrigado a entender as falhas das pessoas e ir além da compreensão, pois não quero magoá-las. Mas é errado da minha parte. Seu eu posso ouvir as minhas falhas pelos outros, porque não posso apontar as delas? Qual seria a coerência da relação entre duas pessoas se elas não souberem lidar com erros e acertos e assim tentar com um diálogo mais franco descobrir, ainda que tarde, as verdadeiras razões dos erros e, talvez, tentar redimir ou consertá-los? Eu não sei como lidar com isso? Ou seria imaturo em certo ponto por acreditar que tudo pode ser resolvido depois. Mas é difícil compreender que eu tenho uma vida tão complicada, corrida, não dizendo que sou melhor ou pior que qualquer um que passe pelos mesmos problemas. Eu queria poder ter a solução para tudo e ajudar não só ao outros, mas a mim. Fui chamado de egoísta e até prepotente...

(Levanto os olhos e vejo que tudo parece tão sem sentido, mesmo com toda aquela gente me olhando... A paz me parece distante)

EU - Não queria magoar as pessoas com as minhas ações ou falta delas talvez, mas é um mundo tão complicado. Você tem receio de se machucar por se abrir demais para uma pessoa. Eu tenho medo de me machucar por me expor demais a uma pessoa que gosto além do necessário, mas é uma tarefa tão difícil explicitar isso sem parecer que estou me fazendo de vítima. As razões parecem limitadas, mas dentro do que posso expressar elas são como as linhas do universo, infinitas. Não saberia dizer se conseguiria vê-la no inverno, pois rompemos no verão. Olho para vocês e vejo que existe complacência de pena, uma forma saturada de me olhar com candura, mas não deixando se ater a figura patética que sou. Não saberia dizer se essa paz que encontrei no início seria a mesma que busco no final, mas para aquietar o que passa comigo, com o meu coração é o suficiente para fazer com que eu durma mais uma noite e viva mais um dia.

(A voz embarga)

(Silêncio)

(O monitor me encara e balança a cabeça positivamente, de forma lenta)

EU - Sinto que preciso ir embora. Não olhar para trás e deixar o que de bonito aconteceu apenas como uma lembrança, uma boa lembrança. Queria poder chorar mais, porém já fiz o suficiente e não vejo mais motivo para prosseguir nessa luta de conquista eterna por paz que deve vir com o tempo e ocorrerá naturalmente. Não tenho mais a impaciência da juventude e não pertenço aos laços afetivos dessa geração, pois ela já me cortou e apontou que o caminho que sigo é o errado. A paz que busco está em outra direção. Queria poder encarar a pessoa que transformou o meu mundo em poucos meses e dizer que tudo hoje é uma lembrança. Mas não tem como, pois tudo já acabou, da mesma forma que começou...

MONITOR - E você se conforma com isso?

(Eu me assusto com sua pergunta)

EU - Sim... Pois tudo foi dito de forma dura e direta, com toda a sinceridade. Fiz o que pude e se errei, assim como ela errou também, poderia deixar tudo como uma "desculpa" e começar de novo. Mas não tenho mais estrutura emocional para tanto.

MONITOR - Você prefere que tudo termine assim?

EU- Se foi uma decisão dela... E se só por causa dela fiz coisas que nunca imaginei fazer ou contar, eu me responsabilizo pela decisão que ela tomou. Vou respeitar e esquecer, dentro do que posso das escolhas erradas que fizemos.

MONITOR - Você não precisa ir e deixar que tudo termine assim, sabia?

EU - Eu sei. Mas é a decisão mais acertada. Temos vidas diferentes, somos de gerações diferentes e vivi coisas que ela não viveu. Ela não saberia compreender as razões que tomei como forma de proteção e eu não saberia conduzir um stress emocional desgastante que poderia acabar tudo da forma mais errada possível. Ela foi a certa na história e eu o idiota, o mais completo idiota.

(Todos se entreolham e depois me olham. O monitor sorri e se levanta da sua cadeira)

(Eu estou de pé, olhando a todos com receio, mas certo de que falei o que estava comigo e o que deveria ser dito, ainda que sentisse um gosto de tristeza no palato)

MONITOR - Você tem a noção do que pode acontecer pela sua decisão? Pelo que falou parece que sim, mas não é a mais acertada, mas é sua e é de sua responsabilidade, o que posso te falar Marcos é que as consequências dessa decisão perdurará por tempos e servirá como uma experiência, se para o bem ou mal só o tempo dirá. Mas te digo, aproveite esses momentos e reflita sobre os erros que cometeu e os possíveis acertos, pese tudo isso e não deixe de viver, conhecer mais pessoas, formalizar amigos e respeitá-los, mas, acima de tudo, seja sempre você mesmo.

EU - Tento viver assim... Mas não sou perfeito... Obrigado por tudo.

(Todas as pessoas se levantam... Batem palma e sentam novamente).

(Quero chorar, mas não consigo mais... Senti um luz brilhar e um vento frito bater em mim. Houve uma paz momentânea e sabia que era hora de ir...)

(Sorri com gosto, deixei minha vida de três meses passados fluir como um filme breve na minha memória e lembrei dos meus melhores momentos. Pus o capuz sobre a cabeça acenei com um tchau à todos)

(O monitor deu um sorriso e entendi que havia feito o certo)

(Abri a porta e estava chovendo. Era noite. Mas, não importava... Eu poderia ir com a certeza de que nunca mais estaria só. Não olhei para trás e segui na noite... Com a pisada forte de que amanhã é mais um dia a ser vivido, sorrindo ou não).

FIM

segunda-feira, 15 de março de 2010

formspring.me

Ask me anything http://formspring.me/marcos35anos

Repassando.... "Relacionamentos"

Não costumo repassar as muitas mensagens que recebo no meu Hotmail ou Gmail, até mesmo porque eu acho que já está sendo passado para uma centena de pessoas via e-mail e não vejo muita praticidade em querer fazer o mesmo utilizando algo meu, ainda mais pessoal que é o blog. Mas tem certas mensagens que parecem surgir do nada e servem como um alerta importante. Experiência de vida, aquelas palavras que fazem sentido quando você sente ou sentiu na pele o que está descrito. Sim, são palavras apenas... Mas fazem todo o sentido do mundo para quem, no mínimo, com senso de ridículo da vida e sensibilidade pode entender o seu conteúdo, simples, objetivo e plural. Vivo de emoção, ainda que com o passar da idade a razão é o que me conta mais, por isso mesmo, repasso, a quem possa interessar, o texto que recebi na manhã deste domingo (14) de uma amiga:


Sempre acho que namoro, casamento, romance, tem começo, meio e fim. Como tudo na vida.

Detesto quando escuto aquela conversa:
- Ah, terminei o namoro...
- Nossa, estavam juntos há tanto tempo...
- Cinco anos.... que pena... acabou...
- é... não deu certo...

Claro que deu! Deu certo durante cinco anos, só que acabou. E o bom da vida, é que você pode ter vários amores.

Não acredito em pessoas que se complementam. Acredito em pessoas que se somam.
Às vezes você não consegue nem dar cem por cento de você para você mesmo, como cobrar cem por cento do outro?
E não temos essa coisa completa.

Às vezes ela é fiel, mas é devagar na cama.
Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel.
Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador.
Às vezes ela é muito bonita, mas não é sensível.
Tudo junto, não vamos encontrar.

Perceba qual o aspecto mais importante para você e invista nele.
Pele é um bicho traiçoeiro. Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai com mamãe mais básico que é uma delícia.

E às vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona...
Acho que o beijo é importante... e se o beijo bate... se joga... se não bate... mais um Martini, por favor... e vá dar uma volta.

Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra. O outro tem o direito de não te querer.

Não brigue, não ligue, não dê pití. Se a pessoa tá com dúvidas, problema dela, cabe a você esperar... ou não.

Existe gente que precisa da ausência para querer a presença.
O ser humano não é absoluto.

Ele titubeia, tem dúvidas e medos, mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta. Nada de drama.
Que graça tem alguém do seu lado sob pressão?

O legal é alguém que está com você, só por você. E vice-versa. Não fique com alguém por pena. Ou por medo da solidão. Nascemos sós. Morremos sós.

Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado. E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento.

Tem gente que pula de um romance para o outro. Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia?

Gostar dói. Muitas vezes você vai sentir raiva, ciúmes, ódio, frustração... Faz parte. Você convive com outro ser, um outro mundo, um outro universo.

E nem sempre as coisas são como você gostaria que fosse... A pior coisa é gente que tem medo de se envolver.

Se alguém vier com este papo, corra, afinal você não é terapeuta. Se não quer se envolver, namore uma planta. É mais previsível.

Na vida e no amor, não temos garantias.
Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar. Nem todo beijo é para romancear.
E nem todo sexo bom é para descartar... ou se apaixonar... ou se culpar...

Enfim...quem disse que ser adulto é fácil ????

(
Arnaldo Jabor)

sábado, 13 de março de 2010

Um até breve...

Por um ano tive experiências maravilhosas no uso do Twitter. Conheci gente muito boa, pessoas motivadas em conhecer e aprender. Deixe me seduzir pela ferramenta e formalizei amizades concretas com gente produtiva e que fazia a diferença no meio. Não me ative as diferenças comuns entre elas no que diz respeito a convivência via essa rede social. Até mesmo porque diferenças devem ser resolvidas, à contento, ao vivo, Twitter são para poucos que entendem o seu uso como expositor de interesses quase coletivos e a formalização de amizades.

Aprendi muito com as pessoas e avatares. Cruzei a faixa dos 10.000 tweets com aquilo que sempre acreditei e perpetuei. Porém, uma vez Domingues Jr. postou. "Intimidade demais causa falta de respeito", um ditado inglês. E sei o quanto isso é verdade.

Diante de algumas situações inesperadas e por gostar demais das pessoas que sigo, esgotei. Preciso de um tempo para pensar e reavaliar conceitos. Parece tolice, mas não é. Twitter é uma ferramenta ainda em perspectiva de conhecimento e democraticamente ímpar. Digo que o Twitter é seu e você faz dele o que bem entender, mas prego que existe uma linha coerente de respeito e ética.

Em vista das amizades que formei, da confiança que me foi prestada, do conhecimento que adquiri e do respeito a que me foi delegado neste curto espaço de tempo é hora de dizer um até breve.

Para aqueles que confiaram em mim e na minha amizade digo que estarei atualizando com mais constância o meu blog e os contatos serão permanecidos no Facebook, no MSN, Orkut e Gtalk. Não dou unfollow e nem block em ninguém, pois ainda acredito nas pessoas e amigos. Não desativarei o meu Twitter, mas ele ficará inoperante por um bom tempo. Utilizarei somente o institucional da minha empresa (Rondoniaovivo) para atualização de links das matérias.

Um abraço nos rapazes e amigos, um beijo nas meninas e amigas. Nada é definitivo, mas breve. Portanto juízo. Adoro vocês tuiteiros.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Quase perfeição das leituras de sempre



“(...) Era verão e tudo estava fresco, brilhante e cheio de vida. Havia uma cantiga em cada coração e, se o coração tinha poucos anos, essa cantiga vinha até os lábios. Tosos se mostravam contentes e andavam com desembaraço. As alfarrobeiras estavam em flor e o perfume dessas flores enchia o ar. O monte Cardiff, a cavaleiro da aldeia, estava coberto de vegetais e ficava precisamente à distância necessária para tomar o aspecto de uma terra de promissão convidativa, cheia de sonhos e tranqüilidade.” –
Twain, Mark – “As Aventuras de Tom Sawyer”, Cap. II, pág. 17 – Editora Nova Cultural, 2002.

Esse é pra mim um dos mais lindos parágrafos já escritos para um livro. É utópico, lírico e paisagisticamente perfeito. Dá para respirar o ar do campo na detalhada, mas sutil descrição do seu autor. Isso porque Twain descrevia a região de onde viera, onde passara a infância e de onde, de certa forma – sem generalizar – todos possuem suas melhores recordações.

Por que começar o texto com ele?

Só para dar um modelo de um tempo em que as situações da vida eram amaciadas através da visão poética. Isso quando a poesia, sem sua vertente mais lírica, fazia sentido quase nostálgico.
No amargor dos tempos vindouros, o progresso cuidou para que esse sentido de literatura esteja transformado em clássico, em referencial lúdico para gerações de leitores, sem ater no real sentido do significado daquelas palavras. Eu poderia citar um grande número de escritores tão absolutos quanto obrigatórios nesse sentido, até mesmo aqueles marginalizados pelos mais puristas – como Henry Miller, Charles Bukowski e J. D. Salinger -, mas dentro de seu tempo, na sua época e se ateram à sua visão crítica e, porque não, vivência particular e instransponível ao nosso consciente sem mostrar a essência na crueza de suas linhas, ora realista, oportuna e por vezes lúdica dentro de sua concepção pessoal.

Do público que queria atingir, essa poesia que surge na descrição é nostalgia, é beleza gráfica dos sentidos que movem a história de suas vidas.

Se hoje a comunhão de atingir um público maior de leitores se encontra no impacto de mostrar o grafismo de sequências pseudodramáticas que se transformaram em lugar comum pela urgência de fazer uma leitura rápida, do tipo fast-food, basta comprovar vendo as listas de best-sellers, onde a capitalização de esforço literário se encontra em literatura de aspecto pop – sem a subjetividade que a palavra exige – onde o recurso de pensar já está mastigado nas linhas, não exige muito o pensamento reflexivo.

Não é todo ruim, pois de alguma forma isso incentiva a leitura para uma geração onde tudo é rápido, do moderado ao maniqueísta e processado em gigabytes. Encontrar jovens lendo textos longo, histórias com um certo grau de complexidade (nem tanto) remete a uma esperança de que nem tudo pode estar perdido.

Mas vale lembrar que o autor é a memória do seu tempo, quando no ápice de sua criatividade pode oferecer o que melhor sabia fazer. Eu creio que a literatura deu esse direito, permitiu aos seus asseclas de letras o dom de nos fazer pensar, buscar o além do que até então parecia ser absoluto.

“(...)Estamos no outono do meu segundo ano em Paris. Mandara-me para cá por uma razão que ainda não consegui compreender. Não tenho dinheiro, nem recursos, nem esperanças. Sou o mais feliz dos homens vivos. Há um ano, há seis meses, eu pensava ser um artista. Não penso mais nisso. Eu sou. Tudo quanto era literatura se desprendeu de mim. Não há mais livros a escrever, graças à Deus.” – Miller, Henry – “Trópico de Câncer”, págs. 07 e 08. Editora Nova Cultural, SP/1987.

A sobriedade dessas linhas de Miller permite pensar que quando não há nada mais para se escrever ou transmitir, é melhor parar. É verdade, a coerência de se fazer vivo, da busca da imortalidade está na transmissão de pensamento, no organizar das idéias, fabular e transformar em material de acesso às massas, ou a quem possa – e de direito – interessar. Livros possuem essa magia de quase perfeição. Ler é sagrado, como vincular a palavra ao maior livro cristão de todos os tempos, a Bíblia.

A razão de escrever é mostrar vida através do pensamento, relatar experiências ou apenas uma reflexão do passado através de romances, contos e poesia. Essa é uma visão purista ligada ao cerne da criação dos clássicos através dos tempos. Vejo nesses livros, em cada um deles que li um pedaço do seu autor descrito e escrevo isso em referência àqueles autores que tudo dizem numa única linha de frase ou, ainda, transbordam de lirismo uma passagem tão banal quanto a descrição de um lugar, de um ambiente que nos parece familiar apenas pela leitura das palavras certas, na sua composição ortográfica perfeita. Por isso gosto do parágrafo de abertura desse texto, citando Mark Twain. É simples, objetivo, claro e muito bonito.

Se a banalização de sentimentos que hoje pululam as leituras mais radicais de nosso tempo, movidos por feitiçarias, serial killers, corrupção de menores, violência, vampiros e lobisomens, na busca da catarse do leitor e surgem efeito no sucesso literário, os livros de auto-ajuda se transformaram em referência da busca do sentido da vida, na adequação ideológica que é ao querer se adaptar ao capitalismo irreparável da vida real e no labirinto fatal que é o neoliberalismo.

Parece salada mista, mas não é, pense que a forma de espairecer a mente, dar um refresco ao corre-corre da vida cotidiana pode muito bem estar atrelada na leitura de um bom livro, mas quem determina essa literatura é você, e se o livro é bom ou não já é uma opinião pessoal e ligada ao estilo de vida que você escolheu.

Vão me perguntar se me refiro a alguma obra ou autor em particular... Sinceramente, não. Mas posso dar um exemplo do que é uma obra primorosa e que depois cai. Todos que gostam de cultura pop falaram do filme “Matrix” (1999/Irmãos Wachowski), as referências literárias eram enormes – da literatura cyberpunk de “Neuromancer”, de William Gibson, a “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carrol, até menções claras da Bíblia -, com suas idas e vindas na filosofia oriental, nos diálogos originários do mangá, ou seja, para o fim de século, o filme era um leque reverencial à cultura moderna na linguagem até niilista das geração “ponto com”. Foram feitas duas continuações que literalmente pulverizaram a “pureza literária” que o filme parecia ter reciclado tão bem para essa geração e transformaram em arremedos da obra original – em uma profulsão de efeitos apenas – com a manipulação de referências que perderam a coesão , banalizou e ficou extremamente maçante. O interessante é que os seus próprios autores cuidaram do desserviço, algo raro.

Na literatura é parecido, de repente, para cada “O Senhor dos Anéis” (J. R. Tolkien) existem dez “Harry Potter” (J. K. Rowling) – não desmerecendo a obra que trouxe a descoberta da leitura para essa geração avessa à letras extensas. Pronto, é só um exemplo que explica o que quero dizer. A pureza clássica dá origem aos diluidores, que apenas acrescentam contemporaneidade kitsh onde antes existia espontaneidade. No caso de Tolkien, é um estudo lingüístico de extrema riqueza. Já referente a “Matrix”, dos Wachowski, no resgate do referencial literário do primeiro filme, rico em forma e expor a modernidade a partir do clássico, se perde em sua extensão desnecessária (duas continuações desnecessárias). Queiram ou não, por mais que sejam linguagens distintas - literatura e cinema -, o fator aqui é a criação, por isso o exemplo.

Acho que no alvorecer das idéias com que alguns leitores ávidos procuram nos livros, o tratamento respeitoso da língua e a coragem de seus autores em colocar seus pensamentos em situações ou personagens servem como referencial de vida. O fato é que, os nossos melhores livros são aqueles que identificamos personagens tão solidários quanto precisos na descrição de algumas pessoas próximas, ou situações que vivenciamos ou apenas interpretamos como coincidentes na vida real.

Creio que muitas vidas se assemelham a livros, personagens e autores quando os sentimentos se amalgamam numa comunhão comum às pessoas sensíveis. Convenhamos, a vida é quase perfeição quando estamos sós e nas viagens de nossos pensamentos, na argúcia de nossos devaneios, o mundo está apto a aceitar todos os nossos sonhos e desejos, sem pestanejar, pois nos momentos de solidão somos senhores da razão, da realidade, do pensamento e da nossa história. Penso que os grandes autores poliram suas idéias e transcreveram para o papel suas histórias a partir desses momentos. Em respeito a eles é que alguns dos melhores livros de todos os tempos já foram escritos e isso foi há muito tempo.

“(...) Bebi até a hora de fechar. Cass, a mais bela das 5 irmãs, a mais linda mulher da cidade. Consegui ir dirigindo até onde morava. Não parava de pensar. Deveria ter insistido para que ficasse comigo em vez de aceitar aquele “não”. Todo o seu jeito era quem gostava de mim. Eu é que simplesmente tinha bancado o durão, decerto por preguiça, por ser desligado demais.

Merecia a minha morte e a dela. Era um cão. Não, para que por a culpa nos cães? Levantei, encontrei uma garrafa de vinho e bebi quase inteira. Cass, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos.

Lá fora, na rua, alguém buzinou dentro de um carro. Uma buzina fortíssima, insistente. Bati a garrafa com força e gritei:

- MERDA! PARA COM ISSO, SEU FILHO DA PUTA!

A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia fazer mais nada.” – Bukowski, Charles – “Crônica de um amor louco”, págs.16 e 17. L&PM Editora/1987.

Dos referenciais literário que possuo Bukowski foi o mestre necessário que da marginalização estendeu sua influência crua e rasteira a uma dimensão de arte, ao retratar sua própria vida de boêmio, onde vivia em um mundo no status quo miserável da natureza humana que se transforma em uma autêntica “mosca de bar” (barfly), entre cervejas, vinhos, putas, perdedores, quartinhos imundos e um intelecto profícuo demais.

No contexto da antítese deixo algo que me remete a uma descrição solitária que só os observadores podem se ater, por isso mesmo dentro do contraste entre bruto (Bukowski) e o lírico (Tchekov). Um Primor de descrição não só de ambiente como de costume social.

“A igreja paroquial está situada a duas longas léguas da aldeia, na vila de Kosogorov. Só se vai lá nas grandes ocasiões, para os batizados, os casamentos, os enterros. Habitualmente, os habitantes de Yukovo ouvem missa na igrejinha do outro lado do rio. Nos domingos em que fazia bom tempo, as moças enfeitavam-se e dirigiam-se aos bandos para a igreja. Os seus vestidos, vermelhos, amarelos ou verdes, pintavam a pradaria com belas manchas de cores alegres. Quando fazia mau tempo, todos ficavam em casa. A Páscoa era festejada na paróquia, e quando, depois da festa maior, o sacerdote vinha benzer as isbás, recebia a multa de quinze kopeks paga por todos aqueles que não tinham tido tempo de praticar as suas devoções durante a Quaresma (...)” – Tchekov, “Contos” – Pág. 159 – Otto Pierre Editores Ltda – Rj 1979.

Não siga à risca o que escrevi, pois num país em que ainda existe um número muito grande de analfabetos, só o fato de ler uma cartilha com a história das vogais e consoantes, já é um passo enorme. Ler é preciso, ensinar mais ainda, assim como sonhar é necessário para adoçar a vida. O primeiro passo é valorizar a leitura para as conseqüências almejadas na formação de um leitor consciente.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Parti...




Parti sem pelo menos uma última vez ver o teu rosto
Guardar aquele sorriso que sempre me pareceu um arco-íris
Ouvir tuas reclamações e ainda assim achar que isso era poesia

Parti sem tocar teus cabelos novamente....
Deixando de lado as lembranças dos risos, das briguinhas
Daquela comunhão que um dia chamei de "namoro de amigo"

Parti para não poder voltar tão cedo
Sem poder olhar pra trás e ver que tudo foi só um momento
Um sonho breve, um retrato antigo que se perdeu...

Parti e não entendi o que houve, mas compreendi que não podia ficar mais.
Como um anjo, almejo meu vôo para longe e de cima
logo abaixo das nuvens, apenas te observarei....

Sorri quando estiver feliz... Tentar acalentar quando estiver triste
Poder enxugar as lágrimas, mas, principalmente, dividir o mesmo sorriso
Quando olhar no horizonte e ver que tudo pode ser apenas
uma miragem do Sol...

O tempo...

Parti e deixei um pedaço de chão... fiquei sem apoio
mas se um dia eu puder ver que de alguma forma te fiz ser alguém melhor
do que pra mim já é....
Vou ser o amigo que sempre estará nos seus melhores sonhos
E o amor eterno dos abraços que solidificaram nossa amizade...

por tudo... eu sempre digo...

Te amo pelo que é.... Não pelo que foi... Nem pelo que será...
Basta dizer... Te amo!

Parti...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

NO DELICIOSO SABOR DO DESEJO PECAMINOSO


00h23 – É uma madrugada de domingo, sim, daquela que surge depois da meia-noite de sábado. O MP3 do carro está no volume médio e ouço "Chico Buarque Song's", da extinta banda paulistana Fellini enquanto Ana Paula (nome fictício, que eu não sou doido em escrever o verdadeiro, mesmo porque ela é um doce pessoa e não gostaria de perder a sua amizade) sorri e me conta do seu projeto viajar para São Paulo daqui alguns meses, visitar a família.

Sua voz é rouca e metida em câmera lenta, com uma fonética torpe deliciosa. Os densos cabelos escuros e longos esvoaçam com o vento que entra pela janela do carro enquanto corro pela avenida que segue pelo Espaço Alternativo, rumo ao aeroporto. No ar o inebriante perfume de jasmim impregna minhas narinas enquanto finjo que não devo me apaixonar por ela.

Uma hora antes eu a apanhei na casa da sua tia. Próximo ao centro da cidade, só ela estava acordada. Abriu a porta e me pediu pra entrar e aguardar enquanto lentamente se arrumaria. Estava envolta em uma toalha amarela (bem gema de ovo), com o cabelo amarrado e sua tez morena permeada por gotículas que refletiam flashes da iluminação do abajur sobre uma estante na sala de estar.

Ela se virou de uma vez então e abriu a toalha. Estava nua. Dei um sorriso sem graça e a penugem na minha nuca arrepiou. Os olhos castanhos claros dela brilharam e fui até a cozinha.

"Tem vinho?", perguntei. Ela deu uma gargalhada vibrante. "Sim, deixei meia garrafa aí na porta da geladeira. Tinto e seco viu!", ela me advertiu.

Ela abaixou então o tom da sua gargalhada, voltou a enrolar a toalha e se aproximou de mim. "Eu te amo, sabia?", me disse olhando com carinho.

"Eu também, muito. Se não fóssemos tão amigos eu juro que te carregava no colo..."

"... e me fazia mulher?", completou Paulinha com uma interrogação.

Não respondi, abri a geladeira e peguei o vinho. Fui até a prateleira pra pegar uma taça e ela se aproximou pelas minhas costas. Abraçou-me com candura e encostou a sua cabeça no meu ombro esquerdo, senti um calor inesperado que tomou conta do meu corpo e senti um tremor estranhíssimo na pélvis.

Pensei: "Não, por favor, não faça isso". Enchi o copo com o vinho e ela delicadamente virou o meu rosto em sua direção. Funguei um pouco, ajeitei o meu óculos e fiquei bobamente com o copo na mão, enquanto ela subia suas mãos em volta do meu pescoço, sua boca estava úmida, os olhos brilhantes.

"Como isso pode acontecer?", ela sussurrou olhando diretamente para os meus olhos.

Não consegui falar nada, deixei o copo de lado então e a abracei. Ela abriu levemente a boca e senti o perfume de menta. Sorri como uma criança e deixei meus lábios grudarem em sua boca. Ela abriu caminho entre os meus dentes e enfiou levemente a língua. Propositalmente ela deixou cair a toalha e sentir o seu corpo comprimido no meu.

Ela saiu da minha boca e desceu sua língua do lóbulo da minha orelha passando pelo meu pescoço e mordiscando com suavidade o meu queixo.

"Por que? O que está havendo?", questionou ela, com os olhos semi-cerrados e a boca ainda mais úmida e quente.

Minhas mãos passearam pela suas costas e cravei os meus dedos na sua cintura, a cada mordida ou carinho mais latente sobre o meu rosto, as minhas mãos buscavam desbravar terreno antes considerado proibido, afinal somos amigos. Ela suspirou alto e já estava tirando minha camisa.

"Não sei... Não sei.", falei com dificuldade já com a boca em um de seus seios e Paulinha se atracando sobre mim.

Ela então me puxou para cima, na direção de seu quarto, em um silêncio que me parecia sepulcral, dramático. Sentia tesão e medo. Prazer e choque. A dualidade de sentimentos que imprimia uma dor fina que se apossava do meu estômago. Era um incômodo que eu não sentia desde a adolescência. Sabia, que de alguma forma estaria fazendo uma merda completa.

Quando ela deitou sobre sua cama nua já senti que estaria fazendo algo errado. Ainda assim cobri minha consciência com um manto de pecado tentador, expandindo minha libido através de um desejo secreto e que sempre reprimi por respeito, mas agora a voz em minha cabeça ficava ditando um mantra: "Foda-se, foda-se, foda-se... e é muito foda!"

Ela estava linda, como sempre esteve desde o dia em que a conheci. Tirei a minha roupa e fiquei longos minutos olhando-a com um desejo sem par. Ela era só sorrisos e não precisou mais do que isso para que eu a cobrisse com beijos. Línguas que passeavam sobre a pele e mãos, dedos que manuseavam e amaciavam carne. Fluidos se espalhavam e desejos, instintos, que tiravam nossos sentidos.

Deitei sobre a cama e ela sentou sobre a minha pélvis, brincando com a minha expectativa e roçando sua vagina sobre a minha coxa esquerda e deslizando até meu pênis. A sua boca, umedecida pela língua saliente, brilhava com a luz do abajur. Os cabelos caíam sobre os ombros e eu segurava suas nádegas, massageando e apertando com ardor a carne macia. Ela ofegava e havia um incrível odor de sexo e almíscar no ambiente. Podia sentir os seus poros salientes, os pelos arrepiados enquanto se movimentava com cadência sobre o meu corpo. Eu correspondia seus movimentos introduzindo com vigor, estocando no tempo certo, como tivéssemos feito isso antes e não pela primeira vez.

Ela virou sobre a cama e me armei em cima dela. Beijei seus lábios e deslizei meu rosto pelo seu pescoço e fiz uma trama de toques deslizando minha língua entre os seios e depois passei de um mamilo a outro, mordiscando os bicos e sugando com delicadeza. Depois desci meu corpo e a língua, sinuosa, descia pela barriga. Comprimi meus lábios no umbigo e ela segurava minha cabeça e acariciava meus cabelos. Em dado momento ela empurrou minha cabeça pra baixo e senti seus pelos pubianos na minha boca. Cheiro, fluido, intensidade na minha respiração e ela ofegante.

Comprimi meus lábios em seus pequenos lábios e não resistindo a eletricidade que a libido me provocava suguei sua vagina como se chupasse uma laranja aberta. Colhendo o sumo, duelando minha língua com seu clitóris e ficando longos segundos, longos minutos, tempo longínquo o suficiente para que eu sentisse todo o tesão de seu corpo quente, febril, esfregando com gosto seu sexo na minha boca.

Em dado momento ela me pedi para cobri-la. Me posicionei de lado e ela encostou suas nádegas na minha pélvis. Levantei uma de suas pernas e ela colou no meu corpo de costa pra mim e a penetrei. Em um tempo sem qualquer noção de medir, ficamos colados e se movimentando. Tínhamos uma combinação exata do instinto que nos transformava em um só organismo lacivo, erótico e sexual. Respiração ofegante, quase dava para ouvir uma música que cadenciava nossos movimentos. Podia ver com tanto tesão o corpo dela moreno suado, a pele macia, porém com os músculos retesados nos pontos certo. Ela conseguia comprimir o meu pênis com os músculos vaginais em movimentos rotacionais e era tudo tão intenso, quente, escroto. Não havia muito o que falar, mas fazer, fazer... Foder com vontade, com gosto até o momento em que explodi e ela soltou um grito profundo. Pediu para que eu permanecesse dentro dela enquanto gozava. Eu podia vê-la comprimindo os lábios e mexendo somente a cintura num movimento lento que ia gradualmente parando.

Havia um brilho na troca de olhares enquanto ofegava. Olhou bem nos meus olhos e deu um sorriso lindo.

Desci do seu quarto respirando ofegante, abotoando a camisa e tentando desviar das estrelas que teimavam em ficar na minha frente. Tomei o copo de vinho, que já estava na temperatura ambiente.

Ela desceu depois vestida informalmente, de top, uma jaquetazinha e calça jeans. Trazia a tira-colo uma mochila pequena.

"E a sua tia?", perguntei. "Só agora que você se preocupa com isso? Ah, ela saiu com algumas amigas", justificou.

Balancei a cabeça rindo e ela fez charme com um sorriso maroto. "Vamos? Se não a gente chega atrasado", falei.

00h33 – Chegamos ao aeroporto e desliguei o aparelho. Ela saltou do carro e a acompanhei. O avião havia chegado há 10 minutos. Ela saiu na frente e o local estava bem cheio. Eu fiquei de longe vendo o seu jeito, aflita, procurando alguém. Ela então olhou pra mim e fez um sinal de positivo. Quase gritando: "Tá aqui."

Dei um aceno de satisfação e fiquei olhando.

Ela parece que o localizou. Correu até ele e o abraçou, João, que retribuiu o abraço e a beijou intensamente. Rodopiou com ela no saguão e pareciam realmente apaixonados.

Aproximei-me lentamente e ele me viu. Abriu um largo sorriso e veio me abraçar. "E aí Marcão!".

"Tudo bem primo, só faltava você chegar mesmo. Essa moça quase me mata de tédio só falando em você nesses dez dias que esteve fora, sabia?", brinquei com ele.

"Mas você cuidou do meu amorzinho direitinho né? A mãe dos meus filhos."

Nada disse, apenas o abracei afetuosamente e fiquei admirando o semblante de felicidade de Ana Paula, que parecia uma menina, olhando para nós dois. Continuo fingindo que eu não devo me apaixonar por ela.

Não sei por que, mas me senti uma referência cinematográfica naquele momento ao lembrar de “Jules e Jim – Uma mulher para Dois” (Jules et Jim/1962), de François Truffaut.


"Caibo em qualquer fantasia./ sou fetiche para o desejo/ mais louco./ fragmento meu corpo/ pra entrar no seu espaço de querer." – Nilza Menezes, "Princesas Desencantadas ou A história das mulheres que ousaram sonhar" – 1996.