terça-feira, 27 de abril de 2010

Popsex nº 01



(Antes de ler, dê o PLAY)


Cheguei bêbado em casa... Encostei o carro na garagem e ainda tonto tentei equilibrar o raciocínio com a lógica da música que soava na minha cabeça. Respirei fundo e o celular tocou. Ainda estava zonzo com a última briga que tivemos. O brilho da tela do smart penetrou fundo na minha retina e vi o seu rosto em meio a nuvens.

EU - Oi.
A VOZ - Ainda não acabamos sabia?
EU - Quem?
A VOZ - Foda-se!
EU - Ok, acolho, eu sempre me fodo mesmo!
A VOZ - Que é? Vai posar de coitadinho?
EU - Não, então foda-se você.

Desliguei. Na minha mente lembrei de Kid Foguete, um personagem fuleiro de um dos contos maravilhosos de Charles Bukowski. Numa noite, precisando de grana, ele entra num frigorífico e pede emprego, pois precisa de grana. Praticamente se fode por fazer aquilo que não quer, mas necessita. Sou como Kid Foguete, me fodo com ela, por fazer aquilo que necessito. Não, não é sexo. É amor mesmo! Por que estou bêbado? Porque percebi que acabei de me foder por amá-la e ela nem aí.

Não consigo sair do carro, além da dormência no corpo fico pensando o que deveria ter feito para evitar ter chegado no ponto que chegou. A música, o som desatina as minhas ações antes calculadas, frias... e a porra do celular toca novamente.

"Atendo ou não atendo?" - Penso.

O toque perdura e olho compenetrado (pelo menos eu tento)para o visor brilhante.

"Foda-se"

EU - Oi.
A VOZ - Você é um idiota completo.
EU - Seiii... Mas, por que?
A VOZ - Mandando me foder, sendo que você é que merece...
EU - (Interrompendo) Quando a gente vai parar com isso?
A VOZ - Você provoca como quer que eu reaja?
EU - Não fiz nada... Droga... Olha, tô bêbado e sem condição nenhuma de prosseguir a discussão.
A VOZ - Ainda saiu para beber depois que discutimos? Você é tão fraco assim?

"Puta que o pariu, será que a amo tanto para aguentar isso?" - Penso.

EU - Não quero mais prosseguir com essa discussão...
A VOZ - Tô cansada, muito...

(Pausa breve... Respiração alta no dois lados da linha)

EU - E aí?
A VOZ - Você tá onde?
EU - Na garagem de casa, sem coragem de sair do carro, pensando um monte de merda.
A VOZ - Hummm... Seu idiota, porque não consigo ficar longe de você?
EU - E...
A VOZ - Tem condições de dirigir até aqui?
EU - Não sei, tô um pouco tonto, mas não tem risco...
A VOZ - Não, deixa pra amanhã, precisamos esfriar a cabeça.

(Me calo por alguns segundos)

EU - Tô indo aí, me espera.

Desliguei o celular, nem tirei o cinto de segurança, acionei a ignição e sai. Voltei para a rua e o ar-condicionado estava congelando no interior do carro. Mas achava um alívio.

Tomei a "Boulevard Street 05" e fui devagar. Divaguei então sobre as ondas de referências que me puseram na enrascada de me envolver tão intensamente com ela.

-

Um dia estou numa bookstore com uma pilha de livros para escolher o que levar, entre eles um sobre redes sociais e mídia interativa na internet. Era o único exemplar. Carrego o livro comigo e percebo uma moça linda ao meu lado me olhando sem graça. Não ligo muito, não ofereço perigo mesmo. Volto minha atenção para uma edição encadernada de Sandman, de Neil Gaiman, junto a outros dois livros e caminho até o balcão do caixa. Então aquela moça linda se aproxima e pega o meu braço.
- Oi, olha me desculpe, não sei como falar.
- Sim, pois não.
- Chato isso, mas eu preciso falar.

(Fiquei curioso, o que uma criatura linda poderia querer comigo?)

- Eu percebi que você está com um exemplar do livro de redes sociais e mídia interativa.
- Sim, esse aqui. - Mostro o livro.
- Pois é, esse mesmo. É que... Bom, é o único exemplar que tem disponível aqui e... (Sem graça)... Nossa, tô nervosa.
- (Tentei acalmar) O que foi? Pode falar, não mordo não. (Ri para quebrar o gelo).
- Eu vou fazer um trabalho na faculdade e precisava desse livro. Meu Deus, desculpa.

(Eu queria rir do jeito dela)

- Tá certo... Olha, esse exemplar eu encomendei, mas a gente pode discutir o destino dele.

(Ela me olhou intrigada)

- Como assim?
- Vamos lanchar juntos e discutimos se dou ou não para você esse exemplar.
- Hãm!!!
- Ei, preocupa não, sou uma boa companhia e você tenta me convencer porque eu devo ceder esse livro para você, pode ser?

(Ela ficou desconcertada, mas...)

- Me deixou sem graça, mas aceito a proposta sim.
- Tá valendo então.

Paguei o livro e saímos juntos da livraria. Foi o nosso primeiro passo.

-

Entrei na rua da sua casa e a vi logo, parada em frente a garagem fechada. Ela estava com os braços cruzados, com cara de irritada. Eu estava feroz, com vontade de chutar a barraca inteira mesmo. Parei o carro. Ela ficou me olhando e suspirei alto quando a vi ali do meu lado. Sai do carro. Me aproximei dela com cuidado, ainda tonto, o meu cabelo estava grande e balançava com a brisa fria. Ela não mudou um milímetro da sua posição e com os cantos dos olhos me mirou até me aproximar por inteiro.

Suspirei fundo e nos encaramos. Os olhos estavam borrados pelo rímel, como tivesse chorando, podia ver as faces extremamente rosadas, o nariz um pouco inchado e ela mordia os lábios. Convalesci diante da sua verocidade, mas tão atenuada pelo abatimento, com um certo torpor emocional.

ELA - Não devíamos mais no ver, sabia?

Falou, quase murmurando, com a voz embargada.

ELA - Quero dominar a situação e não ser dominada, isso nunca me aconteceu.

EU - Não fiz nada de que me arrependesse é a única coisa que posso dizer. Eu tô dependente de você, tô carente de você e não queria ser ignorado, só isso...

ELA - Seu idiota!!! Ciúme bobo, eu devia mandar você de volta pra sua casa... Não havia necessidade de me humilhar na frente dos meus amigos, posar de machão e dizer que eu sou sua e de ninguém mais, sendo que já provei tanto à você.

EU - Não me acostumei à isso. É tudo novo, eu já te falei, eu te falei. Fui bruto, porque sou bruto... Ver você tão solta, sendo que pelo menos dois caras ali você já tinha ficado.

ELA - Foda-se!!! Eu estou com você, não mais com eles. É difícil entender isso porra!!!

Me calei. Olhei para os meus tênis, funguei o meu nariz e senti o vento ficar mais frio. Balancei a cabeça e me censurei por ter agido tão mal. No fundo eu sabia que ela tinha razão. Ela provou que me amava no quarto passo, na frente de uma delicatesse.

-

Saímos do estabelecimento e nos dirigimos até o estacionamento. Tava escuro e ficamos sorrindo um para o outro. Ela encostou no meu carro de frente pra mim e me olhou de uma forma mais atrativa.

- O que faz? - Perguntei.
- Quase nada, só curiosa. - Disse.
- Curiosa com o que?
- Como viemos parar aqui, olhando assim um para o outro e imaginando o que fazer.
- Ah, sinceramente?
- Sim.
- Ok, apenas nos conhecemos de maneira inesperada, falamos longamente de assuntos que nos interessa, temos algumas coisas em comum, você ganhou um livro que era quase meu, gosto de você... e... Humm...
- Sim, tem mais?
- Me ajuda que acho que tem. - Provoquei.

Ela me olhou tão próxima, abriu os lábios e senti o convite. Encostei minha boca na sua e nos entregamos num beijo chupado e espetacular. Devorando língua e dentes. Trouxe próxima ao meu corpo e alisei suas costas. Nos entregamos a beijos gulosos e pude sentir seu calor fluir no meu corpo. Há tempos não tinha esse tipo de apuro de pele.

-

Finalmente ela se desarmou, deixou os braços cair e virou de costas pra mim. Seus cabelos estavam soltos e esvoaçavam ao vento. Olhei para o céu da madrugada e as nuvens estavam pesadas, iria chover a qualquer momento. Seria a noite perfeita para uma despedida definitiva. Com corações partidos, choros, gritos e todo o drama possível que um amor sem freio precisa.

"Tudo isso é uma grande besteira", pensei.

Tirei a pecha triste do meu seblante, fui até o carro, abri as portas, liguei o som dele e dei play na minha trilha favorita. "So here, we are", Bloc Party. Deixei o som na altura média. Ela parou de caminhar, virou o rosto de lado e reconheceu a melodia. Voltei minha atenção para ela. Me aproximei.

EU - Já que vai terminar tudo mesmo, ao menos me dê o direito de lhe dar a despedida que sempre quis dar para uma mulher.

Ela se virou para mim.

EU - É tudo tão simples, tão mais fácil e complicamos tudo. Eu sei que foi culpa minha. Mas deixa eu ao menos fazer pela última vez aquilo que sempre quis fazer se me encontrasse num momento como esse, tão fudido com uma mulher que ainda amo muito.

Ela me fitou, olhando nos meus olhos e via claramente a sua incredulidade.

ELA - O que pensa que está fazendo? Quem você acha que é? Deus?

EU - Não, sou apenas alguém que fez uma besteira e que sabendo que não vai ter volta precisa fazer algo que ao menos amenize...

Me aproximei rapidamente e cheguei perto dela. Ela tentou num impulso se afastar e segurei um dos seus braços, sem força, apenas com a medida de não impedi-la de fugir de mim.

ELA - O que pensa que vai fazer...

Antes que concluísse colei o meu corpo no dela e encaramos olhos nos olhos. Ela deixou um brilho passar para a minha retina e a música atingiu o ápice. Colei minha boca na dela, os primeiros pingos da chuva começaram a cair.

Ela permaneceu imóvel e articulei meus lábios no dela, que não resistiram e se abriram para mim. Começou devagar, comprimindo carne com carne, ódio se misturou a paixão e tudo parecia um sinal de impetuosidade sagaz, destruidora, devassa. A chuva caiu sobre a cidade e ela comprimiu minha boca e abriu os olhos.

ELA - O seu carro está com as portas abertas.

EU - Foda-se. (Continuando a beijá-la).

ELA - Não, vamos para dentro feche o seu carro.

Corri no meio da chuva, fechei o carro e voltei até ela.

ELA - Sem abrigo, só nós dois.

Nos agarramos de novo. Estávamos encharcados e o tempo era vazio, vago, dissimulado e bom o suficiente para nos deixar únicos.

Ficamos no canto do muro da sua casa e na contraluz da luminária do poste o rajar do brilho da chuva, como poesia visceral. Beijamos intensamente, e machucamos nossas bocas e pele. Ela arrancou minha blusa e abri sua camisa. Ela mordeu meu pescoço e colhi carinho em seus seios. Desci minhas mãos pela suas costas e ela cravou uma das suas mãos no meu membro, sobre a calça.

CONTINUA...

sábado, 17 de abril de 2010

Luz da Estrela - Momentos

Estive um tempo afastado do meu blog por motivos emocionais e de saúde. Uma torrente de situações ocorreram durante esses mais de trinta dias e que me ocuparam mente, corpo e espírito. Tive que aprender duras lições sobre a vida e como anda minha saúde neste momento em que já sinto uma transformação me levar para um lado que lia somente na histórias curtas de Bukowski. A tormenta de querer viver no limite programado nem sempre é viável, pois um ou outro detalhe transforma tudo e se eu não tivesse estrutura emocional teria perecido sem aviso.

Estou doente...

Descobri que a minha vida já está em contagem regressiva. Meu relógio da vida entrou no cronômetro. Isso me assusta, pois sei que ainda tenho muito o que fazer, ensinar, aprender e escrever, criar, transformar o mundo, o meu mundo. Filhos, família, amigos.... Pessoas que vem e vão. Incrível como cada coisa que antes parecia banal ou indiferente ganha seu valor.

Há vinte dias sofri um stress tão intenso que contrai uma gastrite crônica que me levou a dores lacinantes, intensas. Não dormia, não comia, só bebia água, leite gelado e comia biscoito de maizena. Sensação de derrota constante. Agonia e dor, insônia e a constante música no meu fone de ouvido - a melodia das minhas canções favoritas aliviavam, ainda que pouco as contrações da ardência estomacal.

Deitado na minha cama, ao lado da janela que ficava aberta podia ver nas madrugadas de sofrimento as estrelas, sentir o vento e rever rostos, situações e buscar minhas melhores lembranças.

Difícil, mas ver os filhos em volta e sorri com as coisas que fazem é ver que há vinte anos nunca me imaginava assim, PAI. Um roqueiro, criado em meio a bagunça dos anos oitenta, desorientado, aluno medíocre no ensino médio e um geniozinho da cultura pop, fanático por quadrinhos, cinema, literatura e música, muita música. De repente ver que eles são ótimos alunos e gostam - nas devidas proporções - das mesmas coisa que eu na juventude (afinal são versões melhoradas da matriz, EU). Não existe maior recompensa e orgulho.

Era um pensamento de conforto quando a crise de dor aumentava e queria gritar. As dores me atingiam a parte inferior direita do estômago e passava por uma cólica desgraçada. Tinha medo de câncer e nunca fiz nada para merecê-la. Não fumo, não bebo, mas tinha o stress, tão intenso dessa vida de jornalista e empresário, resolvendo todos os dias um gerenciamento de crise. Podia sentir na boca o gosto amargo da doença, a ausência da saliva, os olhos fundos e os gemidos que eu dividia com a música.

Senti dores e muita queimação no abdômen, azia, falta de apetite, náuseas e também vômitos, sangramento na digestão. Ainda assim trabalhei, mantive os compromissos e sempre mantive prestativo aos meus amigos.

Nesse passar de tempo tive alívio emocionais e conversas com uma amiga que me ensinou a ver a vida com outros olhos.

Em certos momentos o psicológico fez mais efeito do que as medicações que tive que tomar. Uma felicidade momentânea que me dava forças.

Sarei.... Mas...

Mas o pior de tudo foi ter me motivado a romper uma realidade por causa de uma relação intensa de amizade que estava quase sem regras, por achar que seria melhor. Queria me afastar de uma pessoa linda por saber que enfrentaríamos problemas futuros, mas fiz da maneira mais tola e absurda.

Não poderia ter agido como agi. Em conversas longas, doloridas, choros e raiva, aprendi com ela que somos melhores juntos, mas dentro da coerência de nossa relação, sempre deixando em evidência nossos melhores momentos.

Não vou escrever mais sobre isso, é pessoal e ainda estamos curando feridas - que eu criei -. Mas rascunhei apenas para citar a letra de uma música que ela me apresentou, "Starlight", do Muse. A música é linda e a letra representa tudo, é um compêndio de sentimentos que eu sinto por ela... Traduz perfeitamente toda a sensação de busca, proteção e desejo que alimentei. A combinação das palavras com a melodia, o tom confessional, parece a nossa história, a minha história com ela.

Não poderia de deixar de registrar isso, ainda que seja um registro que explique a minha ausência e o meu tormento com uma doença que me mina quando ataca. Ao amor que dediquei nesses meses e dias a ela, deixo o registro da música (vídeo) e da letra (logo abaixo, com tradução).






STARLIGHT

Far away Para longe
The ship is taken me far away O navio está me levando para longe
Far away from the memories Para longe das memórias
Of the people who care if I live or die Das pessoas que se importam se eu vivo ou morro

Starlight Luz da estrela
I will be chasing the starlight Eu vou perseguir a luz da estrela
Until the end of my life Até o fim da minha vida
I dont know if it's worth it anymore Eu não sei mais se isso vale a pena

Hold you in my arms Segurar você em meus braços
I just wanted to hold Eu só queria segurar
you in my arms Você em meus braços

My life Minha vida
You electrify my life Você eletrifica minha vida
Lets conspire to ignite Vamos conspirar para acender
All the souls that would die just to feel alive Todas as almas que morreriam só para se sentirem vivas

But I'll never let you go Mas eu nunca deixaria você ir
If you promise not to fade away Se você prometesse não desaparecer
never fade away Nunca desaparecer

Our hopes and expectations Todas as esperanças e expectativas
Black holes and revelations Buracos negros e revelações
Our hopes and expectations Todas as esperanças e expectativas
Black holes and revelations Buracos negros e revelações

Hold you in my Arms Segurar você em meus braços
I just wanted to hold Eu só queria segurar
You in my arms Você em meus braços

Far away Para longe
The ship is taken me far away O barco está me levando para longe
Far away from the memories Para longe das memórias
Of the people who care if I live or die Das pessoas que se importam se eu vivo ou morro

And I'll never let you go Mas eu nunca deixaria você ir
If you promise not to fade away Se você prometesse não desaparecer
never fade away Nunca desaparecer

Our hopes and expectations Nossas esperanças e expectativas
Black holes and revelations, Buracos negros e revelações,
YEAH! YEAH!
Our hopes and expectations Nossas esperanças e expectativas
Black holes and revelations Buracos negros e revelações

Hold you in my Arms Segurar você em meus braços
I just wanted to hold Eu só queria segurar
You in my arms Você em meus braços

quarta-feira, 17 de março de 2010

Ir...





EU - Oi, meu nome é Marcos.

TODOS - Oi Marcos, seja bem-vindo!

(Em seguida um breve silêncio constrangedor)

(Eu mexo os braços e abaixo a cabeça e depois fico pensativo esperando uma reação a mais... )

(Olho para o monitor e ele me dá um sorriso de canto)

MONITOR - Seja bem-vindo Marcos. Qual o seu motivo de vir até aqui o "Recanto da Tristeza"?

(Engasgo um pouco e as lembranças me vem rapidamente. Palavras duras, alguma injustas demais e outras sensatas. Sentia um gosto de carne crua na boca e a intensidade de um sufocamento causada por uma dor repreendida no peito).

EU - Nem eu sei de verdade... Eu... Eu passei em frente e vi o local aberto. Senti uma paz incrível e resolvi entrar...

(Ele me olha com atenção)

MONITOR - Mas isso é muito pouco para alguém se dispor a entrar aqui e sentar junto a um grupo de estranhos e ainda sentir uma paz.

(Senti um aperto na garganta, mas tudo parecia tão fácil de falar. A dor é sentida e recente. Crua, aberta e exposta)

EU - Parece pouco e talvez até seja. Eu... eu não sei...

(Todos me olham e nada dizem. Pareço um estranho sem rumo, sem chão... Um ninguém mesmo)

MONITOR - Por que você apenas não fala o que acontece. Seja franco e tudo se resolverá.

(Abaixei a cabeça e senti um aperto no peito. Estava triste e queria não poder me sentir o mais filho da puta dos miseráveis. Um ridículo da ocasião... Nem eu sei mais o que poderia ser... )

(Suspirei, olhei para o fundo da sala e vi o que parecia ser um rosto conhecido. Mas não era, apenas um flash de deja vu de alguém que amei. Não importa mais mesmo).

(Parecia poder ouvir um som vindo de algum lugar, como uma música suave, mas quase imperceptível. Podia jurar que estava só, mesmo na companhia daquelas pessoas que me olhavam atentamente).

EU - (Reticente) Sei que cometi muitos erros na minha vida e tentei da melhor forma possível tentar consertar o que parecia irremediável. Não sei se me entenderiam, pois é difícil expressar uma situação que eu criei e não soube conduzir e ainda assim, saber que parte da culpa não foi só minha. Mas eu sinto uma dor tão latente... Um vazio que chega tomando conta de um espaço que era reservado para uma pessoa.

(Abaixo a cabeça e olho para minhas mãos. Por um breve momento medito, coisa rápida)

EU - Hoje eu perdi um pedaço do meu coração, não saberia explicar até que ponto isso pode afetar o meu futuro ou o meu conceito de amizade, mas me fez pensar que preciso dar ainda mais atenção as pessoas que amo para que elas compreendam que eu sou tão falho quanto elas. Tenho razões obscuras que até eu mesmo não compreendo, por vezes penso que vivo em um mundo a parte e que deveria me ater mais ao chão, ser mais frio, objetivo e menos onírico.

(Tenho vontade de encostar a cabeça no ombro de alguém)

EU - ... Não existe razão coerente para algumas falhas minhas, mas eu sou obrigado a entender as falhas das pessoas e ir além da compreensão, pois não quero magoá-las. Mas é errado da minha parte. Seu eu posso ouvir as minhas falhas pelos outros, porque não posso apontar as delas? Qual seria a coerência da relação entre duas pessoas se elas não souberem lidar com erros e acertos e assim tentar com um diálogo mais franco descobrir, ainda que tarde, as verdadeiras razões dos erros e, talvez, tentar redimir ou consertá-los? Eu não sei como lidar com isso? Ou seria imaturo em certo ponto por acreditar que tudo pode ser resolvido depois. Mas é difícil compreender que eu tenho uma vida tão complicada, corrida, não dizendo que sou melhor ou pior que qualquer um que passe pelos mesmos problemas. Eu queria poder ter a solução para tudo e ajudar não só ao outros, mas a mim. Fui chamado de egoísta e até prepotente...

(Levanto os olhos e vejo que tudo parece tão sem sentido, mesmo com toda aquela gente me olhando... A paz me parece distante)

EU - Não queria magoar as pessoas com as minhas ações ou falta delas talvez, mas é um mundo tão complicado. Você tem receio de se machucar por se abrir demais para uma pessoa. Eu tenho medo de me machucar por me expor demais a uma pessoa que gosto além do necessário, mas é uma tarefa tão difícil explicitar isso sem parecer que estou me fazendo de vítima. As razões parecem limitadas, mas dentro do que posso expressar elas são como as linhas do universo, infinitas. Não saberia dizer se conseguiria vê-la no inverno, pois rompemos no verão. Olho para vocês e vejo que existe complacência de pena, uma forma saturada de me olhar com candura, mas não deixando se ater a figura patética que sou. Não saberia dizer se essa paz que encontrei no início seria a mesma que busco no final, mas para aquietar o que passa comigo, com o meu coração é o suficiente para fazer com que eu durma mais uma noite e viva mais um dia.

(A voz embarga)

(Silêncio)

(O monitor me encara e balança a cabeça positivamente, de forma lenta)

EU - Sinto que preciso ir embora. Não olhar para trás e deixar o que de bonito aconteceu apenas como uma lembrança, uma boa lembrança. Queria poder chorar mais, porém já fiz o suficiente e não vejo mais motivo para prosseguir nessa luta de conquista eterna por paz que deve vir com o tempo e ocorrerá naturalmente. Não tenho mais a impaciência da juventude e não pertenço aos laços afetivos dessa geração, pois ela já me cortou e apontou que o caminho que sigo é o errado. A paz que busco está em outra direção. Queria poder encarar a pessoa que transformou o meu mundo em poucos meses e dizer que tudo hoje é uma lembrança. Mas não tem como, pois tudo já acabou, da mesma forma que começou...

MONITOR - E você se conforma com isso?

(Eu me assusto com sua pergunta)

EU - Sim... Pois tudo foi dito de forma dura e direta, com toda a sinceridade. Fiz o que pude e se errei, assim como ela errou também, poderia deixar tudo como uma "desculpa" e começar de novo. Mas não tenho mais estrutura emocional para tanto.

MONITOR - Você prefere que tudo termine assim?

EU- Se foi uma decisão dela... E se só por causa dela fiz coisas que nunca imaginei fazer ou contar, eu me responsabilizo pela decisão que ela tomou. Vou respeitar e esquecer, dentro do que posso das escolhas erradas que fizemos.

MONITOR - Você não precisa ir e deixar que tudo termine assim, sabia?

EU - Eu sei. Mas é a decisão mais acertada. Temos vidas diferentes, somos de gerações diferentes e vivi coisas que ela não viveu. Ela não saberia compreender as razões que tomei como forma de proteção e eu não saberia conduzir um stress emocional desgastante que poderia acabar tudo da forma mais errada possível. Ela foi a certa na história e eu o idiota, o mais completo idiota.

(Todos se entreolham e depois me olham. O monitor sorri e se levanta da sua cadeira)

(Eu estou de pé, olhando a todos com receio, mas certo de que falei o que estava comigo e o que deveria ser dito, ainda que sentisse um gosto de tristeza no palato)

MONITOR - Você tem a noção do que pode acontecer pela sua decisão? Pelo que falou parece que sim, mas não é a mais acertada, mas é sua e é de sua responsabilidade, o que posso te falar Marcos é que as consequências dessa decisão perdurará por tempos e servirá como uma experiência, se para o bem ou mal só o tempo dirá. Mas te digo, aproveite esses momentos e reflita sobre os erros que cometeu e os possíveis acertos, pese tudo isso e não deixe de viver, conhecer mais pessoas, formalizar amigos e respeitá-los, mas, acima de tudo, seja sempre você mesmo.

EU - Tento viver assim... Mas não sou perfeito... Obrigado por tudo.

(Todas as pessoas se levantam... Batem palma e sentam novamente).

(Quero chorar, mas não consigo mais... Senti um luz brilhar e um vento frito bater em mim. Houve uma paz momentânea e sabia que era hora de ir...)

(Sorri com gosto, deixei minha vida de três meses passados fluir como um filme breve na minha memória e lembrei dos meus melhores momentos. Pus o capuz sobre a cabeça acenei com um tchau à todos)

(O monitor deu um sorriso e entendi que havia feito o certo)

(Abri a porta e estava chovendo. Era noite. Mas, não importava... Eu poderia ir com a certeza de que nunca mais estaria só. Não olhei para trás e segui na noite... Com a pisada forte de que amanhã é mais um dia a ser vivido, sorrindo ou não).

FIM

segunda-feira, 15 de março de 2010

formspring.me

Ask me anything http://formspring.me/marcos35anos

Repassando.... "Relacionamentos"

Não costumo repassar as muitas mensagens que recebo no meu Hotmail ou Gmail, até mesmo porque eu acho que já está sendo passado para uma centena de pessoas via e-mail e não vejo muita praticidade em querer fazer o mesmo utilizando algo meu, ainda mais pessoal que é o blog. Mas tem certas mensagens que parecem surgir do nada e servem como um alerta importante. Experiência de vida, aquelas palavras que fazem sentido quando você sente ou sentiu na pele o que está descrito. Sim, são palavras apenas... Mas fazem todo o sentido do mundo para quem, no mínimo, com senso de ridículo da vida e sensibilidade pode entender o seu conteúdo, simples, objetivo e plural. Vivo de emoção, ainda que com o passar da idade a razão é o que me conta mais, por isso mesmo, repasso, a quem possa interessar, o texto que recebi na manhã deste domingo (14) de uma amiga:


Sempre acho que namoro, casamento, romance, tem começo, meio e fim. Como tudo na vida.

Detesto quando escuto aquela conversa:
- Ah, terminei o namoro...
- Nossa, estavam juntos há tanto tempo...
- Cinco anos.... que pena... acabou...
- é... não deu certo...

Claro que deu! Deu certo durante cinco anos, só que acabou. E o bom da vida, é que você pode ter vários amores.

Não acredito em pessoas que se complementam. Acredito em pessoas que se somam.
Às vezes você não consegue nem dar cem por cento de você para você mesmo, como cobrar cem por cento do outro?
E não temos essa coisa completa.

Às vezes ela é fiel, mas é devagar na cama.
Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel.
Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador.
Às vezes ela é muito bonita, mas não é sensível.
Tudo junto, não vamos encontrar.

Perceba qual o aspecto mais importante para você e invista nele.
Pele é um bicho traiçoeiro. Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai com mamãe mais básico que é uma delícia.

E às vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona...
Acho que o beijo é importante... e se o beijo bate... se joga... se não bate... mais um Martini, por favor... e vá dar uma volta.

Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra. O outro tem o direito de não te querer.

Não brigue, não ligue, não dê pití. Se a pessoa tá com dúvidas, problema dela, cabe a você esperar... ou não.

Existe gente que precisa da ausência para querer a presença.
O ser humano não é absoluto.

Ele titubeia, tem dúvidas e medos, mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta. Nada de drama.
Que graça tem alguém do seu lado sob pressão?

O legal é alguém que está com você, só por você. E vice-versa. Não fique com alguém por pena. Ou por medo da solidão. Nascemos sós. Morremos sós.

Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado. E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento.

Tem gente que pula de um romance para o outro. Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia?

Gostar dói. Muitas vezes você vai sentir raiva, ciúmes, ódio, frustração... Faz parte. Você convive com outro ser, um outro mundo, um outro universo.

E nem sempre as coisas são como você gostaria que fosse... A pior coisa é gente que tem medo de se envolver.

Se alguém vier com este papo, corra, afinal você não é terapeuta. Se não quer se envolver, namore uma planta. É mais previsível.

Na vida e no amor, não temos garantias.
Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar. Nem todo beijo é para romancear.
E nem todo sexo bom é para descartar... ou se apaixonar... ou se culpar...

Enfim...quem disse que ser adulto é fácil ????

(
Arnaldo Jabor)

sábado, 13 de março de 2010

Um até breve...

Por um ano tive experiências maravilhosas no uso do Twitter. Conheci gente muito boa, pessoas motivadas em conhecer e aprender. Deixe me seduzir pela ferramenta e formalizei amizades concretas com gente produtiva e que fazia a diferença no meio. Não me ative as diferenças comuns entre elas no que diz respeito a convivência via essa rede social. Até mesmo porque diferenças devem ser resolvidas, à contento, ao vivo, Twitter são para poucos que entendem o seu uso como expositor de interesses quase coletivos e a formalização de amizades.

Aprendi muito com as pessoas e avatares. Cruzei a faixa dos 10.000 tweets com aquilo que sempre acreditei e perpetuei. Porém, uma vez Domingues Jr. postou. "Intimidade demais causa falta de respeito", um ditado inglês. E sei o quanto isso é verdade.

Diante de algumas situações inesperadas e por gostar demais das pessoas que sigo, esgotei. Preciso de um tempo para pensar e reavaliar conceitos. Parece tolice, mas não é. Twitter é uma ferramenta ainda em perspectiva de conhecimento e democraticamente ímpar. Digo que o Twitter é seu e você faz dele o que bem entender, mas prego que existe uma linha coerente de respeito e ética.

Em vista das amizades que formei, da confiança que me foi prestada, do conhecimento que adquiri e do respeito a que me foi delegado neste curto espaço de tempo é hora de dizer um até breve.

Para aqueles que confiaram em mim e na minha amizade digo que estarei atualizando com mais constância o meu blog e os contatos serão permanecidos no Facebook, no MSN, Orkut e Gtalk. Não dou unfollow e nem block em ninguém, pois ainda acredito nas pessoas e amigos. Não desativarei o meu Twitter, mas ele ficará inoperante por um bom tempo. Utilizarei somente o institucional da minha empresa (Rondoniaovivo) para atualização de links das matérias.

Um abraço nos rapazes e amigos, um beijo nas meninas e amigas. Nada é definitivo, mas breve. Portanto juízo. Adoro vocês tuiteiros.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Quase perfeição das leituras de sempre



“(...) Era verão e tudo estava fresco, brilhante e cheio de vida. Havia uma cantiga em cada coração e, se o coração tinha poucos anos, essa cantiga vinha até os lábios. Tosos se mostravam contentes e andavam com desembaraço. As alfarrobeiras estavam em flor e o perfume dessas flores enchia o ar. O monte Cardiff, a cavaleiro da aldeia, estava coberto de vegetais e ficava precisamente à distância necessária para tomar o aspecto de uma terra de promissão convidativa, cheia de sonhos e tranqüilidade.” –
Twain, Mark – “As Aventuras de Tom Sawyer”, Cap. II, pág. 17 – Editora Nova Cultural, 2002.

Esse é pra mim um dos mais lindos parágrafos já escritos para um livro. É utópico, lírico e paisagisticamente perfeito. Dá para respirar o ar do campo na detalhada, mas sutil descrição do seu autor. Isso porque Twain descrevia a região de onde viera, onde passara a infância e de onde, de certa forma – sem generalizar – todos possuem suas melhores recordações.

Por que começar o texto com ele?

Só para dar um modelo de um tempo em que as situações da vida eram amaciadas através da visão poética. Isso quando a poesia, sem sua vertente mais lírica, fazia sentido quase nostálgico.
No amargor dos tempos vindouros, o progresso cuidou para que esse sentido de literatura esteja transformado em clássico, em referencial lúdico para gerações de leitores, sem ater no real sentido do significado daquelas palavras. Eu poderia citar um grande número de escritores tão absolutos quanto obrigatórios nesse sentido, até mesmo aqueles marginalizados pelos mais puristas – como Henry Miller, Charles Bukowski e J. D. Salinger -, mas dentro de seu tempo, na sua época e se ateram à sua visão crítica e, porque não, vivência particular e instransponível ao nosso consciente sem mostrar a essência na crueza de suas linhas, ora realista, oportuna e por vezes lúdica dentro de sua concepção pessoal.

Do público que queria atingir, essa poesia que surge na descrição é nostalgia, é beleza gráfica dos sentidos que movem a história de suas vidas.

Se hoje a comunhão de atingir um público maior de leitores se encontra no impacto de mostrar o grafismo de sequências pseudodramáticas que se transformaram em lugar comum pela urgência de fazer uma leitura rápida, do tipo fast-food, basta comprovar vendo as listas de best-sellers, onde a capitalização de esforço literário se encontra em literatura de aspecto pop – sem a subjetividade que a palavra exige – onde o recurso de pensar já está mastigado nas linhas, não exige muito o pensamento reflexivo.

Não é todo ruim, pois de alguma forma isso incentiva a leitura para uma geração onde tudo é rápido, do moderado ao maniqueísta e processado em gigabytes. Encontrar jovens lendo textos longo, histórias com um certo grau de complexidade (nem tanto) remete a uma esperança de que nem tudo pode estar perdido.

Mas vale lembrar que o autor é a memória do seu tempo, quando no ápice de sua criatividade pode oferecer o que melhor sabia fazer. Eu creio que a literatura deu esse direito, permitiu aos seus asseclas de letras o dom de nos fazer pensar, buscar o além do que até então parecia ser absoluto.

“(...)Estamos no outono do meu segundo ano em Paris. Mandara-me para cá por uma razão que ainda não consegui compreender. Não tenho dinheiro, nem recursos, nem esperanças. Sou o mais feliz dos homens vivos. Há um ano, há seis meses, eu pensava ser um artista. Não penso mais nisso. Eu sou. Tudo quanto era literatura se desprendeu de mim. Não há mais livros a escrever, graças à Deus.” – Miller, Henry – “Trópico de Câncer”, págs. 07 e 08. Editora Nova Cultural, SP/1987.

A sobriedade dessas linhas de Miller permite pensar que quando não há nada mais para se escrever ou transmitir, é melhor parar. É verdade, a coerência de se fazer vivo, da busca da imortalidade está na transmissão de pensamento, no organizar das idéias, fabular e transformar em material de acesso às massas, ou a quem possa – e de direito – interessar. Livros possuem essa magia de quase perfeição. Ler é sagrado, como vincular a palavra ao maior livro cristão de todos os tempos, a Bíblia.

A razão de escrever é mostrar vida através do pensamento, relatar experiências ou apenas uma reflexão do passado através de romances, contos e poesia. Essa é uma visão purista ligada ao cerne da criação dos clássicos através dos tempos. Vejo nesses livros, em cada um deles que li um pedaço do seu autor descrito e escrevo isso em referência àqueles autores que tudo dizem numa única linha de frase ou, ainda, transbordam de lirismo uma passagem tão banal quanto a descrição de um lugar, de um ambiente que nos parece familiar apenas pela leitura das palavras certas, na sua composição ortográfica perfeita. Por isso gosto do parágrafo de abertura desse texto, citando Mark Twain. É simples, objetivo, claro e muito bonito.

Se a banalização de sentimentos que hoje pululam as leituras mais radicais de nosso tempo, movidos por feitiçarias, serial killers, corrupção de menores, violência, vampiros e lobisomens, na busca da catarse do leitor e surgem efeito no sucesso literário, os livros de auto-ajuda se transformaram em referência da busca do sentido da vida, na adequação ideológica que é ao querer se adaptar ao capitalismo irreparável da vida real e no labirinto fatal que é o neoliberalismo.

Parece salada mista, mas não é, pense que a forma de espairecer a mente, dar um refresco ao corre-corre da vida cotidiana pode muito bem estar atrelada na leitura de um bom livro, mas quem determina essa literatura é você, e se o livro é bom ou não já é uma opinião pessoal e ligada ao estilo de vida que você escolheu.

Vão me perguntar se me refiro a alguma obra ou autor em particular... Sinceramente, não. Mas posso dar um exemplo do que é uma obra primorosa e que depois cai. Todos que gostam de cultura pop falaram do filme “Matrix” (1999/Irmãos Wachowski), as referências literárias eram enormes – da literatura cyberpunk de “Neuromancer”, de William Gibson, a “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carrol, até menções claras da Bíblia -, com suas idas e vindas na filosofia oriental, nos diálogos originários do mangá, ou seja, para o fim de século, o filme era um leque reverencial à cultura moderna na linguagem até niilista das geração “ponto com”. Foram feitas duas continuações que literalmente pulverizaram a “pureza literária” que o filme parecia ter reciclado tão bem para essa geração e transformaram em arremedos da obra original – em uma profulsão de efeitos apenas – com a manipulação de referências que perderam a coesão , banalizou e ficou extremamente maçante. O interessante é que os seus próprios autores cuidaram do desserviço, algo raro.

Na literatura é parecido, de repente, para cada “O Senhor dos Anéis” (J. R. Tolkien) existem dez “Harry Potter” (J. K. Rowling) – não desmerecendo a obra que trouxe a descoberta da leitura para essa geração avessa à letras extensas. Pronto, é só um exemplo que explica o que quero dizer. A pureza clássica dá origem aos diluidores, que apenas acrescentam contemporaneidade kitsh onde antes existia espontaneidade. No caso de Tolkien, é um estudo lingüístico de extrema riqueza. Já referente a “Matrix”, dos Wachowski, no resgate do referencial literário do primeiro filme, rico em forma e expor a modernidade a partir do clássico, se perde em sua extensão desnecessária (duas continuações desnecessárias). Queiram ou não, por mais que sejam linguagens distintas - literatura e cinema -, o fator aqui é a criação, por isso o exemplo.

Acho que no alvorecer das idéias com que alguns leitores ávidos procuram nos livros, o tratamento respeitoso da língua e a coragem de seus autores em colocar seus pensamentos em situações ou personagens servem como referencial de vida. O fato é que, os nossos melhores livros são aqueles que identificamos personagens tão solidários quanto precisos na descrição de algumas pessoas próximas, ou situações que vivenciamos ou apenas interpretamos como coincidentes na vida real.

Creio que muitas vidas se assemelham a livros, personagens e autores quando os sentimentos se amalgamam numa comunhão comum às pessoas sensíveis. Convenhamos, a vida é quase perfeição quando estamos sós e nas viagens de nossos pensamentos, na argúcia de nossos devaneios, o mundo está apto a aceitar todos os nossos sonhos e desejos, sem pestanejar, pois nos momentos de solidão somos senhores da razão, da realidade, do pensamento e da nossa história. Penso que os grandes autores poliram suas idéias e transcreveram para o papel suas histórias a partir desses momentos. Em respeito a eles é que alguns dos melhores livros de todos os tempos já foram escritos e isso foi há muito tempo.

“(...) Bebi até a hora de fechar. Cass, a mais bela das 5 irmãs, a mais linda mulher da cidade. Consegui ir dirigindo até onde morava. Não parava de pensar. Deveria ter insistido para que ficasse comigo em vez de aceitar aquele “não”. Todo o seu jeito era quem gostava de mim. Eu é que simplesmente tinha bancado o durão, decerto por preguiça, por ser desligado demais.

Merecia a minha morte e a dela. Era um cão. Não, para que por a culpa nos cães? Levantei, encontrei uma garrafa de vinho e bebi quase inteira. Cass, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos.

Lá fora, na rua, alguém buzinou dentro de um carro. Uma buzina fortíssima, insistente. Bati a garrafa com força e gritei:

- MERDA! PARA COM ISSO, SEU FILHO DA PUTA!

A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia fazer mais nada.” – Bukowski, Charles – “Crônica de um amor louco”, págs.16 e 17. L&PM Editora/1987.

Dos referenciais literário que possuo Bukowski foi o mestre necessário que da marginalização estendeu sua influência crua e rasteira a uma dimensão de arte, ao retratar sua própria vida de boêmio, onde vivia em um mundo no status quo miserável da natureza humana que se transforma em uma autêntica “mosca de bar” (barfly), entre cervejas, vinhos, putas, perdedores, quartinhos imundos e um intelecto profícuo demais.

No contexto da antítese deixo algo que me remete a uma descrição solitária que só os observadores podem se ater, por isso mesmo dentro do contraste entre bruto (Bukowski) e o lírico (Tchekov). Um Primor de descrição não só de ambiente como de costume social.

“A igreja paroquial está situada a duas longas léguas da aldeia, na vila de Kosogorov. Só se vai lá nas grandes ocasiões, para os batizados, os casamentos, os enterros. Habitualmente, os habitantes de Yukovo ouvem missa na igrejinha do outro lado do rio. Nos domingos em que fazia bom tempo, as moças enfeitavam-se e dirigiam-se aos bandos para a igreja. Os seus vestidos, vermelhos, amarelos ou verdes, pintavam a pradaria com belas manchas de cores alegres. Quando fazia mau tempo, todos ficavam em casa. A Páscoa era festejada na paróquia, e quando, depois da festa maior, o sacerdote vinha benzer as isbás, recebia a multa de quinze kopeks paga por todos aqueles que não tinham tido tempo de praticar as suas devoções durante a Quaresma (...)” – Tchekov, “Contos” – Pág. 159 – Otto Pierre Editores Ltda – Rj 1979.

Não siga à risca o que escrevi, pois num país em que ainda existe um número muito grande de analfabetos, só o fato de ler uma cartilha com a história das vogais e consoantes, já é um passo enorme. Ler é preciso, ensinar mais ainda, assim como sonhar é necessário para adoçar a vida. O primeiro passo é valorizar a leitura para as conseqüências almejadas na formação de um leitor consciente.