
Mas eu gosto de literatura com narrativa seca, direta e sem firulas de linguagem ou exercício mental com excesso de contextualização, por isso mesmo da literatura norte-americana o meu favorito sempre foi Charles Bukowski (1920 – 1994). Ele não tem papas na língua, não desliza sobre ondas de momento, ou faz concessão para intelectuais. Foda-se na verdade!
Tive uma feliz surpresa quando fui atrás de um livro paradidático para o meu filho mais velho, e remexendo no mostruário de pocket-books acabei encontrando três livros do velho beberrão, “Factótum”, “Crônica de um amor louco” e “O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio” – esse último com um adicional a mais, ilustrações do genial Robert Crumb.
Como uma criança que encontra o seu gibi favorito numa banca de revista ou um adolescente que encontra o seu primeiro amor numa festa da escola, tive os olhos ofuscados pelo brilho de fã. Estava em êxtase, o último livro de Bukowski que havia lido fora “Hollywood” – a obra que narra os bastidores das filmagens de “Barfly”, na visão muito particular do escritor -, vai então que era inevitável a emoção.
A linguagem popular e trôpega de Bukowski permite uma leitura rápida, como um cruzado no queixo ou um murro seco no estômago, a pegada de sua narrativa com o personagem alter ego, Henry Chinaski, demole o moralismo hipócrita da sociedade de sua época e permite uma visão crua e real do machismo falido de um bêbado, sem maiores perspectivas de seu cotidiano, apenas vivendo.
“Factótum”, o segundo romance escrito por ele, publicado em 1975, a pecha autobiográfica permite piedade e risos da vida pouco convencional de Chinaski, que deixado de lado pelo exército na época da segunda guerra mundial e vaga sem rumo por uma América absolutamente besta, canhestra e marginal até a medula. Os caminhos trilhados que Bukowski permite a seu alter ego é dos mais sublimes da literatura marginal. Bares, peregrinações ensandecidas levam o autor a traçar um fio condutor impossível para desafiar a sua sanha de realizar um único sonho, escrever.
Ah, mas tem “Crônica de um amor louco”, cujo exemplar em rosa e preto, contrasta com a capa, uma fotografia em branco e preto, com close da vista lateral do rosto feio e cheio de cicatriz do velho safado. A sua cigarrilha e o olhar fixo em algo, a camisa listrada, tão comum a visão icônica de um escritor único.
“Crônica...” é parte integrante da obra “Ereções, ejaculações e exibicionismos”, onde o personagem Buk se torna protagonistas de situações que expõe sem dó a América dos fundos de quintais, das ruas sujas, dos bares esfumaçados e das bebidas baratas. São personagens incomuns, marginais, peregrinos da noite, insones que cruzam becos e ainda colhem restos de tragos em copos velhos. Palavras secas, respiração densa e tensa, tudo é somatório que leva a literatura de Bukowski a um nível de altíssima reverência à decadência humana, ainda que o amor seja uma palavra universal em sua linguagem chula e burlesca. Que obra é essa?!?
E tem o saboroso "O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio", uma outra série de contos curtos, publicado quatro anos após a morte de Bukowski, em 1998, e vale como registro de um diário onde o velho escritor narra com propriedade e lúcida observações os seus últimos dias. Na informação da editora, os relatos aqui publicados são trechos do seu diário de agosto de 1991 até fevereiro de 1993. O grande barato é ver as suas notas sobre as suas idas nas corridas de cavalos, onde ele encontra personagens estranhos e únicos. Afiadíssimo na sua pecha literária com pitadas de filosofia de bar, vivência e reflexões cotidianas.
Absolutamente impossível não tecer loas tão significativas para alguém que escreve com tanta responsabilidade a sua vida pessoal e ainda não ter pudor em expor seus defeitos. Três obras que complementam a impressionante história de Charles. Continuo seu fã.
RECOMENDO - Para quem ainda não conhece a vida e a obra de Charles Bukowski a Editora Conrad lançou há alguns anos a biografia "Charles Bukowski: vida e loucuras de um Velho Safado", escrito por Howard Sounes. Maiores detalhes clique AQUI. Literatura altamente recomendável.






