quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Por um amor menos profundo que os sonhos buscam no pecado...


Vernaculum obsessis II (70107)

"Não vou te mandar notícias não...Elas envelheceram comigo dentro da impiedosa extensão do meu tempo.Simplesmente isso..." – Sônia Pallone




Em algum tempo perdido de 2002...

Descobri o lençol e com uma preguiça desmedida caminhei trôpego até a janela. Abri a cortina e senti as primeiras manhãs do sol no rosto. Meus olhos se irritaram e então compreendi que não estava só.

***

Senti a boca ressecada e me lembrei dos seus cabelos balançando em meu rosto, seguindo os movimentos do vento na beira do píer, defronte a um rio caudaloso e límpido.

Ela encostou sua cabeça no meu ombro, suspirou levemente o ar frio do final da tarde, e senti cada pulsação sua como tivesse o dom de um ouvido hipersensível. Cada passo de sua dor que parecia finalmente não se conter mais. Ela fingiu um sorriso pra mim e retribui com um carinho no seu rosto, tirando os fios de cabelos da sua testa.

- Você já sentiu isso? – Perguntou.

- Senti o que?

- Essa sensação de que você tem todos os seus melhores amigos a sua volta, família e ainda assim se sentir só. – Lamentou.

- Sim, sempre... Mas...

- Isso não é ruim? Parece trazer uma melancolia que me leva a questionar se realmente ter amigos em minha volta, enquanto pareço idiota, eu os mereço.

- Olha, mas a vida assim mesmo, são momentos, fases que passamos e que temos que vincular sentimentos contraditórios com aquilo que está ao nosso alcance. Eu penso que é porque você tem uma carência afetiva muito grande.

- Como assim contraditório? Não entendi.

- Esse paradoxo que você me passou, de estar cercada de gente que gosta de você e te faz sentir bem e, ainda assim, achar que falta algo mais que não a deixe tão só.

- Ah, nossa eu sou complicada...

- É não, é só humana demais... Eu acho que te falta um romance.

Ela sorriu pra mim e balançou a cabeça, voltando-a ao meu ombro.

- Não chego a tanto, mas um pouco de emoção mundana já resolveria o meu problema. – Disse, sem pudor nenhum, com as palavras firmes das quais só amigos de longa data se permitem segredar.

Eu olhei para ela e depois para o pôr-do-sol que criava à nossa frente, dei uma risada espontânea e ela continuou olhando o rio, compenetrada.

- Acredite em mim quando eu digo que você merece mais do que isso, vá por mim.

- Eu sei... Falei por falar, só isso.

Mais tarde estávamos no bar tomando algumas tequilas e ela se engraçou com um playboy, bem artificial. Ele pareceu se sentir atraído por ela. Correspondeu o seu sorriso e deu uma piscadela. Típico do idiota que a gente encontra aos montes nesses bares da moda. Eu olhava pra ela com certa incredulidade, mas ainda assim ela me olhava com um ar transtornado.

- Por que não? – Me questionou se referindo ao "almofadinha".

- Realmente, por que não. É bonitão, veste bem, cabelo da moda, ar blasé, deve cheirar pra caralho e tem um carro zerado estacionado em algum canto aí fora.

- Você é um idiota sabia, reduz meus flertes a observações capiciosas.

- Opa, desculpe, não tá mais aqui quem falou.

Tomei uma última dose e a vi saindo do meu ninho protetor indo direto para as garras do gavião. Eram só sorrisos, os dois. De longe ela me acenou com um polegar positivo. Algo do tipo para me avisar que ele era um cara legal.

"Bom pra ela, melhor pra ele." – Pensei.

Paguei a conta e tentei acenar um adeus pra ela. Mas me ignorou por completo, estava fumando o mesmo cigarro que ele. Fui embora.

Cheguei em casa e todos já estavam dormindo, passei no quarto dos meus filhos e os dois estavam enrolados nos lençóis, cada um em sua cama e o meu mais novo abraçado com um cachorro de pelúcia que tinha quase o seu tamanho. Vislumbrei-os por alguns minutos e me retirei para o meu quarto.

Quando estava tirando a camisa o meu celular tocou, era ela. Do outro lado da linha um soluço curto e depois uma voz embargada me pedia socorro.

Peguei o carro novamente e voltei ao bar. Ela estava na frente me esperando, com os braços cruzados, caracterizando um desamparo comovente. Desci do carro e a abracei.

- O que houve? Quase não entendi o que você falou no telefone.

Ela nada disse, só pediu para levá-la embora daquele local. Eu tinha certeza que o playboy tinha aprontado alguma com ela, mas não me deixei levar pela piedade, se ela procurava algo com ele e se deu mal, não foi a primeira vez e nem foi por falta de aviso.

No carro, já seguindo até sua casa, ela me pediu que levasse pra minha, pois não queria dormir sozinha. Achei estranho, mas não a questionei. Ela então disse:

- Ele não fez nada, eu é que não entendo minha cabeça e me vejo sempre fazendo alguma merda. Percebi que posso ser um pouco melhor comigo mesma e acho que fui grossa com você.

Passei minha mão pelo seu rosto com um carinho de pluma, medindo o gesto para não parecer tão expansivo e sorri.

Levei-a até minha casa, entramos sorrateiramente no meu quarto e liguei o ar-condicionado. Ela então sentou na minha cama e meio sem graça disse que estava com sono, mas se ela quisesse conversar, bom "tudo bem".

- Eu também quero dormir. Faz o seguinte, aja como se eu não tivesse aqui e faz tudo naturalmente.

- Ah tá, fácil dizer isso pra você que é mulher, mas eu sou homem, a coisa é um pouco mais complicada.

Ela riu baixinho e me olhou com um ar de gaiata.

- Tá com medo de mim? De que eu te seduza?

Olhamos um para a cara do outro e começamos a rir, tentando conter o barulho. "Que adorável amiga maluca é essa que eu arranjei?".

- Tem um pijama meu aí em cima da cômoda, veste ele que tá limpinho e vamos dormir. Você não existe, sabia? – Retruquei.

Ela foi até o banheiro e se trocou, quando voltou eu já estava arrumando alguns travesseiros no chão e um cobertor.

- Eu vou dormir aí no chão contigo? – Ironizou.

- Muito engraçada, muito mesmo. Não, eu é que vou dormir aqui embaixo.

- Esquece isso, vamos dormir na mesma cama, eu preciso de um amigo, de um ombro largo e muito amigo.

Nada respondi, ri da sua inflexão ao fazer a proposta e deitei, logo ela deitou do meu lado e virou-se pra mim.

- E aí, nós já nos conhecemos? – Brincou.

- Não, mas podemos dar um jeito nisso.

- Como?

Eu beijei sua testa e disse: "Boa noite!"

Ela beijou o meu rosto e retribuiu o "boa noite", em seguida apaguei a luz do quarto e me virei. Ela dormiu logo e aproveitei o momento para ligar para sua casa. Falei com o seu irmão, expliquei que ela estava comigo e como já éramos amigos ficou tudo resolvido.

Era uma situação estranha, mas eu sabia dos problemas emocionais que ela passava e não poderia abandoná-la, ainda mais depois de ter saído da clínica de desintoxicação com menos de dois dias. Antes de dormir ainda fiquei lhe olhando com admiração, era muito bonita, mas ainda assim precisava defenestrar alguns fantasmas internos para viver melhor. Eu a amava muito.

***

Após o despertar, ela já estava pronta, me olhando da porta do banheiro com um sorriso matreiro no rosto.

- Dormiu bem? – Perguntei.

- Foi o melhor sono que tive em muito tempo. Obrigada, de coração.

Fui até o seu encontro e abracei com carinho. Beijei a sua testa e depois a levei até a porta, disse que havia chamado um táxi pelo celular.

Antes de sair combinei de passar na sua casa mais tarde e ela disse então que me aguardaria, passaria o dia visitando os amigos que não via há mais de seis meses.

- Ei Marcos – me falou antes de entrar no carro – eu estou limpa de verdade viu, como eu prometi à você.

- Eu sei, eu sei...

E acenei, lhe dando um tchau.

***

Um ano depois minha amiga morreria num acidente automobilístico, com outros dois amigos de faculdade, em Cuiabá (MT), sua cidade natal. Ela voltava de uma festa e estava no banco de trás do carro.
+ Para Carla Liza Moretti (1977 – 2003)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Novo trailer de Watchmen - Wow!

Ok já escrevi anteriormente em outros posts referentes à adaptação cinematográfica que Zack Snider está fazendo de "Watchmen", que sou fã da maxissérie de Alan Moore e Dave Gibbons... blá, blá, blá, blá, blá... Ok. Então vou postar o trailer mais recente do filme, que foi postado na quinta-feira (13) no Yahoo.movies e entrou bacana nos site Omelete e Universo HQ nesta sexta-feira (14).

As cenas mostram um pouco mais da adaptação, como o início acapachante que envolve a morte do Comediante, além de trechos do ataque à Ozymandias e a conversa súbita entre Rorschach e Coruja Noturna no esconderijo do último. Vale ressaltar que a narração em off que ocorre no trailer é de Rorschach. Arrepiante.


terça-feira, 11 de novembro de 2008

Rosas - La Oreja de Van Gogh

Esse é mais um post de manutenção... Um "tempo" para manter acesso o interesse pelo blog com uma banda popular na Espanha e que para mim é mais uma daquelas "armadas" pessoais que se tornam cult pelo sabor da novidade. La Oreja de Van Gogh não chega a ser tão cult pois é um dos grandes sucessos da língua espanhola - já chegou a vender mais de seis milhões de disco pelo mundo - e descobri o grupo fuçando o antigo Kazaa. Eu estava num momento de transição emocional e vivia com um coração piegas, onde até urubu pousando em carniça para mim era poético. Pois é, eu vi a uma canção intitulada "Rosas", nada demais, porém, o nome da banda é de um humor negro latente, La Oreja de Van Gogh é a referência para o surto que levou o famoso pintor holandês, Van Gogh, a cortar uma das orelhas. O legal é que eu adoro banda que tem mulher como vocalista, e Amaia Montero é uma vocalista linda, de voz delicadíssima - com timbre quase infantil - e que lembrava muito (aparentemente) a minha primeira deusa do pop - não, não é a Madonna -, Deborah Harry (do Blondie, banda que no final dos anos 70 e início dos 80 vendeu mais de 60 milhões de discos puxado por sucessos como "Heath of Glass" e "Call Me").
"Rosas" não tem nada demais, é uma canção pop, quase rotineira, mas tem um vibe legal e o vídeo abaixo mostra uma apresentação ao vivo da banda muito bacana.



terça-feira, 28 de outubro de 2008

All Star Superman de Grant Morrison - Revisitado


Eu mantinha um blog no Comicspace.com - um portal para blogs que lidavam com quadrinhos, ilustradores, fãs, nerd e congêneres. Ali eu escrevia somente sobre quadrinhos e falava dos lançamentos nas bancas que mais me atraíam. Um dos post que recebi mais comentários diz respeito ao arco de aventuras do Superman, escrito pelo escocês Grant Morrison e ilustrado pelo também escocês Frank Quitely, que recebeu o sugestivo nome de "All Star Superman" - o de mesmo cunho mas feito para o Batman, foi escrito por Frank Miller e desenhado por Jim Lee, deveras um trabalho inferior em todos os sentidos, até o exagero cinemático (e redundante) das ilustrações de Lee não compensam o péssimo roteiro de Frank, em seu pior momento nos quadrinhos.

Mas voltando ao Superman, escrevi uma resenha a respeito da série, que havia acabado de ser lançado no Brasil, por isso mesmo o texto é de 10 de outubro de 2007, com pouco mais de um ano e acompanhando sistematicamente a série que deve findar no seu 12º número, não mudo uma linha do que escrevi, definitivamente foi o melhor trabalho com o Super que eu li nos últimos 10 anos. Para não me repetir, reproduzo abaixo o texto que escrevi na época do lançamento.

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O Superman de Grant Morrison é para fãs e não fãs

É SÉRIO!!!

O roteirista escocês Grant Morrison que já tem uma vasta folha corrida nas editoras Marvel e DC, agora trabalha exclusivamente para a DC, lugar, segundo ele em entrevistas, é onde lhe atrai mais em escrever pois gosta mais dos personagens icônicos, principalmente no que se refere à Era de Prata - época ímpar para a Distinta Concorrência, e é notório polemicista entre os fãs por escrever histórias originais, ainda que boa parte não tenha pé e nem cabeça, ou seja, excessivamente exageradas em suas referências (místicas, metafísica e tecnológica, sabe Deus que estimulante/liquidificador cerebral esse bicho toma) e símbolos.

Ano passado Grant, que é um dos mais prolíficos escritores da atualidade, escreveu em torno de quatro títulos mensais - além de ser do pelotão de frente das sagas intermináveis da DC, ao lado do incansável Geof Johns -, lançou pelo menos um dos melhores gibis seriados dos últimos anos, da linha "All Star", que se queixam os mais ranhetas, se tratar de uma disfarçada cópia da linha "Millenium" da Marvel - que apresenta novas origens de velhos personagens. No caso da "All Star" existe um equívoco para quem pensa dessa forma, essa linha da DC, na verdade, oferece liberdade total para os roteiristas e desenhistas, sem seguir propriamente uma cronologia, mas apresentando aventuras novas.

Na Marvel a "Millenium" tem a mesma característica, só que segue uma cronologia própria e angaria quase todos os personagens clássicos da Casa de Idéias (termo carinhoso para a Marvel - só para lembrar, EU SOU MARVETE, MARVELMANÍACO, etc).

Pois é, enquanto o enfant terrible Frank Miller assumiu o Batman, ao lado do desenhista pop star Jim Lee, Grant Morrison ficou com Superman, tendo a parceria do excepcional desenhista Frank Quitely.

Por incrível que pareça, Grant não exagerou na dose e nem criou simbologias e situações esdrúxulas (como fez e vem fazendo com a, pra mim, incompreensível maxissérie "Os Sete Soldados da Vitória") para o principal personagem da DC, mas realizou uma retomada do personagem com referencial clássico, em uma história simples, objetiva e transformando personagens-chaves do universo do kryptoniano - como Jimmy Olsen, Lex Luthor e Lois Lane - em peças importantes da estrutura a qual criou, com a premissa de que como o poder quase infinito do Super vem do Sol amarelo, com o passar dos anos ele acumulou tanta energia que acabou desenvolvendo uma espécie de câncer que o matará em menos de um ano, e a partir disso ele tem início a uma revolução à sua vida, como revelar a Lois a sua verdadeira identidade - é notável que na segunda revista ele a leve para a Fortaleza da Solidão e ainda assim ela acha que tudo não passa de uma grande brincadeira do Super.

O enfoque que Grant dá a cada um dos personagens é de uma candura permanente, onde quase tudo lembra aquelas histórias clássicas escritas por Julius Schwartz, com desenhos de Curt Swan.
Seguindo esse mote tudo, praticamente, funciona na série. A sua visão de Lex Luthor, o maior vilão, que acredita que tudo deu errado na vida e no mundo por culpa do Superman. Ou a visão satírica e quase megalômana de Jimmy Olsen, que ganha uma destacada coluna no matutino Planeta Diário e vira praticamente uma lenda do jornalismo contemporâneo. Mas é a visão do Superman e do mundo em que vive, da identidade que assumiu na Terra, de Clark Kent, da família que o criou, Jonathan e Marta, em conflito com ideais do bom moço que tudo faz pelo bem da humanidade e ainda assim é obrigado a conviver com as dores que a vida prega, envolvendo perda e martírio, que agrada aos olhos - além da arte envolvente e magistral de Quitely.
Grant Morrison planta referências, cria situações novas e transformar clichê em novidade. A sua visão pessoal do Superman deveria ser aquela que todos os fãs e escritores do personagem poderiam guardar pra sempre no baú da imortalidade. Particulamente, gostei muito, e olha que nem sou fã assim do Superman - na DC meu favorito ainda é o Batman.

Não por menos, a série "All Star Superman", de Morrison e Quitely, venceu o "Einer Award", na categoria de melhor revista seriada de 2006. O prêmio Eisner é considerado o "Oscar" dos quadrinhos, o maior prêmio para o segmento de revistas em quadrinhos.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Watchmen - Provocando arrepios!

Eu sou fã da maxissérie Watchmen de Alan Moore (roteiro) e Dave Gibbons (arte) e já deixei isso expresso em posts anteriores, para mim é a adaptação cinematográfica mais aguardada ano que vem. Hoje (quarta-feira - 22/10) o site Omelete divulgou um vídeo que foi exibido em uma daquelas cerimônias de premiação nos Estados Unidos, onde aparecem cenas inéditas do filme. Putawquiusparil, arrepiou...! Quem conhece os gibis, sabe de cor cada composição da história, enquadramentos e o contexto da narrativa tanto escrita quanto visual, é então um vislumbre o trabalho tão bem feito do diretor Zack Snider. Fãs, preparem para a grande surpresa ano que vem. Confira aí embaixo o vídeo que circula. É SENSACIONAL!


Watchmen - Spike Awards Trailer

sábado, 18 de outubro de 2008

DEUSA DO POP - Uma dança e um martini - Parte I


POP é um singular termo abreviado para o que é popular e acabou. É moderno, sim, a linguagem é mais icônica e fadada a interpretação óbvia do superlativo de intensidade das coisas que permeiam o inconsciente in nature das grandes metrópoles - e (vá lá) em interiores restritos onde os jovens, em sua grande maioria, podem se resfelar no prazer de adorar seus ídolos musicais.

Desse panteão feito para poucos uma tem o absoluto tempo de sua interação com o mundo pop, Madonna Louise Veronica Ciccone, a estrela mór, Madonna, a mais intensa criatura feminina a se manter por mais de duas décadas no topo das paradas e conciliar a sua verve cultural - por sinal, muito interessante - com o talento para desprender a várias direções que não seja só a música e deixar uma marca indelével, conquistando jovens e adultos desde a geração conformista da década de oitenta, passando pela geração descolada de noventa e se mantendo firme com a geração ipod pós segundo milênio.

Madonna é detentora de quase todos os recordes absolutos para a Rainha do Pop da música mundial. Se transformou, radicalizou e, no fundo, apesar das ousadias ainda mantém um pé no conservadorismo quanto ao trato de sua família, até mesmo porque o seu engajamento através da Cabala a levou a ponderar sobre algumas atitudes que quase a derrubaram - como a vida tresloucada que deixou transparecer na fase "Erotica"- alguém lembra do vídeo-documentário "Na Cama com Madonna"?.

Só para dar ênfase ao fantástico talento de Madonna no que diz respeito ao seu sucesso, basta lembrar, com dados do Guinnes Book, da Billboard, da Agência FamaPress, que a "Deusa" detém nove Grammy (o maior e mais respeitado prêmio da música norte-americana), dois Globos de Ouro (graças ao filme "Evita") e dois Oscar (por música de trilha sonora), na MTV ela é a vencedora absoluta do VMA (MTV Video Music Award), com 21 prêmios - ela foi a primeira artista a se apresentar na primeira edição do prêmio da MTV americana, em 1984. Contabiliza também que Madonna já vendeu mais de 130 milhões de álbuns e 100 milhões de singles em todo o planeta. Madonna é a artista feminina que possui também a turnê mais lucrativa da história da música pop, a série de shows para "Confessions Tour", de 2006. Sem contar, por fim, que ela foi considerada pela revista Forbes, como a artista feminina mais poderosa do mundo, com um fortuna avaliada em 1 bilhão de dólares.

Ufa! Que mulher prodigiosa. O interessante é que Louise ataca outras frentes, pois é uma escritora de livros infantis bem sucedida (ela criou uma série que iniciou em 2003 com "As Rosas Inglesas" e depois lançou "As Maçãs do Sr. Peabody"), produtora musical, compositora, coreógrafa, atriz e diretora de cinema também. Acumula funções e testa no limite talentos que parecem enraizar de suas experiências pessoais.

Quando eu era adolescente, com 16 anos, lembro que a TV Manchete (já extinta), tinha um excelente programa de vídeoclipes, e das primeiras coisas que me fascinaram foi o vídeo de "Borderline", o gancho da música é maravilhoso, com aqueles arranjos sintetizados da pós-disco e ainda saturado com a new wave tatibitate dos produtores de músicas assobiáveis.

A história básica do vídeo era de uma moça que aceitava posar para uma série fotos publicitárias contrariando a vontade do namorado, latino, que a rejeitava em detrimento do seu machismo latente em querer mostrar para os amigos que, quem mandava era ele. Ou seja, ela não obedeceu a sua vontade, não merecia a sua atenção. Uhuuuu.... Madonna desde cedo mostrava que a história não era bem assim. Ela posa para as fotos, contrariando o namorado. Dança, brinca e se revela para as câmeras, depois vira uma estrela de sucesso e o panaca do ex-namorado volta atrás dela sabendo que não tinha sido legal. A vingança é doce. Era uma história boba, mas serve de metáfora abreviada da vida artística da "Deusa", nunca a contrarie, pois por mais que ela seja passional, o que prevalece, de fato, são os seus interesses reais, gostem ou não.

Aquele era o vídeoclipe que toda a adolescente sonhava - pelo menos grande parte das minhas amigas adoravam sua atitude -, dar a volta por cima depois de ter levado um fora, mas aí a Madonna destempera e regurgita a caretice, com a apimentada "Material Girl", sua imagem decorrente da referência cinematográfica do filme de Marylin Monroe em "Os homens preferem as louras", no vídeoclipe se tornou icônica.

A sua lingua mordaz em versos simples calava a boca do conservadorismo e provocava a sociedade consumista com a linda "Like a Virgin", para mim, uma das melhores músicas do século passado. O disco, de mesmo nome, lançado em 1984, produzido pelo grande Niles Rodger (principal mentor da seminal banda da era Disco, O Chic) era um prisma de referência pop. E olha que era só segundo disco da Madonna. Ela não fazia frente de mesmice, era maravilhosa mesmo, até quando criava um estilo adolescente desleixado. Ainda que fosse a época da garotada curtir "Rambo II" e "Comando em Ação" - filmes altamente populares - o show referente a esse disco (da primeira turnê dela, "The Virgin Tour"), apresentado pela Rede Globo na íntegra, era de uma vulgaridade arrebatadora.

No ótimo sentido.... Madonna de crucifixo, barriga de fora, com rendas e saia curta, meias arrastão, cabelos louros caindo pela testa, jaqueta multi-colorida e forte maquiagem, era um deslumbre de tesão e cumplicidade automática com a libido adolescente masculino e feminina.

Ali fui arrebatado pela Deusa da lascívia pop, até onde o limite parecia ser uma tênue pelica de resistência moderada.


NO BRASIL


Na véspera do seu mais recente show aportar em terras brasilis - a preços salgadíssimos, escreva-se de passagem (quem tiver, não perca por nada desse mundo) -Madonna envolve problemas de cunho pessoal - essa semana foi anunciado o seu divórcio com o diretor inglês de cinema, Guy Ritchie, com quem teve o filho Rocco, e viveu por sete anos - com o sucesso absoluto da turne "Sticky & Sweet Tour", que segundo o site oficial da cantora no Brasil, o madonnaonline, deve arrecadar até o final do ano, aproximadamente 250 milhões de dólares, se tornando a turnê mais rentável de 2008 no showbiz.

Madonna já está com shows agendados no dia 14 de dezembro no Rio de Janeiro e dias 18 e 20 de dezembro em São Paulo.

O show é dividido em quatro blocos distintos: PIMP (com as músicas: Candy Shop, Beat Goes On, Human Nature e Vogue), Anos 80 (com: Die Another Day, Into The Groove, Heartbeat, Borderline, She's Not Me e Music), CIGANO (com: Here Comes the Rain Again, Devil Wouldn't Recognize You, Spanish Lesson, Miles Away, La Isla Bonita/ Lela Pala Tute e You Must Love Me) e finaliza com RAVE (com as músicas: Get Stupid, 4 Minutes, Like a Prayer, Ray of Light, Hung Up e Give it 2 Me).

Por falar em "Deusas" e seguidoras, a herdeira legítima do trono de Madonna, Britney Spears, tem uma participação ótima em vídeo na canção Human Nature, que integra o set list do show.

Madonna passando pelo Brasil novamente vai ser o grande must de fim de ano na área de entretenimento musical no que diz respeito ao POP, como essência da palavra e a sua representação icônica. E olhe que em novembro ainda tem o R.E.M. (uma das minhas bandas favoritas em todos os tempos), do carismático vocalista Michael Stipe, fazendo uma série de shows no país também.

Não tem cabecice, piração lítero exibicionismo e nem depreciação de pseudos-intelectuais, como bem dispõe a hermenêutica do POP, onde tudo se torna sagrado a uma boa diversão se regrada a ótimas canções, uma artista polivalente consagrada, uma excelente estrutura de palco que mistura cabaré, luzes, coreografias e uma miscelânea de bailarinos, banda e efeito integrando platéia e artista. Convenhamos, desde muito tempo Madonna sabe o que faz. Ela vale mais do que uma dança e um martini.

"Deusa" número UM, desde sempre.

CURIOSIDADES DA MINHA VIDA COM MADONNA

- Eu ainda tenho em vinil os três primeiros discos da Madonna(o de estréia, homônimo, "Like a Virgin" e "True Blue"), guardados como novos, além de um EP (Extend Play) da canção "Live to tell";

- Ainda tenho guardado um poster gigantesco da primeira turnê de sucesso dela, quando havia acabado de lançar o segundo disco, "Like a Virgin";


- Detesto a fase "Erotica" dela, de 1992, quando ela lançou um livro chamado SEX, e fez uma série de vídeoclipes belíssimos, sensuais e abusados, mas musicalmente confusos. Lembro que desse período resultou a turnê "The Girlie Show", que veio até o Brasil inclusive. A mistura sado-masô, lesbian libertária, resultou marketeira ao extremo.

- Como atriz eu acho péssima, mas adoro "Procura-se Susan Desesperadamente", primeiro filme em que tem um destaque essencial e rouba a cena (a atriz Rosana Arquette era a protagonista da história), o filme é de 1985. Muitos fãs gostam dela no filme "Evita", pra ser sincero, acho o filme irregular (Alan Parker, prestigiado diretor inglês que tem no currículo musicais clássicos como "Fama" e "The Wall", não estava em seus melhores dias), mas gosto das canções da trilha sonora.


- Eu acho que Madonna tem essencialmente discos que chegam muito perto da perfeição, mas considero dois álbuns dela preciosos para se conhecer a maturidade artística, do início de sua carreira até a fase atual (com domínio total de seu produto e da figura como estrela pop): "Like a Virgin" (1984) e "Ray Of Light"(1998).

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A sombra recai sobre o esquecimento enquanto os lobos devoram...



Cansado, caminhas sobre a areia branca, em algum lugar do deserto praiano do litoral Pacífico. Um vento com cheiro de mar e a água revolta quebrando nas pedras. Um sorriso, falsa saudade.

Ela teceu a linha imaginária descendo um dedo anelar sobre o meu peito nu e citou Sartre para me dar ciência da sua pureza: "Um amor, uma carreira, uma revolução: outras tantas coisas que se começam sem saber como acabarão."

Como loba faminta ela me escolta sobre a areia morna no fim de tarde, quando o Sol se vai à Oeste, e lambe as feridas dos meus pés. Senta então ao meu lado e propõe um pensamento etéreo sobre o fim das coisas.

É leseira ressarcir o tempo perdido na colhida da introspecção, quando se está velho e depara com a realidade da vida, tão inatingível pelas lembranças agradáveis. Como o sorriso do retrato e o teu anelar circundando um dos meus mamilos enquanto me encaras com preguiça.

As nuvens carregadas cruzam o céu, cobrem o horizonte, ao longe da linha do mar. Com um olho fechado e outro aberto a visão persegue a ilusão ótica de tudo em volta e parece que está tão perto e ao mesmo tempo inalcançável a sombra que recai o esquecimento.

Um rosto estoura em flashes, indo e vindo. Os olhos fechados, a boca trêmula e um adeus sentido, cheio de rancor e amor doloroso. A partida não escolhe personagens e nada posso fazer a não ser sobreviver. Recolho a paixão e inibo a saudade, ainda que uma fresta de pensamento me persiga por memórias bêbadas.

Aos poucos tudo escurece e fachos amenos trespassam as nuvens negras que anunciam a tempestade no horizonte. A areia sob os meus pés esfriam e o vento bate com mais força. Meus cabelos balançam e os lábios ressecam rapidamente, me junto então ao meu animal imaginário, afago sua cabeça e continuo a minha caminhada solitária.

Deixo para trás os rastros na areia e caminho sossegado enquanto aguardo os primeiros pingos da chuva, sem temer o futuro que me aguarda, ainda que a sombra me persiga e deixe espaço para que me torne presa indefesa enquanto os lobos me devoram...

Para tudo se tem um reinício... Até a despedida.
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“O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.” – Jean Paul Sartre