
No começo do ano de 2008 encontrei minha velha camisa preta com a estampa de Joey Ramone, ela estava dentro de um baú cheio de revista velhas da Cinemin e Bizz. Era uma memorabília que eu havia guardado a sete chaves e pensei que havia perdido.
Uma mensagem a cada postagem. Um ser racional em conflito com a natureza aflitiva de querer viver, conhecer e se aventurar. É um mundo cruel, uma vida rápida, amigos passageiros e os filhos crescendo. Transmixxx - uma união de conceitos que pode representar nada ou alguma coisa. Quem decide essa dúvida? Eu mesmo. Leia e curta, é só o que peço.




Não me pergunte as questões que levam uma pessoa a achar graça em andar de ônibus para ir ao trabalho. É um momento de solene desilusão quando se deixa acanhar pela monotonia. Mas, as vezes, o tempo é precioso e observar é colher experiência. Dependendo da situação, é possível obter inspiração suficiente para escrever. O texto abaixo é uma variação de outro só que em dois momentos distintos.
No sétimo dia do dia sete de julho – do mês sete – do ano de 2007, às 07 horas e sete minutos, entre os seis e oito segundo senti uma palpitação no coração quando estava sentado no ônibus que me levava para o serviço. Ela entrou com um sorriso tímido, os cabelos encaracolados caindo parcialmente em um dos ombros, uma bolsa de lona e um livro do Gabriel Garcia Marques em uma das mãos ("Amor nos tempos de cólera").
Passou pela catraca e sentou na cadeira em frente onde eu estava. Segui-a com carinho nos meus olhos e sorri de canto – num gesto de cumplicidade comigo mesmo. Claro, ela nem prestou atenção, aliás, não existo pra ela, sou mais um passageiro diário do ônibus de linha.
Ainda assim me permiti os excessos de poetas inconseqüentes que se apaixonam a cada dia e tentam galgar degraus absolutos do inalcansável para tocar sua musa.
Os óculos de grau, com aros vermelhos, lhe davam um charme intelectual e sua maneira simples e despojada de vestir me arremetia a desejos nostálgicos de amigas que dormiam aninhadas em meus braços, em busca de proteção no tempo de faculdade.
Contei então que ela possuía sete pontos chaves de que sua presença me instigava a interpelá-la e extrair um assunto simples para que a conhecesse melhor. Tarefa fácil. Mas, que nada. Na sua magnânima timidez ela me olhava rapidamente e logo voltava o seu interesse para o livro que carregava.
Ela se encolhia no canto da cadeira e o lia com dedicação. Por mim tudo bem, poderia ficar longos minutos lhe olhando sem que ela percebesse que eu via em suas feições e gestos àquela procura eterna da perfeição.
Um ponto: os cabelos castanhos, enrolados graciosamente, grandes, sinuosos e perfumados com algum shampo de erva aromática;
O segundo ponto: O olhar que aprofunda na leitura, mas vez ou outra escapa no tempo um olhar de procura em volta e nem percebe que o seu ato involuntário permite um flerte;
O ponto três: a pele alva, levemente sardenta;
Quarto ponto: aparenta uma delicadeza primaveril (como assim? Vão perguntar os decifradores de charadas), ou seja, com a cor das flores mais pueris de um jardim;
Olhaí o quinto ponto: sorri como a chama delicada de uma vela em um quarto à meia luz, numa noite de verão;
E o sexto ponto: caminha angularmente reta, compassada e arqueia o tronco levemente para trás, arrebitando sua puba enquanto os braços parecem delinear movimentos dançantes, milimetricamente dosado e...
Por fim o sétimo ponto: salvo engano, me trespassa com uma lança de paixão, com um olhar fulminante que me despe por inteiro e transforma minha paixão em desejo.
O que fazer com os seus sete pontos atrativos que me permitem borbulhar doses cavalares de glicose, daqueles arroubos idiotas que somente os apaixonados se permitem?
Apreciar, olhar e entender que no dia sete de julho de 2007 - passados sete minutos até o ponto onde eu ficaria – um pedido avulso às estrelas foi concretizado: vislumbrar a perfeição, tão assimétrica, das que ficam escondidas em alguma passagem de tempo que somente a física quântica permite em teoria científica.
Não sei o seu nome, não sei de onde vem e nem para onde vai... Mas de alguma forma eu sei que ela invade minha imaginação e ousa quebrar o encanto de minha desilusão quanto ao amor. Pois, de alguma forma, um novo amor faz esquecer um velho amor... Tão simples e óbvio quanto à vida monótona da realidade urbana que eu vivo.
Hoje, não tão só... Mas com você invadindo meus sonhos vez ou outra, sou um passageiro de ônibus tão feliz quanto inspirado...
Embarco no carro e dois amigos já me empurram uma garrafa com concentrado de Agave Azul da marca El Jimador. Na primeira talagada eu já sinto o ardor na traquéia e depois o incêndio no meu estômago. Mas deixo de lado, minha excitação tá alta e brindamos à noite.
É uma madrugada de sábado e aportamos no Informal, Pub da rua Brasília, que tem alta concentração de "bonecas" (gíria de amigos para as emergentes garotas da sociedade que fazem pose nos balcões, com aquele ar de "eu posso e quero que se foda") e gente boa praça, ainda que vez ou outra eu me depare com algumas senhoras da libertinagem. Uma delas, que eu vou chamar de Tetê, que havia dito ter 44 anos, apesar de aparentar bem menos, se aproximou do meu amigo Cleberson, perguntou se não pagaria uma bebida pra ela. Ele desconversou, com aquele ar tonto que carrega, típico de quem tá afim de "carne nova" e deu as costas à ela.
Percebi que a senhora ficou chateada e ao mesmo tempo conformada. Estava tomando a metade da minha caipirinha de Vodca e a mirei com precisão, avaliando se a dita senhora tinha munição para abordagens precisas de pré-acasalamento.
Baixa, longos cabelos castanhos claros, lisos, um vestido vermelho curto, salto alto da mesma cor, cintura pequena, quadris largos, seios pequenos, mas bem seguros e empinados por um daqueles maravilhosos sutiãs milagrosos que deixam tudo em pé. Orosto era suave, apesar da maquiagem um tanto pesada, mas transparecia uma beleza incomum, pois tinha os lábios finos, nariz afilado e olhos siamescos, mas que me perturbavam, pois deixava transparecer que usava lentes verdes.
Era uma mulher bonita, com um padrão acima da média dessas "senhoras de fino trato" que encontramos pela noite. Mas, claro, perto das mulheres, ou garotas saindo da puberdade que freqüentavam o bar ela parecia comum, translúcida, de uma presença banal e sem artifícios muito eficientes para concorrer com algumas moçoilas mais encorpadas. E olha que nessa noite tinha muita "cavala" – ok, me perdoem as meninas que lêem o meu blog, mas é outra gíria, que equivale (ai, ai, vou ser xingado agora pelas mais puritanas) a mulher "gostosa", no real sentido da palavra).
Enfim, olhei aquela "senhora" e fiquei admirando-a por alguns minutos, foi quando chegou um garotão, playboy, do tipo que anda com um celular na mão o tempo todo e usa óculos escuro em cima da cabeça, até na noite, pra parecer pintoso (acho que é isso, para não rebaixá-lo a um narcisismo neural sem cura), com duas "cavalas", uma em cada braço.
Ele se aproximou de Tetê como já a conhecesse, ela se insinuou pra ele e o carinha apenas jogou algumas notas de dez reais dentro da bolsa dela, enquanto as "amigas" dele riam entre cochichos, observando a cena.
Vi tudo de longe e apesar de não ter entendido nada – acho que sou inocente nessas celeumas entre putas e clientes -, fiquei admirado. Ela ameaçou sair do local e ficou parada na porta do bar, com seu belo vestido vermelho. O segurança da casa a observou e cochichou algo no seu ouvido. Com certeza, "melhor você ir embora".
Tomei uma talagada violenta da caipirinha e engoli meia banda de limão, quase engasguei. Geraldinho, meu outro amigo olhou pra mim e começou a rir.
"Eita, viu alguém em especial?"
Acenei que sim e já parti pra fora do bar, capengando ridiculamente entre as pessoas. Que bosta! Duas doses de tequila e uma caipirinha e pareço um pião de roda sem direção. Passo pela porta e encontro a senhora bem ao meu lado, ela me olha e vira o rosto me ignorando. Deve pensar que sou outro que vai lhe dar às costas.
Respiro fundo e pego no seu braço.
"Oi" – Como sou horrível nessas abordagens, "oi?????" – onde você vai arranjar mulher com um "oi"??? – Grita o "meu id safado" pra mim.
Ela olhou para minha mão segurando o seu braço e depois me encarou, ficou me olhando séria e deu uma leve fungada no nariz.
"Olha eu tive uma noite horrível, ok. Se for outra sacanagem...."
Interrompi.
"Que sacanagem, eu nem te conheço, eu achei você uma mulher interessante e vim atrás, só isso."
Ela parou de falar e ficou me olhando desconfiada.
"Ah, olha cara, eu não tenho tempo pra isso..."
Vi, que não ia resolver ficar explicando algo de que nem eu sei pra ela e já lasquei a "botina na porta".
"Gostei de você... Só isso, não pode?"
Ela então ficou me encarando por alguns instantes calada.
"Tá a fim de sair daqui e dar uma volta?", perguntei.
Ela ficou me olhando não acreditando no que tinha falado e apenas balançou a cabeça positivamente.
"Ok, deixa só eu dar um telefonema."
Falei com o Geraldinho para me emprestar o carro por algumas duas horas (é assim mesmo, algumas duas horas), e ele, ainda que relutante, deu parecer positivo. Veio até a porta e me olhou com uma cara de sacana e jogou a chave do seu Pálio em minhas mãos.
"Vê se não demora bicho!"
Nada falei e já fui chegando na "dama de vermelho".
"Vamos, consegui o carro do meu amigo."
Dentro do carro ela se soltou um pouco mais.
"Você sabe que eu sou da vida, né?"
"Sim."
"Então sabe que tem um preço."
Passei de leve uma das minhas mãos em seu rosto e acariciei o lóbulo de uma de suas orelhas, sorri e ela então ficou aturdida, coisa que nem eu imaginei.
Um pouco acanhada ela virou o rosto de leve e sorriu de fato.
"É uma droga de vida, sabia? Você já deve ter visto que eu sou péssima nesse tipo de situação", lamentou ela.
"Não importa, eu tô um pouco bêbado, mas não o suficiente pra causar um acidente viu. Mas eu to lúcido o suficiente pra saber o que eu quero", falei.
Ela se apresentou como sendo "Tetê", de Tereza – se é nome verdadeiro? Nunca mais vou saber. Contei pra ela que havia vindo de uma paixão fracassada, onde os resquícios de minha dedicação pela mulher que partiu, haviam me atingido de forma tão cruel que já havia perdido o rumo da minha vida amorosa, precisava então de uma aventura, de uma pessoa que me desse o firmamento necessário para que pudesse sentir a realidade da vida e me jogasse de frente ao pecado.
Nossa! Eu viajei demais com a conversa e ela me ouviu. Depois me falou que não tinha experiência na vida que resolveu seguir, que havia caído na noite há pouco tempo, era divorciada e o ex-marido nunca havia lhe dado um filho, mas fez questão de deixar ela sem nada.
Ela pediu para encostar o carro num residencial, cheio de apartamentos parecidos. Estacionei o carro na garagem e subimos as escadas, com ela me puxando pela mão. Entramos então num apartamento bem arrumado, todo branco, até os sofás eram brancos. Perguntou se eu queria beber algo, e disse que não. Ela então colocou um CD de baladas e se aproximou de mim, abaixei os meus olhos e ergui minha cabeça. A peguei pelo braço e a trouxe junto ao meu corpo, ela colou em mim e pude sentir o perfume de flagrância cara invadir meus sentidos. Era fraco demais para perfumes tão dóceis.
Ela passou a língua no meu pescoço e mordi o seu queixo. As mãos delas passearam pelos meus ombros e a colhi pelas costas, arranhando com os dedos do cóccix até a nuca, num passeio sinuoso e lento de carinho e massagem.
Ela arfou em minha boca e resolvi tirar o seu batom com os meus lábios. Os cabelos longos passeavam por minhas mãos que abraçavam com afinco, enquanto ela passeou com seu pescoço em investidas lentas sobre o meu rosto e pescoço.
Ela era pequena, e a peguei no colo, aninhando nos meus braços enquanto a beijava, senti que Tetê se arrepiava e a sua pele atenuava uma leve febre. Em um daqueles flashes de observação, eu fiquei imaginando que tipo de carência teria essa mulher, que transparecia ser tão experiente.
Ela me apontou uma porta de um curto corredor e adentramos. Havia uma cama de casal e uma grande poltrona. A pus no chão e ela desabotoou minha camisa, fiquei arrepiado então quando ela deu leves mordiscadas no meu pescoço e sua língua safada desceu sobre os meus mamilos. Não contive e ergui sua cabeça, ela me olhou lânguida e eu disse que naquele momento eu queria cuidar dela.
Abri o zíper do seu vestido e conferi que realmente ela usava um sutiã daqueles de poliamida, da Triumph, de cor vermelha e uma minúscula calcinha da mesma cor. A sua tez morena contrastou lindamente e nos alto de seus 44 anos ainda transparecia ser uma mulher muito bonita (é verdade mesmo, tinha suas celulites e estrias, é claro, mas não tinha visto nenhuma cicatriz e apresentava uma rigidez de carne típica de quem malhava, o que depois ela confirmou pra mim)
Ela ficou nua e depois completei tirando a minha roupa. Deitei na cama e ela sentou em cima de mim. Com volúpia desenhou sobre a minha pélvis uma dança do ventre. Ela me dominou e logo esqueci por incríveis quarenta minutos que a madrugada tinha fim e que existia um mundo real lá fora.
Na despedida, depositei um valor X sobre uma de suas mãos e ela sorriu com um ar de moleca. Me convidou para repetir o programa, e apenas concordei lhe beijando as mãos.
"Qualquer noite, qualquer madrugada... Quem sabe né".
Ela fechou a porta de seu apartamento e fui embora, ao encontro dos meus fiéis amigos que ainda estavam no Informal.
Pra variar os dois estavam "trêbados" e eu lúcido, com um som de harpa na cabeça e pensando em anjos. Entreguei a chave do carro ao meu amigo Geraldinho e fui a pé pra casa – eu moro perto do pub.
Dias depois contei a história para os caras e em outra madrugada no Informal lhes mostrei a senhora que me deu uma noite inesquecível. Ela estava bonita, mas agora parecia dileta, seletiva e com um ar superior. Me acenou de longe com um sorriso estrelado, enquanto um homem maduro, bem vestido, acariciava uma de suas mãos.
-
Crime sem intenção é andar ao seu lado e revelar que na verdade tudo se resume a um olhar perdido no horizonte. Poder chorar em seu ombro e contar os segredos dos meus problemas. Amizade é confiar na sua sinceridade e receber um sorriso quando se precisa de uma lágrima.
A vida é uma constante de altos e baixos, alegrias e tristezas, surpresas e obviedades. Respeitar o andar do seu tempo, o gesticular inerente da sua reação e a mensagem das expressões físicas que o seu corpo transmite, me vale como referencial do limite que devo permanecer para sempre poder sorrir com suas histórias e temeridades.
Existe dia pra tudo, existe data comemorativa para quase tudo, mas não existe palavras sinceras a todo momento, pois a vida é feita de instantes (ou instantâneos), e esses momentos são como pequenas armadilhas, jogos particulares de uma intimidade que não queremos nunca mostrar, mas apenas pincelar e dar como pílulas às pessoas que são próximas. Ao amigo, enfim, vale um pouco mais de demonstração da realidade que vivemos e/ou ensejamos.
A amizade se escreve no valor de nossas razões pessoais para que saibamos dar o valor exato do que sentimos pela presença do amigo (a). Não existe contenção, não existe peso de palavras ou demonstrações pessoais de carinho ou raiva. O sentimento de amigo é igualitário àquelas pessoas que mais amamos. Por isso amizade é a real transformação do sentimentos entre a adoração e o ódio, num peso ordinário de subjeções e certezas imaginárias.
Não entenda, subentenda minha palavras ou busque significados e definições pré-estabelecidas ao que eu quero passar, mas apenas viva e deixe viver os seus instintos e esqueça suas temerosidades. Mas, tenha apenas uma certeza, amigo é aquele que antes de lembrar o seu aniversário, lembra que você existe para todos os dias e peca por ser excessivo em sua preocupação.
Houve um físico alemão no século passado que vez ou outra tinha a visão privilegiada das relações humanas, experiência dotada de sua vivência e observações da natureza humana no que diz respeito às emoções. O nome dele era Albert Einstein...
Ele então escreveu sobre o valor da AMIZADE:
"Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.
Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.
Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.
Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.
Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.
Há duas formas para viver a sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre."
Há muito, muito, muito tempo...
Incrível, mas às vezes é necessário repetir uma inspiração para tentar compreender a admiração que sinto. O ônibus de linha que eu pego para vir trabalhar, o Círcular I, estava cheio, era um pouco depois das oito e quinze da manhã e havia esquecido que a moça bonita que lia Gabriel Garcia Marques, subia duas paradas depois da minha. Ela entrou e passou pela roleta, como não havia nenhuma cadeira para sentar ela ficou olhando em volta e em seguida encontrou os meus olhos lhe admirando.
Claro, ela não sabia que eu estava admirando-a, mas fiz questão que ela percebesse que os meus olhos lhe direcionavam um interesse poético, quase sacro.
Os seus olhos miúdos, escondidos por trás das lentes de grau, me observaram rapidamente e voltaram para vista da frente. Logo depois alguém saiu e ela passou por mim, com os cabelos encaracolados caindo nos ombros. Jeito tímido, sardentinha e um ar de CDF apaixonante.
Sentou próximo de mim, mexeu na mochila de lona e pegou um livreto, folheou um pouquinho e abriu na página que queria. Enquanto buscava leitura, a sua mão direita, com dedos delicados e insinuantes, cuidava de massagear levemente as mechas de cabelos que caiam por sobre a orelha. Parecia mais uma ação repetitiva inconsciente, ainda que fosse um charme. Fiquei, vez ou outra, lhe olhando, capturando cenas para o meu registro ocular e sentimental. Ela me pegou duas vezes lhe encarando e então pude perceber, finalmente, que a linda moça que eu estava flertando notou meu interesse particular.
Sou muito tímido com essas ações quando sei que a pessoa tem um valor intelectual e social incomum, que transcende qualquer tipo de rótulo social vigente e que, definitivamente, não me interessa como expressão.
Ela parecia galgar um degrau acima dos normais, talvez por uma empatia imediata da minha parte, ou apenas um devaneio singelo, carregado de simbolismo feminino, quanto aos atrativos íntimos que me atraem numa mulher. Ela parecia alcançar e transcender todos eles.
Havia o gesto calculado, delicado, feminino, não linear com as ações que corriam em sua volta – e olha que vinculei apenas a um universo claustrofóbico e genérico que é um coletivo, um micro-coletivo (diga-se de passagem), onde tudo parece tão próximo, ainda que estejamos distantes em mundos totalmente distintos e vidas bem separadas.
É naquele micro-universo reinante do cotidiano massacrante de algumas vidas, como a minha, é que me permito vislumbrar, coser sonhos e devaneios em torno daquela figura tímida, pequena, linda, perpetuamente inspiradora para um poema.
Continuo não sabendo o seu nome, continuo não sabendo nada da sua vida, mas ela sabe tudo dos meus sonhos mais românticos e intensos. Como é isso?
Não sei, só sei que tem certas situações que o universo conspira para que seja como nunca esperamos, mas sempre desejamos.