segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Breves momentos que eu não queria sentir

Escreve de olhos fechados e tenta compreender o sentido de tantas coisas que ocorrem em sua volta, mas a vida dá voltas e uma surpresa altera o seu momento. Alguém toca o seu ombro e ele se vira. Um dilatado sorriso lhe toca o coração e tudo se concentra em uma emoção genuína. Na vista onírica que dura dois segundos, mas tempo suficiente para processar mil imagens, entre boas e más lembranças, a catarse lhe palpita o coração.

ELE - Tanto tempo e você me aparece assim...! Caramba, eu... Eu... (Segura o engasgo, mas mareja os olhos).

ELA - (Contida, mas emocionada) Não diga nada... Tanto tempo mesmo... Me dá só um abraço.

Ambos se abraçam... O espaço parece diminuto e único. Luzes piscam,uma música parece surgir do nada e ela comprime sua cabeça no ombro dele, sente o perfume doce do almíscar e os braços aconchegam com um leve aperto as costas. Ele, deixa-se levar pela nuvem fina dos cabelos castanhos que passam por seu olhos e nariz. O aroma cítrico, enebria, torna tudo ainda mais confortável e prazeroso.
Parece durar uma vida, mas é tão pouco tempo, o suficiente para sentir o arfar no peito, a respiração alterada - cheia de suspiros disfarçados.

ELE - Como você pode continuar assim?

ELA - Assim como eu sempre estive? Chata, metida, resmungona e tua amiga?

ELE - Quase isso, mas faltou o linda...

ELA - Nem tanto, ainda continua tão cego quanto esse óculos de grau que usava na faculdade... (ri da graça).

ELE - Quanto tempo vai ficar dessa vez?

ELA - Talvez dois dias, vim só visitar os meus pais e pegar algumas coisas que esqueci no meu quarto de solteira. Livros, CDs e algumas anotações para um livro.

ELE - Puxa, quando você disse no MSN que ia ser rápida não imaginei que fosse assim, tão "rápida". Mas... Bom, é tudo tão diferente agora.

ELA - Muito diferente, você sabe. Há quatro anos que eu não venho e... Bom, sei lá, é estranho ainda me deparar com algumas coisas. - (Olha com carinho para ele).

Tudo tão contido, é a emoção trespassada pela espada da realidade, como uma dor magoada. Mas ele sabe que não pode se deixar levar por sentimentos que jurava ter apagado. Hoje é tudo diferente.

ELE - Você é feliz e isso é que me importa.

ELA - Muito feliz, você não sabe o quanto, mas...

Ele estranhou a parada e a interlocução - sentiu uma leve pontada de uma esperança que estava morta.

ELA - Mas é tudo ainda novo pra mim. Passei a conhecer um lado de vocês, homens, que eu desconhecia. O dia dia, a convivência, o trato com a realidade de um casamento me levou a domar minha impetuosidade e a controlar mais meus instintos...

ELE - Sério? Mas não deveria ser ao contrário, afinal vocês agora são ligados intimamente e possuem laços significativos que superam a relação do namoro. Bom, não quero me intrometer.

ELA - Não, não está se metendo, tá tudo bem. O que quero dizer é que agora, puxa, complicado, mas eu me dedico mais a uma pessoa e não só a mim, então tenho que aprender a lidar com certas coisas que eu não sabia como enfrentar. Domar e controlar foram maneiras que eu encontrei para manter o equilíbrio da minha relação de casada.

ELE - Estranho, eu não consigo te ver desse jeito. Mas você é muito feliz assim, isso é que importa.

ELA - Tive que superar minha imaturidades com o tempo, mas estar ao lado do meu marido, hoje, me ajudou a acelerar esse processo.

Ele sente espairecer o sentimento de emoção genuína. O coração desacelera rapidamente e ele sente que a temeridade que sentia antes, de não controlar o impulso de querer beijá-la na boca, perdeu sua força. TOTALMENTE.

ELA - (Abaixa os olhos e olha diretamente para o seu peito, como uma menina tímida) Você tá com alguém?

ELE - (Com um sorriso maroto) Tenho uma pessoa sim. Ela é linda, tem um carinho especial por mim, me trata como um rei e a amo mais do que a minha vida.

ELA - (Olha diretamente para os seus olhos e dá um sorriso de canto) Você merece, sabia? Sempre imaginei que encontraria alguém tão especial que lhe daria tudo aquilo que um dia eu sonhei em te dar, mas não saberia como...

ELE - (Levemente desapontado) É... Não importa mais, faz tanto tempo isso e... Puxa, você tá hoje aqui e somos os melhores amigos do mundo que poderiam se encontrar e festejar.

ELA - (Desconcertada) Qual o nome dela?

ELE - Petra.

ELA - Diferente, mas muito bonito. Deve ser muito especial para você...

ELE - Muito mesmo.

Abre um silêncio emocional. Ele olha para ela com compleição. Ela revira os olhos, sacode os braços e dá um sorriso. A música interior parece subir o volume e todos em volta dos dois parecem parar para observar a cena.

O silêncio é respiração ficcional, mas o lugar é o ideal. Praça do centro da cidade, pouco depois das 18h00, com um lindo pôr-do-Sol caindo no horizonte e a brisa vindo do rio balançando os cabelos dos dois.

ELE - Você vai para onde agora?

ELA - Devo ir até a casa do meu irmão, você não quer ir junto? Vamos!

ELE - Não, não vai dar, bem que eu queria ir...

ELA - Então, vamos lá!

ELE - Devo me encontrar com Petra, mas poderíamos nos ver amanhã em algum ponto.

ELA - A Petra, não vou atrapalhar. Mas, sim, vamos, vamos marcar algo para amanhã sim.

Ele pega o número do celular dela. Ela sorri e passa a mão nos cabelos dele, colocando alguns fios pendentes para trás da sua orelha. A brisa fresca lhe toma os olhos, que ficam semi-cerrados.

ELE - Hora de ir.

ELA - Eu sei... Tão bom te ver, sabia.

ELE - Eu sei, o sentimento é o mesmo. Muito feliz por você.

Ela deixa o silêncio ficcional tomar conta de novo. Entrelaça os dedos rapidamente e suspira levemente. Ele faz um carinho no rosto dela e sorri com satisfação.

ELA - Posso te falar uma coisa?

ELE - Pode.

ELA - Como chegamos até aqui?

ELE - Como assim?

ELA - Numa praça, com sentimentos de felicidade e nostalgia, prestes a ver que continuamos tão próximos...

ELE - Páre com isso, somos velhos amigos se revendo apenas isso. Deixe eu pensar dessa forma ok?

Era tão tarde para rever velhos sonhos, declamar antigos poemas primaveris de tardes na faculdade de comunicação. Tarde demais para lembrar das canções tristes que embalaram o baile de formatura. Ela sabia que no minuto final de ir embora, naquele momento, tudo se apagava e começava uma nova era.

ELA - Verdade. Tchau meu lindo amigo.

Ele apenas sorriu, tocou o seu rosto mais uma vez e foi embora.

ELE - Tchau...

Caminhou e ainda podia sentir o seu perfume cítrico em suas mãos. Tantas emoções, tantas dores.

Mais tarde em seu apartamento. Ele abriu a porta, suspirou profundamente e pôde sentir a força da tristeza. Seus olhos encheram de lágrimas e ele sentou no sofá. Arfou e logo sentiu o calor do afago de sua poodle.

ELE - Obrigado pelo carinho Petra. Te amo!

Um comentário:

Carla disse...

Vir aqui é tão bom, ler o que você escreve. Mais uma vez, tocou meu coração.