terça-feira, 3 de novembro de 2009

Geral na netesfera - Miudezas I

MUNDO CANI I

Nada de novo, na terra (quase) sem lei. Um mototaxista morreu no domingo (01/11) atropelado por um motorista, supostamente embriagado que vinha dirigindo uma caminhonete. O fato ocorreu na zona Leste de Porto Velho. O detalhe é que o motorista é servidor do Estado. Até aí, a ocorrência de imprudência no volante parecia corriqueira. Outro detalhe, ele estava dirigindo uma caminhonete oficial utilizada pela Secretaria de Estado de Administração (SEAD). Deixa eu ver se entendi, servidor público do estado mata mototaxista com carro oficial de Secretaria do Governo do Estado. Que merda, heim... A notícia está AQUI.

LUA CHEIA

Noite de lua cheia me trazem ótimas lembranças de um dos mirantes da capital (RO). Vento vindo do rio Madeira, noite calma e pessoas conversando em mesas de bar. Nada de Calipso e Déja Vu nos carros de som, apenas calmaria e o barulho do burburinho. O tempo passa devagar e tudo parece eterno no sorriso lindo daquele que nos acompanha. É lua cheia.

BASTARDOS

O filme do Tarantino não sai da minha cabeça. Impressionante o como ele sabe conduzir uma história que parece reciclada de outras, mas que ainda parece original, novinha. Não resisti e fui assistir o DVD de "Pulp Fiction", continua brilhante. Na minha crítica sobre o filme já havia apontado que "Bastardos Inglórios" estava na minha lista dos melhores de 2009 e é verdade. Não considero o melhor Tarantino, "Cães de Aluguel" e o "Pulp..." ainda são meus preferidos, mas o cara é o nerd mais cinéfilo que o cinema já produziu.

LENDO

Comprei a edição do 3º aniversário da Rolling Stones Brasil, a matéria especial sobre as melhores músicas brasileiras de todos os tempos é um must. Listas desse gênero, como se sabe, foram feitas para serem contestadas e na próxima edição da RSB deve chover de e-mails com críticas e sugestões, afinal apontar "Construção", de Chico Buarque, como a melhor música brasileira de todos tempos, bicho... não sei. Ainda bem que a soporífera "Ana Júlia", de Los Hermanos, ficou com 100ª colocação.

LENDO II

Aproveitando a deixa voltei ao exemplar de outubro da Rolling Stones Brasil para ler, finalmente, a matéria sobre o fim dos Beatles. Matéria "do caralho", diga-se de passagem. Impressionante como os four fabs desgrigolaram sua relação com detalhes óbvios, ou seja, grana, superexposição e a piração do casal Lennon/Yoko Ono. Os meandros da separação dolorosa, cheia de egos partidos, brigas e interesses diferentes que derrubou a maior banda de rock de todos os tempos. Falar nisso continuo lendo em pílulas a biografia da banda, que tem quase 1000 páginas, escrita por Bob Spitz.

LENDO III

Se não bastasse ter lido um dos melhores livros quadrinhos do ano com "Retalhos", de Graig Thompson, estou me deleitando com a última obra do gênio Will Eisner, "O Complô - A história secreta dos Protocolos dos Sábios do Sião", que tem a introdução do historiador Umberto Eco. É uma pesquisa minuciosa e uma aula de narrativa de Eisner que rebate com propriedade uma das maiores farsas já propostas pelo czarismo contra os judeus e que Hitler utilizou como base para o extermínio de uma raça através do holocausto. Leitura com quadrinhos, como deveria ser feita pelos nossos historiadores. O livro/quadrinhos é da Cia. das Letras.

HELICÓPTEROS

Meu amigo jornalista Celso Gomes, da assessoria de comunicação do Tribunal Regional do Trabalho - 14ª Região, me informou pelo MSN que a Base Aérea de Porto Velho recebeu 12 novos helicópteros russos para "upar" nossa frota aérea. Vai rolar matéria no Rondoniaovivo.

ELEKTRA VIVE

Um dos maiores clássicos das histórias em quadrinhos acaba de ganhar relançamento, se trata de "Elektra Vive", um álbum de luxo lindamente escrito e desenhado por Frank Miller, que ainda estava no auge da criatividade, e pintado em guache pela sua esposa, Lynn Varley. Foi o fechamento que Miller queria dar a personagem que criou para as revistas do Demolidor na década de 80. Elektra Natchios havia se transformado numa assassina mortal e o grande amor da vida de Matt Murdock (o alter ego do Demolidor, o herói cego), até ser morta de forma chocante pelo assassino Mercenário. Na história Matt ainda está traumatizado pela perda brutal de seu amor, até que uma organização secreta, Tentáculo, consegue ressuscitar Elektra para ser utilizada como uma assassina mais letal, só que ela ainda guarda lembranças da sua morte e do seu amor. O relançamento é vital para fãs do personagem, mas também para quem gosta de obra de arte, cada página desenhada e pintada parece um quadro, cheio de detalhes e cores impressionantes. O melhor é que tanto a edição original quanto este relançamento está sendo feito no seu tamanho gigante (30 cm x 23cm), impresso em papel couche. Você pode conferir AQUI - E olha que tá barato, R$ 14,50.

domingo, 1 de novembro de 2009

CRÍTICA - “Bastardos Inglórios”, de Tarantino, periga ser um dos melhores filmes do ano


É notável o poder de manipulação e a inserção de referências cinematográficas na obra do diretor Cult/pop Quentin Tarantino, o seu mais recente filme, “Bastardos Inglórios” (Inglourious Basterds/2009) é um caldeirão referente as dois gêneros distintos, mas interligados pela comoção vingativa, os filmes de guerra e os western – nesse último, com dose maciça ao western spaghetti do mestre Sergio Leone.

“Bastardos...” é uma fita que homenageia um filme de ação italiano situado na 2ª Guerra Mundial chamado “O Expresso Blindado da SS Nazista” (Quel Maledetto Treno Blindato/1978), dirigido por Enzo G. Castellari, que por sinal faz uma aparição no filme de Tarantino interpretando a si mesmo. Mas é também uma variação do tema dos soldados norte-americanos que buscam vingança contra os nazistas e planejam um ataque suicida, como ocorre no clássico de guerra, “Os Doze Condenados” (The Dirty Dozen/1967), de Robert Aldrich.

Mas é na fonte dos western spaghetti que Tarantino tira suas melhores inspirações, desde a escolha da trilha sonora do maestro Ennio Morricone até a abertura belíssima do filme ao mostrar uma fazenda francesa, enquanto um homem corta lenha e ao longe, por uma estrada empoeirada se aproxima uma guarda nazista, que a primeiro momento não se reconhece, mas, logicamente, se sabe.

A música que toca ao fundo é do filme “O Álamo” (Alamo/1960), filme protagonizado e dirigido por John Wayne, mas o plano aberto e os cortes para close nos olhos, a expectativa e o campo como cenário parece saído de “Três homens em conflito” (Il Buono, Il brutto, Il cativo/1966) e “Era uma vez no Oeste” (C'Era Una Volta Il West/1968), ambos de Leone.

Dividido em blocos distintos, com capítulos e títulos, mas seguindo a ordem cronológica dos fatos que quer mostrar, Tarantino apresenta aqui uma liberdade grande do que não está na história e só ele consegue fazer um filme em que os fatos narrados são utópicos, por isso mesmo dividiu a crítica européia. Em Cannes o filme foi recebido friamente. Mas “Bastardos Inglórios” era o filme sobre a 2ª Guerra que Quentin Tarantino sempre sonhou em fazer e da sua forma, com citações referentes, com diálogos espirituosos e bem feitos, situações explosivas (literalmente) e com personagens difusos – perceba que o diretor é capaz de criar personagens inesquecíveis, mas apenas o suficiente para as situações propostas no filme. Proposital ou não, o diretor não quer que nos “apegamos” demais aos personagens, mesmo os ditos “mocinhos”, que são tão amorais quanto os seus antagonistas.

No filme, logo no primeiro capítulo, um oficial da SS Nazista, coronel Hans Landa (Christoph Waltz,em extraordinária atuação, roubando todas as cenas em que aparece), conhecido como “Caçador de Judeus”, vai entrevistar um fazendeiro francês, Perrier LaPadite (Denis Menochet), suspeito de ter escondido uma família judia. No encontro, Hans Landa, apresenta o seu poder de persuasão e raciocínio lógico para conduzir a conversa até onde ele quer, para obter sucesso na sua missão. É um feeling notável de tensão e expectativa. Desse momento nasce o estopim para um plano de vingança incrível contra o generelado alemão.

Depois somos apresentados ao grupo de soldados norte-americanos judeus liderados por Aldo Raine (Brad Pitt, careteiro, mas sem comprometer) cuja missão é matar o maior número possível de nazistas, das formas mais violentas que for, mas, principalmente, usando o “escalpelo” como marca registrada.

Tudo poderia cair no exagero e ridículo se não fosse o fato de Tarantino ter um poder de manipulação notável, como toda a sequência em que o próprio Adolf Hitler (Martin Wuttke) aparece, irado com a barbárie que vem disseminando os seus soldados pela tropa de Aldo Raine e assistimos através da narrativa de um soldado sobrevivente como age os soldados judeus - com um humor negro para poucos.

Mas é através de uma francesa judia, Mimiex/Shosanna (Mélanie Laurent), que gerencia um cinema , que se conhece o soldado alemão e herói da SS, Fredrick Zoller (Daniel Brühl), que fica encantado com ela, para depois convidá-la para um tenso encontro num Café onde ela fica conhecendo o cineasta Goebbels que dirigiu um filme propaganda para a campanha nazista de Hitler, intitulado “O Orgulho da Nação”, que usa como história o fato do soldado Fredrick ter matado quase 200 soldados inimigos ao ficar confinado por quatro dias no alto de uma edificação com munição suficiente para derrotar um exército. Por sinal Fredrick interpreta a si mesmo no filme de Goebbels.

O diretor do filme e o comando nazista decidem então lançar o filme no cinema de Mimieux, reunindo os generais alemães e até o próprio Hitler. Essa oportunidade é vista como uma chance única de acabar a guerra matando o próprio ditador. Com a ajuda de Aldo Raine e seus soldados a situação é perfeita para o que é chamado pelo comando das tropas aliadas de “Operação Kino”, explodir o cinema com todos os generais do alto comando nazista dentro. Para isso Aldo conta com a ajuda da atriz alemã e agente infiltrada Bridget Von Hammersmark (Diane Kruger, a Helena de “Tróia”). Mas, Mimieux, a dona do cinema elabora uma vingança ainda mais cruel, junto com o seu parceiro - um afro-descendente que é amante e projecionista -, em vista do sofrimento que passou ao ver toda sua família ser morta pelos alemães.

Expor todas as sequências de “Bastardos Inglórios” seria estragar também momentos incríveis, como a catártica e violenta cena do bar, ou ainda desconsiderar o ápice da vingança num final apoteótico, ainda que exista um epílogo irônico e perfeito.

O filme tem outras referências que faz a graça de qualquer cinéfilo. Basta dizer que no capítulo um além de Leone, a cena da porta aberta na sua conclusão é uma citação clara do clássico western de John Ford, “Rastros de Ódio” (The Searches/1956). A apresentação da personagem de Shosanna/Mimeux, no capitulo 3, é uma homenagem ao cineasta François Truffaut (um dos criadores da Nouvelle Vague francesa).

Em determinado momento do filme a música-tema de “O Dólar Furado” se integra a cena de forma precisa e harmoniosa. Tudo está bem para Tarantino que sabe casar catarse com referência, a despeito de qualquer maniqueísmo risível, mas é preciso, calculado e muito bem feito.

Entre as curiosidades do filme basta dizer que um dos soldados judeus de Aldo Raine é interpretado pelo cineasta Eli Roth (diretor dos trashes “Cabana do Inferno” e os dois “Albergues”), ele faz Urso Judeu Donny, que sempre usa um taco de baseball para matar os nazistas – ele tem uma sequência violentíssima no início do filme. Eli Roth é também o diretor responsável pelas cenas do filme “O Orgulho da Nação”, que é exibido no cinema para os nazistas.

Os cartazes dos filmes mostrados nas paredes do cinema de Paris são verdadeiros e servem para Tarantino homenagear alguns cineastas importantes da história do cinema, como: Clouzot, Anthonio Margheritti, Ulmer, Pabst e até a discutível, mas importante documentarista alemã Leni Reifensthal.

Mas vale ressaltar que apesar de todas as referências citadas e ainda outras que escapuliram, o filme funciona perfeitamente sem precisar saber delas, pois é incrível como Tarantino consegue reciclar à sua maneira velhas histórias e criar algo novo. Não é o retrato real dos fatos que fizeram da 2ª Guerra um dos momentos mais importantes do século 20, mas a maneira particular de como ela deveria ter sido para aqueles que acreditam em utopia e/ou buscam apenas diversão. Pode agradar uns e aborrecer os mais ranhetas, mas desde já, para mim, é um dos melhores filmes de 2009.

“Bastardos Inglórios” está em cartaz no Cine Araújo, no Porto Velho Shopping .

TRAILER



sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Ainda o iNeo 2009 em Porto Velho - Coletiva com Marcelo Tas

Me perdoem leitores internautas do meu blog. Vou postar um vídeo com a entrevista coletiva do Marcelo Tas quando participou do iNeo 2009, em Porto Velho (RO). O perdão é por causa da edição, pois a imagem está fora de sincronia do áudio. Mas dá para assistir legal e o Tas fala coisas bem interessantes. Como eu já havia mencionado no meu álbum de fotos no TwitPic, Marcelo Tas é o "CARA".



sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Participação no iNEO 2009


A insustentável leveza do ser é uma abertura de texto muito boa, mas é também um livro incrível do escritor tcheco Milan Kudera. A "insustentável" porque a participação de uma figura referencial na mídia como Marcelo Tas em um evento de tal envergadura - o iNeo 2009 - é um presente e, portanto, seria insustentável não tê-lo como mediador e palestrante - não é puxasaquismo, o criador do repórter Ernesto Varela é um mestre midiático mesmo.

A "leveza do ser" é a configuração da qual o meu espírito sentiu quando pude expor algumas das minhas idéias sobre o jornalismo como função social e o auxílio das redes sociais nessa "equação".

Agradecer ao Fred Perillo, organizador e coordenador do evento, que me proporcionou um momento único, uma das melhores tardes de 2009. Na verdade eu sou muito tímido com essas coisas, falar em público, porém, falar de duas paixões que tenho entre tantas me motivou a falar, o jornalismo e as redes sociais - a midiática transformação proporcionada no ciberespaço em unir todas as pessoas em uma "aldeia global" - hello mr. Marshall McLuhan -. Conceber para um público tão receptivo vias de acesso sobre as possibilidade que as redes sociais podem proporcionar no aperfeiçoamento da maneira como eu, jornalista, posso transmitir a informação, transformar dados em algo que catalise (provoque a transformação), me motivou a quebrar um paradigma pessoal e que eu pensava que estava esquecido, desde a época da faculdade.

Mas ver pessoas tão inteligentes, íntegras em emitir conhecimento e absorver dados me deixou à vontade, afinal, eu estava ali pelo mesmo motivo, com a intenção de aprender. Márcia Matos do SEBRAE, mestre Marco Bonito, professor da UNIR e "informívoro" e Alexandre de Oliveira, design gráfico e multimídia, que dividiram a mesa com o primeiro painel do dia do evento, OPORTUNIDADES DE NEGÓCIOS NAS REDES SOCIAIS, foram receptivos e generosos para com todos os presentes e fazer parte desse momento foi muito gratificante.

O evento que se trata de um seminário de conhecimento com o tema Mídias Digitais e Redes Sociais é proporcional ao boom (explosão mesmo) que ocorre em Rondônia. Da mesma forma que está ocorrendo uma transformação social urbana (construções à dar no rodo por conta das usinas do Madeira - seria um dos motivos e não "o motivo"). A necessidade de comunicação, de interagir, mediar a informação com responsabilidade e dar possibilidades às pessoas de estarem juntas através da mídia digital (seja com as redes sociais, webjornais, blogs referente, etc) seria um tema dividido em série que deveria estar na constância de pesquisa e estudos entre estudantes, empresários, publicitários e jornalistas.

O iNEO mostra uma ponta que pode gerar um leque de possibilidades e dar ciência a idéias, concepções e maneiras distintas de unir a mídia (não só digital) com as redes sociais, capacitando a criatividade de estar em evidência no mercado - que oferece oportunidades espetaculares.

TV, internet, celular, redes sociais, são peças intrísecas de um mesmo corpo. Quando William Gibson deixou a marca do cyberpunk com o seu romance NEUROMANCER (1984), motivou as inconstâncias da geração cibernética, onde a frieza da tecnologia sensorial se contrasta da necessidade do homem em estar interagindo sempre com o seu semelhante através de uma rede de relacionamento quase sempre nociva - isso é uma visão libertária e crítica, polida em uma ficção que poderia servir de alerta, mas ainda estamos vivenciando os momentos iniciais da verdadeira REVOLUÇÃO.

O iNEO dá o que pensar, articular e pesquisar. É um dos primeiros passos necessários para motivar estudantes, pesquisadores, empresários e curiosos em participar e acrescer com dados a relação do homem com mídia digital. Essencial em tempos de profundas transformações ambientais, sociais, educacionais e emocionais, grande parte motivadas pelas redes sociais (estaria eu exagerando?)

Que venha iNEO 2010. Fred, mais uma vez obrigado pela ótima tarde que passei ao lado de pessoas tão ilustres e um mediador atencioso.

domingo, 4 de outubro de 2009

“Retalhos”, de Craig Thompson – Meu livro de cabeceira de 2009 (Saiba por que)...




No primeiro momento quando estava fuçando na Bookstore Exclusiva, do Porto Velho Shopping, esperava encontrar alguma novidade relacionada aos últimos encadernados da editora Panini (leia-se quadrinhos Marvel e DC). Aí na sessão específica de quadrinhos e livros juvenis estou mexendo vagarosamente em alguns encadernados caros (“Sandman”, da Conrad, que o diga – mas tava só olhando mesmo) quando minha vista bate na prateleira acima da minha cabeça no livro grosso, cuja lombada está intitulada “Retalhos”, Graig Thompson (quem é esse?). Puxei e a capa já me mostrou bem atraente, o desenho de um casal se olhando – aparentando adolescentes. Seria um romance (em prosa?), aí mexi, folheei e... EUREKA... Era uma história em quadrinhos. Caramba, com mais de 500 páginas.

Os desenhos eram ótimos, quase cartunesco, mas os traços eram familiares, com detalhes e refinamento que lembravam o mestre Will Eisner e na primeira passagem de olhos, lembrava – vá lá, em flashes – o magnífico “Estranhos no Paraíso”, de Terry Moore. Mas era uma impressão boa, daquelas de novidade, quando gera a necessidade de que você precisa conhecer. Não fiz de rogado, 592 páginas, um tijolo literário que valia 49 reais. Ai, ai... Bom, tinha que fazer valer a pena o investimento.

Em casa, no quarto, tive contato com o livro lendo a contracapa, elogios de dois gênios, o escritor e roteirista Neil Gaiman (“Sandman”) e do cartunista Jules Feiffer. Opa, já me animei. Na orelha um resumo dramático e nenhum pouco sutil. “(...) Retalhos trata da tragédia e das dores, físicas e morais.”

Bacana, deve ter um lado deprê onde mostra o amadurecimento do personagem central com sofrimento e questionamentos conscientes. Deve ser também uma narrativa com ritos de passagem, da infância a adolescência, mostrando que a vida é dura. Bom, já tava fazendo juízo da história antes de lê-la, me propondo a investigar mais o conteúdo literário que o seu autor queria mostrar. Situações autobiográficas geram bons momentos na literatura (Ernest Hemingway fez isso muito bem em seus melhores romances).

Em preto e branco, a história – que é dividida em nove partes distintas (“O quartinho”, “O barulho da caldeira”, “Página em branco”, “Estática”, “Eu não quero crescer”, “Espírito jovem”, “Assim como no céu”, “A caverna que sumiu” e “Rodapé”), coloca um fato comum que lembra um pouco a minha infância também, o personagem principal, que é o próprio autor, Craig, conta que dividia a cama com o seu irmão Phil. Eu não dividia a cama com o meu irmão, mas na infância e boa parte da adolescência dividimos o mesmo quarto. Eu moreno, como Craig, e o meu irmão aloirado, como Phil. Coincidência espartana.

Vindos de família cristã, minha mãe é evangélica e conduziu todos os membros da minha família a celebrar isso como uma das diretrizes na educação da gente. Craig e o seu irmão Phil são membros de uma família cristã, que seguem preceitos da Igreja Batista. E fica claro que a temeridade e o respeito perante Deus permeiam a vida dessa família e, principalmente, de Craig, que tornará ponto importante na construção do conceito que ele predisporá nas decisões mais importante da sua vida quando estiver amadurecendo.

Então acompanho a vida, de fato, nada fácil de Craig na escola, sofrendo horrores nas mãos dos meninos mais velhos e metidos, apanhando, sofrendo coação e sem maiores interesses, inclusive na vida escolar. Que estímulo ele teria em ir para um lugar onde apanha e o professor categoricamente o acha um “zero à esquerda”? Difícil. A forma como essa situação se apresenta é delineada com esmero pelo autor. Imagino que deve ter sido dolorido lembrar das partes tristes da vida.

O grande interesse na escrita de Graig é ele permitir se desvencilhar de tabus ou aplacar a verdade de suas lembranças com enrolação, pelo contrário, ele vai direto ao ponto dos seus medos vividos na época retratada, expondo situações críticas e dramáticas que podem soar comum (ou não), como o abuso sexual que é retratado de forma delicada e precisa – notável como ele deixa pistas conclusivas, para depois em um devaneio quase erótico expor com um texto limpo e recheado de conclusões observadas com experiência de quem vivenciou.

Mas não é só isso, o fato dele entrar em constante conflito com a educação religiosa rígida a que foi submetido pela família, a sua vida entra numa imersão de dúvidas entre o que é certo e errado, na medida em que cresce e tenta galgar experiências necessárias para o seu amadurecimento. O autor dispôs a desnudar de maneira contundente a sua visão.

O legal é que a história de Craig é situada numa comunidade rural provinciana onde a expectativa de vida para um jovem é quase nula, pois é aquela vidinha que anda em círculo, onde pouco ou quase nada há o que se fazer além de viver com muita imaginação e participar de programações habituais da igreja onde vive. A cidade localizada no Estado de Wisconsin vive constantemente em um inverno rigoroso sua maior parte do ano, por isso mesmo as lembranças retratadas por Graig são marcantes, aduladas em poesia visual (retratos lindos, quase psicodélicos que mostram neve, frio, ondulações imaginárias, vento e corpos) e texto sereno, real, sobre um fio condutor inabalável, entre o lírico e o bruto (paradoxo, mas no ponto exato).

Parece um expurgo das dores juvenis, mas feita de maneira tão bonita, com momentos de puro êxtase visual, acolhido numa narrativa emocionante.

Quando Craig conhece Raina, sua primeira paixão, a amiga que passa por um problema emocional ao saber do divórcio dos pais, e ele resolve passar duas semanas na sua casa, eu, e imagino todos que leram, torcem para que as coisas dêem certo para Craig. De fato, são naqueles 14 dias que Craig vai compreender muitas coisas sobre família, culpa, desejo, paixão, amor, amizade, perda e responsabilidade.

Os pensamentos e constantes diálogos com Raina, sua paixão, correspondida, é onde ele mostra sua verve na composição de uma trama limiar em uma família que, apesar de boa, vai se desestruturando por causa da separação e isso reflete nas decisões conflitantes que serão tomadas no decorrer da história dos dois, quase almas gêmeas, ainda em aprendizado.

Um diálogo em particular, lindo, intercala os momentos de lucidez e delírio de paixão do casal.
Os dois estão deitados no chão, em torno de algumas velas, e eles travam o seguinte diálogo:

“Craig... Você acredita em Deus?”

“É claro.”

“Eu também... Mas não acredito no CÉU.”

“É?”

“Não tenho fé no futuro... Seja ele perfeito ou abominável. Se a Sarah morresse hoje, ela iria para o CÉU ou para o INFERNO?”

“Pro céu, acho.”

“Mas obviamente ela é meio nova para todo aquele esquema de ‘TRAGA-ME-JESUS-PARA-O-SEU-CORAÇÃO’.”

“Sim. Acho que acredito em PERÍODO DE CARÊNCIA... No qual todos têm passagem AUTOMÁTICA para o céu antes de chegar à idade em que ENTENDEM a mensagem de Deus”

“Você acredita mesmo nisso?”

“Bom... É só ESPECULAÇÃO...”

“Com que idade essa ‘CARÊNCIA’ acaba? Cinco? Seis anos?”

“Foi por aí que e fui ‘SALVO’.”

Não posso desfiar mais o que desenrola na história para não estragar as surpresas e momentos que a narrativa é conduzida. Um retrato emocionante, onde Craig, quando volta da sua experiência com Raina, sabe que deverá tomar decisões importantes e que afetará inclusive a sua família, o modo de ver, de pensar e viver, contrariando alguns e promovendo um amadurecimento vital naqueles que ele ama, ainda que isso possa abalar sua fé, ele chega ao fim inteiro e contente com as decisões tomadas, mesmo que a sua educação religiosa seja incisiva para reiterar sua visão de situações íntimas e pessoais das suas ações, herança da sua igreja batista.

Momentos de pura inspiração em que Craig trava uma guerra particular de culpa e desejo, quando confronta a sagrada escritura – principalmente Coríntios – com a explosão de seus hormônios, por sentir paixão e tesão por Raina. E tudo, texto, ação, diálogo, citações bíblicas formam um painel coeso, às vezes delirante, mas tão lírico, humano, que somos capazes – digo leitores sensíveis – de adentrar ao universo de Craig com uma intimidade de velho amigo que ler aquelas cartas - sempre surpreendentes pelas revelações contidas.

Quando eu acabei de ler “Retalhos” imaginei que trilha sonora poderia compor a leitura e não imaginei canções mais apropriadas do que as das bandas The Shore e Athlete. O tom e a métrica baladeira, com o misto de folk, rock, pop é perfeito.

É ouvir canções como “I Love” “Stand Int The Sun” e “You Got The Style “, do Athlete, e as lindas “Take What’s Mine” e “Waiting For The Sun”, do The Shore, para visualizar muitos trechos da vida de Graig retratada no livro/HQ.

“Retalhos” foi lançando originalmente em 2003 lá fora, quando o autor tinha 27 anos. Depois de lançado foi dos livros (no gênero HQ chamado de “Graphic Novel”) mais premiados em todos os tempos, ganhando prêmios reverentes do mundo da HQ, como o Eisner e o Harvey Awards nos EUA (2004) e prêmio da crítica francesa no Festival de Angoulême (2005).

sábado, 19 de setembro de 2009

Ode triste para uma canção bonita de solidão

Clique no Play e depois leia suavemente...



Era tão sozinha em sua beleza involuntária
Caminhava com calma sobre a chuva fina do final de tarde
E a passos lentos imaginava que mundo era esse
Que mundo mundano transformava seus medos
Em monumentos intransponíveis de alegria e rejubilo
Não sentia encanto...
Mas caminhava, chutava com os pés descalços as poças
E o tempo parecia ligeiro
Rápido demais para o que ainda estaria por vir
Não sorria, não sentia, não chorava, apenas caminhava
E tinha também as lembranças
As dores nunca esquecidas
Os falsos elfos da infância vivida
E os rostos amigos, das crianças em flashes
As mãos trêmulas, o coração palpitante
A boca seca e o frio na barriga...
Poderia ser um beijo e nada demais, assim como também
Poderia ser correspondida pelos olhares perdidos da timidez
De alguém tão próximo.
Queria poder lembrar mais, sentir as mesmas emoções
Da inocência, das primeiras experiências
E tudo, o mundo poderia estagnar, parar o seu tempo
Queria harmonia do viver com o desejo realizado do querer
Ainda sim, sabia, tudo poderia se um sonho bom, ou em seu extremo
Um pesadelo infindável... De dor e solidão
Como agora, onde tudo parecia longe... sobre a chuva fina
O frio era o calor da companhia que lhe foi oferecida
Ainda que pudesse sentir sob os pés, o chão frio, os pedregulhos mais salientes
A dor física era momentânea diante da real agonia que vivia
Tão nova, tão linda, tão poema, tão, tão... E nada disso fazia sentido
Um vazio desumano dilatado em emoções intensas
Na beira de uma síncope de emoções presas, desguarnecidas
Ebulidas e presas como um espasmo diletante.
É vida tão pequena, mas tão cheia de momentos particulares...
Descritos em fracassos amorosos, amigos distantes e tormenta...
No final de sua caminhada... com as gotas de chuvas rareando sobre o corpo
Acolheu um suspiro de nostalgia e sabia que no fundo tudo era momento...
Tempo, e que o tempo que estava na sua ampulheta emocional já havia se esvaído
Como a areia fina...
Nem tudo era tristeza, havia ainda um futuro, mesmo que incerto, mas era sua força
E suspirou novamente... Arfou cansada e se deixou navegar por micro imagens
Sensações almagamadas em nostalgia e deliberou em sua mente que era
Uma questão de saber caminhar, reerguer e continuar sempre em frente...
Sozinha... Talvez, mas forte para continuar a caminhada.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Alfredo Alcala - Gênio filipino dos quadrinhos


Caso o mundo tivesse um museu com os maiores artistas dos quadrinhos de todos os tempos, Alfredo Alcala teria uma sala de honra com todo o seu acervo. Alcala foi o melhor arte-finalista do grande desenhista John Buscema, quando este desenhava Conan, o bárbaro. Mas Alcala era um pontente artista de multirecursos no uso de sombras e luz. Nunca vi alguém gastar tanta tinta nanquim quanto ele. Falecido em 08 de abril de 2000, Alfredo Alcala nasceu em Talisay (Filipinas), e fez trabalhos inesquecíveis para as duas grandes editoras mais importantes do EUA, Marvel e DC Comics - o seu trabalho para o Monstro do Pântano, na época de Alan Moore, é sensacional. Segue abaixo uma série de trabalhos do mestre.

Note os detalhes dos traços, o uso notável das sombras e a precisão milimétrica no que ele trabalhava com os backgrounds. Para ver melhor cada figura clique em cima uma vez.